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Os medos de fêmeas e machos

por Bia Cardoso (28/11/2011)

Acho bom que os estereótipos de homens e mulheres estejam em crise. Mas há quem se aborreça

As pessoas costumam repetir por aí que o homem está perdido, não sabe mais qual o seu papel. Que a mulher está confusa e não sabe o que quer. Ouve-se ao longe os gritos de súplicas: Onde está o homem com H maiúsculo? Por onde anda a mulher doce e meiga que sonha em fazer uma comidinha caseira para o marido? As revistas questionam sempre com um tom decepcionado, perguntando: o que fazer agora?

Mas por que nos decepcionar com a mudança de papéis sociais? Por que nos entristecer com o fim de papéis sociais que não cabem mais em nossos bolsos como “o chefe de família”? Acho extremamente revigorante que a sociedade esteja mudando, que homens e mulheres estejam em crise quanto a estereótipos que não explicam mais nada sobre as relações humanas. Porém, muita gente parece estar aborrecida com isso.

Este mês caíram em minha mãos duas reportagens que falam sobre o medo de ser fêmea e o que é ser homem. Será que existe uma resposta para essas perguntas — o que é ser mulher ou homem? Acredito que não. Por mim viveríamos numa imensa amoreba. Mas as pessoas insistem em perguntar: mas se nascer uma criança, é filho de quem? A amoreba vai pagar escola e cuidar quando estiver doente? As pessoas parecem não entender que toda pegação será justificada. Mas voltemos aos nossos medos primitivos.

Na matéria “Aprendendo a ser mulher“, da revista IstoÉ, a solução para o aterrorizante medo de ser fêmea está em cursos que ensinam a recuperar a essência da feminilidade. Pensava que bastava ver televisão ou ler uma revista feminina? Há algo ali que foge da clássica feminilidade? Há mulheres vestidas de caminhoneiras coçando saco e jogando pôquer nos editoriais de moda? Não há. Mas vamos tentar entender qual o problema: “As mulheres estão fortes, poderosas e mentais, o que é ótimo”, explica a matéria. “O problema é que se masculinizaram tanto que temem ser fêmeas.”

Onde as mulheres se masculinizaram? No excesso de botox? Na busca eterna pela juventude? Nas dietas malucas? Mulheres não são agressivas? Não podem ser competitivas? E por que não pensar em equilibrar isso nos homens? Que tal homens mais sensitivos e sensíveis? Será impossível ou precisaremos sempre de cursos para exercitar aquilo que nos é podado diariamente?

Do lado dos homens, a afirmação da matéria “Afinal, o que é ser homem?“, na Revista da Cultura, é: o macho está perdido. Pergunto: os machos estão perdidos sendo a grande maioria do Congresso Nacional? Os machos estão perdidos no comando das maiores empresas do país? Os machos estão perdidos vendo mulheres se desdobrando em duplas ou triplas jornadas? Acredito que não. Porém, vamos considerar que eles possam estar perdidos nos relacionamentos, afinal as pessoas insistem em acreditar em fórmulas racionais que façam uma pessoa ser feliz com outra. E o mais surpreendente é que lésbicas também devem estar com medo de serem fêmeas e gays também devem estar perdidos. Ou será que a heterossexualidade é o único elemento em crise? Hum…

Respostas para todas essas perguntas não são meu objetivo. Quero justamente embaralhar sua cabeça no meio da amoreba, para dizer: somos humanos. Já passamos do tempo de saber o que uma mulher ou um homem faz ou deve fazer. Há mulheres que nunca cozinharam e adoram andar de skate. Há homens que não se interessam por carros e gostam de morar na praia. Há mulheres que adoram seus cabelos compridos e fazem aplicativos para celulares. Há homens que trocam fraldas e assistem futebol com a mãe. Há mulheres que fazem kung fu e são mães solteiras. Há homens que adotaram uma criança e viajam com ela pelo mundo. Há mulheres que moram em favelas e dirigem caminhões. Há homens encarcerados que desenham flores nas paredes. Não há mais espaço para medos, porque com medo não ultrapassamos os limites do ser mulher ou homem. Somos muito mais que isso.

É preciso descascar todas essas definições de homem e mulher justamente para atingir a igualdade de direitos. Não uma igualdade sem diferenças, mas uma igualdade que represente uma sociedade justa e acolhedora. Sem medos e preconceitos. Compartilhando com todos os espaços de decisão e liderança. Fêmeas e machos, deixem de lado seus medos e inseguranças. Somos todos imperfeitos, mas podemos sonhar com o amor, a única forma possível de perfeição.

Bia Cardoso

Feminista, coordenadora de grupos de mulheres na internet.