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Você, leão sulista do Norte

por Amálgama (04/11/2010)

EDUARDO FURBINO - Nossas origens remontam à terra do Sol

por Eduardo Furbino * – Etrusco. A palavra não te diz nada, e se disser há boas chances de você ser um professor de história e saber de antemão onde quero chegar. Os etruscos dominaram parte da península itálica durante um bom tempo, conquistando Roma quando ela era apenas uma aglomerado de aldeias. Até o primeiro século antes de Cristo os romanos haviam anexado todo o território antes pertencente aos etruscos, mas sua cultura ainda vivia em meio a eles, permeando sua sociedade e contribuindo para dar forma a um dos maiores e mais poderosos impérios que esta Terra já abrigou.

Nordeste. Esse nome talvez te diga algo. O povo que habita o nordeste do Brasil não é bem um povo, é, quando muito, o povo: parte constituinte de um Brasil que encontra-se unido na diversidade (lema da civilizadíssima (ironia tangível) União Européia). Esse país de onde falo começou bem ali no Nordeste, em uma dobrinha de terra que ou é Porto Seguro ou Santa Cruz de Cabrália, já que falta consenso quanto ao local onde Cabral aportou. Lá conheceram-se os índios. Lá conheceu-se o sexo entre portugueses e índios, a transmissão de doenças, a pele parda. Foi bem ali, naquela porção nordeste repleta de árvores (as da extinta Mata Atlântica), gente e bichos que tudo começou. E foi de lá que você e eu viemos.

E aí decidiu-se explorar um pouco mais essas terras brasileiras, decidiu-se descer rumo ao Sul, movimento que se repetiu em igualmente sucessivas épocas de nossa História. E o povo nordestino originário, embriões do povo brasileiro atual, miscigenou-se ainda mais, se dividiu, ocupou partes distintas em porções de terra, capitanias e Estados. Tornou-se diferente, assulizando-se, verbo inventando para este texto cujo significado é “tornar-se do Sul”. O nordestino, brasileiro original (que, a bem da verdade, é originário de outros: os indígenas), perdeu suas características e diferenciou-se de seu estado primevo: mudou de sotaque, de tom de pele, mudou de traços culturais, ethos e gostos compartilhados.

E aí, quinhentos anos depois de nosso nascimento lá naquela dobrinha de terra situada em algum ponto do Norte, nós que vivemos no Sul passamos a nos considerar sulistas natos. Aqui, na porção meridional do país, as cidades são maiores, as indústrias mais desenvolvidas, os transportes de melhor qualidade — e chegamos mesmo a ter saneamento básico, esse oásis no meio de um deserto-nação insaneado. Então olhamos para cima, parcialmente esquecendo nossas origens, porque o umbigo que é nosso não quer saber dela, e maldizemos o ponto de partida, querendo reivindicar para boa parte desse povo uma outra parte de direitos e méritos que não lhe pertence.

Você pode discordar de mim, mas fui ensinado a pensar (pelas pessoas que assim me ensinaram e pelos livros que me educaram, alguns deles escritos por pós-doutores de grande saber) que a parcela de culpa referente a um fracasso pertence a todos que fracassaram juntos. E que, igualmente, a parcela de mérito do sucesso é de todos aqueles que a ele chegaram. Assim sendo, como ignorar que o alto IDH desse sudeste de meu Deus foi carregado nas costas, antes e hoje em dia, pelo baixo (mas em ascensão!) IDH desse norte-nordeste de meu Lula? E invoco Lula não contrapondo-o ao Todo Poderoso, mas elevando-o ao status de figura mítica praticamente responsável pela situação da região nacional à qual seu nome corriqueiramente é ligado.

É comum, muito comum — e igualmente triste –, pensar no sul-sudeste como lugar que deu certo por mérito de seus habitantes, pela força de seu trabalho ou — como eu disse acima, e muitos outros recentemente o fizeram — por intervenção divina. E é igualmente comum atribuir o fracasso socio-econômico de nossa porção mais setentrional à suposta preguiça de seu povo, ao assistencialismo coronelístico ou ao poder entorpecedor das bolsas-ajuda distribuídas pelo Governo. Deus e o labor seriam os criadores de um sul rico; o mau-caratismo populacional e um presidente operário (e pernambucano) o destruidor e potencial messias, respectivamente, do caricaturado paupérrimo norte.

Temos, então, uma fração de país que encontra-se em débito histórico com outra, que possui, por sua vez, crédito não só de dias anteriores como de dias recentes. Porque as origens desse povo que se diz dono do Brasil remontam à terra do Sol, macaxeira e sertão (antes mesmo dessas coisas existirem ou terem tal nome): eles são nordestinos stricto sensu, porque não dá para desobedecer as sagradas escrituras daquele mesmo Deus citado acima, quando essas disseram: não desonrarás a casa de teu pai. E o motivo da constante invocação de divindades no texto é tentar jogar com um dos elementos dos quais sulistas se valeram nas recentes eleições para cooptar votos ao seu projeto de Brasil, projeto esse que hoje se reflete em Trending Topics de Twitter por aí afora, em hashtags xenofóbicas e dizeres que embrulham o estômago e fazem arder esse umbigo que une todos nós a uma origem única e nortina.

