PESQUISA

A condição da mulher no mundo

por Bia Cardoso (30/11/2011)

Livro de mais de mil páginas traz um amplo balanço dos desafios das mulheres em todos os continentes

-- "O livro negro da condição das mulheres", de Christine Ockrent (dir.) e Sandrine Treiner (coord.) --

Por mais que algumas pessoas digam que as mulheres já conquistaram todos os direitos, não é isso que os dados mostram. De acordo com os dados recém divulgados do Censo 2010 do IBGE, há no Brasil 3.941.819 milhões de mulheres a mais que homens. Um número que impressiona. Para cada grupo de 100 mulheres existem 96 homens. Mesmo sendo maioria na população as mulheres lidam diariamente com a violência, a desigualdade nas relações, o medo, a insegurança e a falta de liberdade. As zonas de sombra que atravessam as vidas das mulheres são o principal assunto do Livro negro da condição das mulheres, um calhamaço de 822 páginas de texto com o objetivo de falar abertamente sobre as injustiças que afligem as mulheres no mundo de hoje.

O livro é uma publicação francesa, composto por 56 artigos e divido em cinco partes: segurança, integridade, liberdade, dignidade e igualdade. O objetivo é ser abrangente, mas a maioria dos artigos trata da realidade de países africanos, árabes e asiáticos quando o assunto é violação de direitos humanos, e da Europa quando trata de relações de gênero igualitárias. O continente americano só tem destaque devido aos casos de feminicídio no México e Guatemala, além da política de George W. Bush. Entre os assuntos mais abordados estão: mutilação genital, casamento forçado, violência doméstica, infanticídio feminino, exploração sexual, crimes de guerra, tráfico humano e feminicídio. Por mais que tudo pareça extremamente triste e longe de um fim, a mensagem final é de que há esperança, pois sempre há mulheres lutando e conquistando novos espaços.

A organizadora Christine Ockrent e a coordenadora Sandrine Treiner são jornalistas e escritoras. A maioria dos artigos, portanto, não tem um teor acadêmico, possui mais estética de reportagem. Os artigos são curtos, com uma média de 15 páginas. Isso evidencia a preocupação em fazer um livro grande, mas de fácil acesso, um documento de denúncia das condições desprezíveis e indignas com as quais muitas mulheres vivem. Logo no prefácio avisam: não há religião ou costume que justifique o assassinato, a mutilação, a tortura, o estupro ou a execução de uma pessoa apenas por ela ser uma mulher. Não são puristas do etnicismo e não aceitam a acusação de imperialismo cultural. A diversidade cultural deve ser preservada, mas não ignorando os direitos humanos mais elementares. O que deve prevalecer no final é a integridade e dignidade da mulher.

Segurança é o tema da primeira parte do livro, um olhar sobre os atentados à segurança das mulheres. O infanticídio de meninas em países como Índia, Paquistão e China provocam um desequilíbrio social, mas também ameaças econômicas, pois não há mulheres para aumentar os índices populacionais. Quando sobrevivem, muitas meninas são exploradas por meio do trabalho escravo ou da prostituição. O estupro é uma das grandes armas de guerra. Porém, não é só o inimigo que as mulheres devem temer. Dentro de suas casas, a maioria dos agressores está na própria família. Em nome da honra, mulheres são mortas e evitam fazer denúncias. Há várias reportagens sobre crimes de honra nos países mulçumanos e na Europa. E dois textos sobre o assassinato em massa de mulheres em Ciudad Juárez no México e na Guatemala.

A segunda parte foca na questão da integridade física das mulheres. O corpo das mulheres é muitas vezes propriedade do pai, que passa para o marido como uma transferência de bens. Em todos os continentes, diariamente, mulheres são estupradas. Aos olhos de seus agressores, são apenas objetos. E infelizmente, é no universo familiar e conjugal que as mulheres mais correm perigo. Mutilações sexuais advindas de tradições culturais ferem e decepam a sexualidade de milhares. A contaminação pelo vírus HIV cresce, agravada pela pobreza, conflitos, prostituição e violências sexuais.

A liberdade é o tema do terceiro capítulo. Na África, no mundo árabe, na Ásia e em algumas comunidades as mulheres não têm liberdade para ir e vir. Não podem escolher com quem casar ou decidir como querem viver suas vidas. Não possuem direito a heranças e nem propriedades. O véu torna-se símbolo de um debate muito maior. A liberdade de dispor do próprio corpo mostra-se muitas vezes uma conquista frágil, especialmente com o crescimento do conservadorismo político e cristão. Mesmo na Europa, o direito ao aborto é muitas vezes contestado. Os direitos civis das mulheres permanecem desrespeitados. Destaque nessa parte para duas reportagens: as feministas no Irã e os jogos olímpicos islâmicos. Pequenos símbolos de resistência e mudanças.

Na quarta parte, os textos tratam sobre dignidade, o direito fundamental que define o mundo civilizado e o ser humano. O tráfico de mulheres cresce mundialmente. O comércio é uma atividade extremamente lucrativa, com bases na pobreza, no infortúnio e na ignorância de pessoas excluídas socialmente. A prostituição e o turismo sexual exploram crianças e adolescentes sem nenhuma lei. As adultas, quando presas, enfrentam regimes carcerários cruéis e humilhantes. A questão da prostituição é um dos temas mais discutidos do capítulo; há inclusive descrições de debates na ONU sobre o tema. Não é uma questão simples, mas o que está em jogo é a exploração sexual de mulheres.

Na última parte, o assunto principal é a igualdade dos sexos. O direito ao voto, a representação política e condições iguais no mercado de trabalho são conquistas que beneficiaram muitas mulheres. Porém, no geral elas são mais pobres que os homens. E mesmo nos países ocidentais, considerados modernos e cosmopolitas, a revolução continua inacabada. Enquanto a dupla ou tripla jornada feminina existir, não há igualdade. A mulher não pode ser a principal e única responsável pelos cuidados com o lar, as crianças e os idosos. A igualdade dos sexos também é condição primordial para o desenvolvimento econômico, social e pessoal. Destaque para a reportagem “O microcrédito no mundo, uma ferramenta a serviço das mulheres.”

O livro traz diversas estatísticas, depoimentos e reportagens especiais que escancaram a situação difícil, perigosa e indigna em que muitas mulheres vivem. Simplesmente nascer mulher é um fator de risco constante em todo o mundo, além de ter um valor menor atribuído a seu trabalho e baixa representatividade política. Porém, sempre há focos de resistência e desejo de mudança. Em 1999, a ONU decretou o dia 25 de novembro como Dia Internacional Pelo Fim da Violência Contra a Mulher. A data é uma homenagem às irmãs Mirabal, que em 1960 foram perseguidas e assassinadas pela ditadura da República Dominicana. Essa data existe para não esquecermos as injustiças cometidas contra as mulheres. Assim como esse livro, é mais uma ferramenta na luta por direitos humanos universais.

::: O livro negro da condição das mulheres :::
::: Christine Ockrent (dir.) e Sandrine Treiner (coord.) ::: (trad. Nicia Bonatti) :::
::: Bertrand Brasil, 2011, 1.190 páginas :::
::: compre no Submarino ou na Livraria Cultura :::


Bia Cardoso

Feminista, coordenadora de grupos de mulheres na internet.



avatar
Bruno Cava

Quando tiver um livro sobre o racismo, vai se chamar “Livro Negros sobre os Negros”?

James Piter
James Piter

Como as mulheres sofrem neste mundo de meu Deus.

wpDiscuz