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AmorOdiar o próximo: A verdadeira Idade das Trevas

por Pedro Gabriel (25/11/2010)

O tempo atual, ao contrário do passado, é extremamente delicado

por Pedro Gabriel – “Eu não lhe dei, Adão, nem um lugar predeterminado, nem quaisquer prerrogativas, a fim de que você possa tomá-los e possuí-los através de sua própria decisão e de sua própria escolha.” É assim que Deus fala na Oração Sobre a Dignidade do Homem, escrita por Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494). Tais palavras carregam em seu bojo, com uma espantosa clareza, a expectativa o que pulsava no coração do Humanismo renascentista: a liberdade do Homem, que pela sua inteligência e livre-arbítrio torna-se livre para construir seu próprio projeto de vida. Estava inaugurado o movimento humanista, derivado de humanitas, que no tempo de Cícero (106-43 a.C.) designava a educação do homem considerado na sua condição propriamente humana (ao menos os humanistas que enxergavam humanos em todos os momentos da história assim nos fizeram acreditar).

Poucas empreitadas humanas foram tão ingênuas. Autonomia e liberdade, ilusões então criadas recentemente, foram celebradas como conquistas e se constituíram na base para a criação do ideal modelo de Estado, direitos, modelos de governo, tribunais e demais alfaias que nos dão a ilusão de estarmos bem longe das clavas neandertais. Erasmo de Rotterdam tentou nos alertar para o ridículo dessas empreitadas fazendo a apologia de sua stultia, mas o Elogio da Loucura não foi suficiente para deter os que olhavam desdenhosamente para o medievo, tal como Petrarca com sua ideia de que a Idade passada havia sido de trevas: tenebrae era.

Esta zombaria dizia respeito a um suposto obscurecimento intelectual que a humanidade teria vivido entre os séculos V e XV (na baixa e alta idade média), justamente o período onde a humanidade conheceu a música barroca, a arquitetura gótica, o canto gregoriano, a criação da maioria dos instrumentos que hoje compõem a câmara, dentre outras tantas produções culturais. O que dizer então sobre o efeito das tais luzes para a vida em que mesquinha e amendrotadamente vivemos hoje? No medievo o mundo funcionava de acordo com regras claras e muito definidas: ninguém era ferido sem estar segurando uma espada. Havia lógica e havia laço social.

Acreditar na liberdade e na justiça e viver como se estas fossem disposições humanamente possíveis e acessíveis a qualquer indivíduo (como quiseram os humanistas, renascentistas e iluministas) não nos fez tanto mal: gerou um Estado hipócrita, superficial e corrupto, mas em momento nenhum ameaçou a nossa raça de extinção. O preconceito moralista e o sofrimento não eram sequer novidade: eram velhos conhecidos que retornavam com força adicional e que, como todo efeito anterior de uma tentativa de intervenção no real pelo simbólico, nos convidava a recomeçar. Nisso se irmanaram pré-história tribal, idade clássica, medievo (falso touro espanhol domado, como disse Drummond de outra desilusão).

O tempo atual, ao contrário do passado, é extremamente delicado. É preciso falar baixo e pisar leve. De luzes apagadas amargamos a primeira e verdadeira Idade das Trevas (Profundas Trevas, aliás). Vivemos hoje à beira da dissolução, no chamado “Deserto do Real” que se instaura justamente no fim da lógica de convivência e do acordo social válido para todos os integrantes que participam do jogo (condição da antiga democracia, hoje em estado de falência). A dissolução nos bafeja de perto e de longe e em breve a humanidade realizará o seu antigo desejo de “não-mais-ser”. O ódio que é exercido a céu aberto vem em nome do bem (que ganhou o nome de reparação) e do amor ao próximo (quem em uma dialética estranha ao ser chamado de próximo é amputado do meu grupo e dos direitos que são meus: é próximo porque não é do meu grupo, é vizinho, é digno de compaixão).

O próximo é o diferente, é o outro e, como tal, é meramente suportado e tolerado até que o pano caia. Se sou negro o branco é meu inimigo e quero acordos sociais para mim, para os meus. O que importa se o branco punido não tem culpa individual ou se o negro beneficiado sequer é negro? Do que importa a obra de Gilberto Freyre que denuncia nossa mesticidade negada? De que improta se o resto do mundo que nos olha só vê mestiços? De que importa que as raças não existam na natureza e que são invenções políticas para beneficiar os líderes das raças? De que importa que a escravidão tenha sido um fato econômico e geográfico e não étnico (eram africanos os escravizados, não negros) e que tenham havido negros donos de escravos? Pra quê refletir com rigor se a ideologia se mostra mais concorde com a irracionalidade e o ódio que desde sempre existe no homem e que a contemporaneidade decidiu exercer com refinamento? O mesmo raciocínio serve para o movimento feminista que conseguiu (supostamente falando em nome das mulheres as quais efetivamente não representam) desequilibrar a isonomia de direitos existente há um par de séculos com a Lei Maria da Penha. O mesmo serve para as vindouras leis baseadas em etnias, condição sexual e sabe-se mais o que vai ser usado para acrescentar direitos. Diante desse quadro os governantes não são mais chefes de um Estado e o conceito mesmo de cidadania se pulveriza porque não há mais cidadãos e sim grupos. Conforme Marcel Gauchet, o papel dos estadistas hoje é o de administrar esse pluralismo de interesses dos grupos que querem a Coisa pra si.

O que nos constitui vem de fora e vem de cima. O dilema humano não se resolve com acordos ou projetos de sociedade. O velho relógio da vida que em nós lateja clama pelo seu desarme e a teoria das pulsões do velho Freud ainda nos ensina, com muita atualidade, que a vida em nós quer morrer. Deixar que a chama se extinga a seu tempo suportando os ventos que a acossam justamente quando ela é mais bruxeleante parece ser mais digno do que inviabilizar a sociedade pela navalha da divisão. Abandonado às massas barulhentas o homem ignora sua solidão de indivíduo e nega-se a partilhar com seus irmãos de condição (“Mon semblable, mon frère”, como disse Charles Baudelaire) o triste peso da carne e nossa vulnerabilidade ante o não-simbolizável.

Talvez Bernardo Soares esteja certo. Talvez a vida seja mesmo uma hospedaria desconfortável onde somos obrigados a nos demorar até que chegue, implacável e sem horário marcado, a diligência do abismo. Podemos, entretanto, encontrar poesia também aí, cantarolar e nos divertirmos um pouco enquanto esperamos. Sobretudo é possível aguardar de casa limpa, mesa posta e com cada coisa em seu lugar.

Pedro Gabriel

Psicanalista, mestre em Psicologia pela UFPE.