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Relembrando Ivo Rodrigues (1949-2010)

por Amálgama (19/11/2010)

GILDA E. KLUPPEL - Ivo ultrapassou o limite do silêncio para cantar em outras bandas

por Gilda E. Kluppel * – A cidade de Curitiba chegou a reivindicar o título de capital do rock devido às diversas bandas de garagem que apareceram e aos muitos bares existentes, regados ao som do rock and roll. O clima da cidade, repleto de dias frios e chuvosos, parece estimular as composições com um toque mais pesado. Contudo, uma banda em especial abriu as portas para despontar o rock no cenário curitibano. Era a banda do Ivo, Ivo Rodrigues ou Ivo do Blindagem.

Este ano, Ivo ultrapassou o limite do silêncio para cantar suas músicas em outras bandas, deixou muitos órfãos e a cidade de Curitiba mais cinza; como herança ficam a sua poesia e os seus inúmeros seguidores. O poeta, dos bares e das madrugadas gélidas, não era um daqueles artistas inexpressivos que cantam apenas para conquistar fama e dinheiro. Ivo era a irreverência em pessoa e estava acima do desejo mundano de se tornar celebridade, este desejo deixou para os tolos.

Conhecido como a “voz disfarçada de gente”, compunha músicas não para o consumo e o descarte imediato, tocadas em uma temporada de verão. A poesia, embalada pelo tom crítico sobre as contradições da sociedade, nunca medida pela porção de lucro capaz de gerar ou pelo nível de exposição na mídia; porque sua música rima com estética e não com refrão qualquer em que dinheiro rima com primeiro.

Ivo viu a vida, Ivo viu a Chave, Ivo viu Leminski, “haja hoje para tanto ontem”, e Ivo viu a Blindagem.

Ivo Rodrigues manteve uma parceria com o poeta curitibano Paulo Leminski em muitas composições e constituiu um vigoroso patrimônio musical, com a banda A Chave excursionou pelo país. Quando A Chave encerrou suas atividades, Ivo passou a integrar a banda Blindagem como vocalista, permanecendo até o final de sua vida; numa criativa união por mais de trinta anos. Blindagem, a banda mais conhecida no estado do Paraná. Blindagem, o revestimento metálico que impõe respeito e protege dos projéteis que podem ferir, matar e destruir. Nome forte e apropriado para a banda, pois os morteiros ou modismos passageiros não atingiram suas canções.

Aos muitos que buscavam alívio para os ouvidos do lugar-comum, no qual circulam tantas músicas, encontravam refúgio na voz potente da banda Blindagem ecoando pelos botecos da cidade. A expressão paranaense do rock sobreviveu preservando a sua essência, fazendo o que gostava e da maneira que queria; por isso se tornou especial. Caso os que se aventuram nas artes levassem em consideração a frase da escritora Katherine Mansfield: “Se nos é impossível permanecermos puros, não tentemos ser artistas”, teríamos mais brilho para os verdadeiros talentos no cenário nacional.

Não ficou indiferente, aos olhos da banda Blindagem, um dos maiores danos contra o patrimônio natural do Brasil e da humanidade: a destruição do Salto de Sete Quedas. Em “Adeus Sete Quedas”, a despedida da grandiosa cachoeira do rio Paraná, onde o som da queda das águas podia ser ouvido de longas distâncias. O Salto de Sete Quedas era a maior cachoeira do mundo em volume de água e desapareceu, no final do ano de 1982, com a formação do lago da Usina Hidrelétrica de Itaipu. A letra ressalta o inconformismo: “E o homem sangrou a Terra / Furou os montes / Perfurou espaços / Assassinou florestas / E por não ser Deus / Não descansou no Sétimo Dia”.

No ano em que a banda completou trinta anos de atividade, em 2007, uma merecida comemoração em grande estilo com o espetáculo “Rock em Concerto” e muitas surpresas para o público; entre tantas, a inclusão de músicas eruditas no repertório do show, como a “Quinta Sinfonia de Beethoven”. A Blindagem tocando com a Orquestra Sinfônica do Paraná e a execução de clássicos, tais como “Loba da Estepe”, “Gaivota”, “Se eu Tivesse” e “Miragem”, além de trabalhos inéditos. Um encontro inusitado do rock com a música erudita.

Felizmente a Blindagem, mesmo sem a voz do Ivo, segue em frente lembrando que o sonho não acabou e novas inspirações suscitarão para este dinossauro do rock. Os holofotes nacionais não iluminaram a Blindagem, pois muitos pelo país afora desconhecem a qualidade dessa banda e, certamente, se privam do prazer em ouvir as belas canções.

Ivo, o Blindado? Blindado pelo talento, não foi cooptado pela banalidade dos refrões previsíveis, das letras sem sentido que apelam para o sentimentalismo, cantaroladas pelos ídolos de ocasião no contexto musical comercial. Ivo apenas não estava blindado da morte, como chegamos a imaginar: um imortal que jamais sairia do cenário curitibano. Enquanto parte do nosso patrimônio, uma resistência aos modismos da indústria cultural, contribuiu para que a cidade não perdesse sua identidade.

Era fácil encontrar o Ivo e o seu inconfundível cabelo comprido e encaracolado nas noites curitibanas, cantando em bares tradicionais da cidade. Quando a noite chega… Os bares da cidade estão consternados por não poder mais ouvir o Ivo, que, como uma gaivota, agora faz parte do vento que o levou para um encontro com Leminski no paraíso. Haja paraíso para tanto talento, com Ivo Rodrigues e Paulo Leminski juntos.

* Gilda E. Kluppel, Curitiba-PR, professora e Mestre em Educação pela UFPR.

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