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Alguns livros mais

por Amálgama (30/11/2012)

Síria de Assad. Europa pós-Guerra. Graciliano Ramos

(outros lançamentos que merecem sua atenção, em rápidos comentários – por Daniel Lopes)

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Quando comentei numa rede social sobre o lançamento desse livro de Fouad Ajami, um amigo entendido de política internacional disse que correria para colocar o livro na fila de leituras, porque ele conhecia Ajami de The foreigner’s gift (2007), em sua opinião a melhor coisa que lera sobre a guerra do Iraque. Fui então atrás de ler The foreigner’s gift; de fato é um excelente livro. Depois finalmente passei para este The Syrian rebellion. Igualmente ótimo.

Ajami é um libanês radicado nos Estados Unidos. No campo de política externa, pode ser classificado como um neoconservador. Trabalha na Hoover Institution (por cuja casa editorial esta sua obra mais recente saiu), um think tank apologista da influência estadunidense no mundo, inclusive de suas ações militares em terras muçulmanas como o Kosovo e o Iraque.

Fouad Ajami começa o livro com a história da região da Grande Síria (Síria e Líbano) e chega à história mais recente de sucessivos golpes baathistas, expurgos, influência síria na política libanesa, crimes contra a humanidade de Assad pai, as barbaridades atuais de Assad filho, a quase total inação da ONU, Liga Árabe, e vazio moral dos BRICS. O autor é favorável a um peso maior do governo Obama para acelerar a derrubada de Assad, embora não o diga tão claramente, e muito menos dê detalhes de como isso poderia ser feito sem tampar um buraco e abrir outros.

Desde quando o livro saiu, algumas das análises de Ajami precisaram ser atualizadas: Alepo não é mais uma cidade calada, objetivamente pró-Assad; a fronteira Turquia-Síria está bastante inflamada; e as grandes democracias mundiais, junto a seus aliados sunitas no mundo árabe, parecem finalmente estar começando a se mover mais decisivamente para derrubar a ditadura. Quanto à gravidade do racha entre as diversas seitas que compõem a Síria, principalmente o racha alauíta-sunita, o autor não nutre ilusões: “Os alauítas e aqueles que virão a governar o estado sírio terão que elaborar um pacto entre si mesmos. Para os alauítas, seu lugar está destinado a ser algo equidistante entre a subjugação dos velhos tempos [pré-baathistas] e o poder que acumularam em quatro décadas de ditadura. Aquele terrível passado fora injusto com os alauítas, e a ditadura sectária, tanto artificial quanto cruel para a maioria da população. Não será fácil para os sírios encontrar uma saída do caldeirão de sua história recente.” / The Syrian rebellion, Fouad Ajami, Hoover Institution Press, 2012, 260 páginas

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O livro de David Stafford (Universidade de Edimburgo) é sobre o imediato pós-guerra no continente europeu. Foca nos últimos acessos de fúria do nazi-fascismo, eliminando civis indefesos enquanto batiam em retirada, na chegada das tropas aliadas em terras antes ocupadas por nazistas, nas medidas de divulgação da barbárie nazista empreendida por esses mesmos aliados junto a parcelas de populações antes neutras ou pró-Eixo, na perdição de sobreviventes em busca de parentes sumidos… E na conferência de Potsdam e o início da Guerra Fria. Muitas vezes, a narrativa percorre esses momentos cruciais através do ponto de vista de soldados e civis comuns. Uma leitura bastante acessível. / Fim de jogo, 1945: O capítulo que faltava da Segunda Guerra Mundial, David Stafford, Objetiva, 2012, 704 páginas

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Graciliano acaba de completar 120 anos e Garranchos, com textos nunca antes reunidos em livro, é item obrigatório para os admiradores do velho alagoano. A organização é de Thiago Mio Salla. Os textos, curtos, vão da década de 1910 à de 1950. A temática é eclética, a diversão é garantida. Artigo de maio de 33 sobre o engajamento político das mulheres: “Afinal temos aqui vencedor o nosso pequeno feminismo caboclo. Pouco importam as opiniões irritantes que pessoas biliosas manifestam a respeito do cérebro da mulher. A esta hora nas mais distantes povoações do estado senhoras decididas se aprumam, projetam vestidos e discursos de aparato, organizam comissões para atenazar o governo. Exatamente como os homens. Os mesmos pedidos, as mesmas embromações, mas aparência muito melhor.”

O que eu adoro no Graciliano cronista e resenhista é ver que o escritor muitas vezes demonstra o mesmo mau humor, pavio curto e linguagem involuntariamente engraçada de tantos dos personagens que criou. O Graciliano comentarista de literatura — “Tem surgido espontaneamente nestes últimos tempos tanta gente nova de valor discutível que me pareceu arriscado incentivar novas estreias (…)” — me lembra Martin Amis. Vocês já leram The war against cliché? Pois leiam. Amis é o Graciliano deles. / Garranchos: Textos inéditos de Graciliano Ramos, Thiago Mio Salla (org.), Record, 2012, 378 páginas

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Ainda aproveitando os 120 anos do Graça, você pode querer pegar este Retrato fragmentado. Saiu no início dos anos 90, mas ganhou recentemente, da editora Globo, uma edição retrabalhada. Ricardo, falecido em 1992, é filho de Graciliano. Trata das riquezas, pobrezas e contradições do homem Graciliano Ramos, autor de uma vida intensa, repleta de engajamento político e cultural. / Graciliano: Retrato fragmentado, Ricardo Ramos, Globo, 2011, 272 páginas

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