Particularmente não vejo problema em continuar a insistir na argumentação de que o débito de Estados como São Paulo, Rio e Paraná têm para com Bahia, Pernambuco e Sergipe é fruto de uma necessária e urgente reparação histórica, mas me parece que esse argumento não agrada a muitos. Reparar a história é frequentemente entendido como desfazer erros que não são nossos, ou a assumir compromissos que nunca nos disseram respeito. Mas, bem, há alguns parágrafos atrás fiz entender que a culpa e o sucesso são ambos amplos, gerais e irrestritos sentimentos compartilhados por todos os membros de um time, grupo ou nação. Isso porque a habilidade de influenciar a História é uma soma de capacidades individuais, que se anulam ou reforçam-se. E o resultado dessa soma é a própria História, estando a ela sujeitos todos os que a rejeitaram como ela se mostrou e todos aqueles que acolheram-na de braços abertos. É impossível que não seja feito aqui paralelo com a democracia: as decisões da maioria são, por natureza, vinculantes se advindas de um processo democrático. E é obrigação daqueles que fizeram oposição à decisão tomada aceitá-la e submeter-se a ela. Ou promover novo pleito para que uma alternativa seja — democraticamente — discutida.

Encaro o beco sem saída. Meu tempo se esgota e é preciso um desfecho de tudo o que foi dito, um porquê final que valide a idéia exposta de o Sul hoje ter uma dívida com o Norte, e não o contrário. O que invalidaria por si só os argumentos de que bolsas-família e outros auxílios seriam esmolas. Não são. Esses dois recortes de Brasil foram responsáveis por dar forma às suas atuais configurações: se antes as terras setentrionais abrigavam a maior concentração de renda e tecnologia desse país, hoje é o contrário, e essa dinâmica socio-econômica deu forma à realidade tal qual a conhecemos. Se agora há atraso no berço da pátria, não pode o túmulo dela proclamar uma suposta independência, nem agir como se não houvesse vínculo nenhum de dependência e obrigações a ligá-los.

E aí voltamos ao exemplo que abre este epopéico apanhado histórico, voltamos aos etruscos. Se nosso Sul fosse Roma, o Norte seria a Etrúria, que lhe deu forma através de processos diversos, destacadamente dois que terminam em -ão: migração e miscigenação. A influência da civilização etrusca na romana pode ser mensurada de diversas formas, segundo a cultura, a linguagem, a história ou as artes. E no que nos influenciou o povo brasileiro original? Em tudo, vale dizer, desde no motivo de chamarmos nossa casa de Brasil até no porquê de hoje sermos a oitava maior economia do mundo (a esse respeito: a economia possui lastro histórico; a partir disso, a recíproca é verdadeira). Mas, bem, diversas outras comparações entre povos poderiam ter sido usadas, só que escolhi essa por causa de seu valor pessoal para mim. Explico e concluo.

Aos doze anos tive um professor de História cujo primeiro nome tinha origens etruscas: Aulus. O segundo era visivelmente romano, cesário: Augustus. Muito da minha consciência político-cidadã-militante foi formada com e por esse professor, e me lembrei dele logo ao escrever o primeiro parágrafo deste texto, mais especificamente do modo como a memória de dois povos divergentemente iguais conviviam harmoniosamente em um único nome. Penso que também é assim com “Brasil”: há na palavra uma carregada carga histórica que remete ao povo que fomos e ao que somos, e também ao que queremos ser, e é a esse terceiro significado que quis me ater desde o princípio, e finalmente posso fazê-lo nessa despedida.

Pois bem, eu poderia encerrar este texto das mais variadas formas, mas nenhuma delas me pareceu mais objetiva que um último apontamento histórico: os romanos, essa citada população em parte descendente dos etruscos, que com eles conviveu e depois incorporou-os, foram dependentes deles para que sua civilização atingisse o apogeu. Mais: esses mesmos romanos, ao acolherem o povo que lhes deu origem dentro do seu próprio corpo social, tornaram-se maiores que a soma de suas partes. Se hoje nos enxergamos como pedaços partidos de uma mesma identidade, tratemos de colá-los. Caso contrário, não teremos nenhuma. Caso contrário, seremos o que não fomos: um povo que, ao apagar seu passado, desconstrói o presente e nega o futuro.

Voltar-se às origens, e não contra elas, é isso o que importa.

* Eduardo Furbino, Belo Horizonte/MG, é bacharelando em Ciências Sociais pela UFMG. Blog: eduardofurbino.com

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