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Nobre contra o Centrão

por Celso Barros (11/11/2013)

Não é muito fácil acreditar que alguns dos fenômenos discutidos por Nobre sequer existem

"Imobilismo em movimento: Da abertura democrática ao governo Dilma", de Marcos Nobre

“Imobilismo em movimento: Da abertura democrática ao governo Dilma”, de Marcos Nobre

1.

O livro de Marcos Nobre sobre a política brasileira contemporânea era aguardado com interesse por quem teve a curiosidade despertada por seus artigos na revista piauí e ficou algo decepcionado com Choque de Democracia, seu “livro de intervenção” publicado logo após as revoltas de junho. Não que Choque seja um livro ruim, mas, como notou Vinícius Melo Justo, é um livro sobre o “pemedebismo”, não sobre os protestos. E, para um livro sobre o pemedebismo (que Nobre pretende que seja a “cultura política” cujo desenvolvimento é a chave para compreender a política brasileira contemporânea), Choque de Democracia é curto demais, deixa pontas soltas demais, em que pesem seus diversos trechos inteligentes.

Imobilismo em Movimento deveria ser, finalmente, o livro de Nobre sobre o pemedebismo. É aqui que veremos se o conceito decola ou afunda, se é claro o suficiente para ser operacionalizável, e, enfim, se há realmente fenômenos explicáveis pelo “pemedebismo” que não são pelo menos tão bem explicáveis por outros conceitos.

Nobre optou por apresentar o conceito escrevendo uma história da política brasileira nos últimos trinta anos, do fim da ditadura até o governo Dilma. O livro é, antes de tudo, um sucesso como história do período, escrito por um observador obviamente inteligente e engajado. É provável que a grande maioria dos leitores o leia desta forma, e suspeito que terão uma experiência intelectual enriquecedora ao fazê-lo. Não vou recontar a história dos últimos trinta anos discutindo ponto a ponto com o Nobre nessa resenha, até para evitar o vício de resenhar criticando o resenhado por não ter escrito o livro que o resenhista gostaria de ter escrito. A propósito, Nobre incorreu flagrantemente nesse erro em seu comentário (incluído ao final de Imobilismo e Movimento) ao livro de André Singer sobre o lulismo.

2.

O pemedebismo é apresentado, ao início, como uma “cultura política” que reúne, ao mesmo tempo, os seguintes elementos: (a) o governismo, a tendência a aderir a qualquer governo; (b) a configuração da política como um sistema de vetos, mais do que de propostas positivas; (c) a preocupação em obter supermaiorias legislativas; (d) o esforço dos insiders a criar barreiras de entrada para os outsiders; (e) o esforço para bloquear qualquer iniciativa alternativa nos bastidores, fora do jogo aberto. Ao longo do livro, novas características do pemedebismo vão sendo apresentadas de maneira bastante ad hoc: (f) no pemedebismo, o apoio formal não é garantia de apoio real; (g) há um sistema de sístoles e diástoles no pemedebismo, em que as tensões acumuladas dentro do sistema são desafogadas pela criação de novos partidos (como o PSD); (h) o pemedebismo é marcado pela convicção de que a melhora das condições sociais de vida é suficiente para garantir apoio político.

Diante da questão “em que isso é diferente da política em toda parte?”, Nobre responde que é difícil citar um exemplo, além do brasileiro, em que todos esses conceitos apareçam juntos. Uma interpretação possível seria que isso prova que o pemedebismo não é um conceito, mas uma descrição de uma dada conjuntura brasileira. Mas, supondo que seja mesmo um conceito (que, no caso, descreveria uma anomalia em política comparativa), o quanto vale, analiticamente, esse conjunto de características?

Simplesmente não é verdade que os partidos políticos brasileiros sejam todos adesistas (característica “a”). Durante o governo FHC, o PT, PDT, PSB e outros pequenos partidos de esquerda (PT+“Bloquinho”) foram 100% oposicionistas (o que Nobre reconhece), e, durante os governos do PT, PSDB e PFL (DEM) tampouco aderiram em momento algum (o que, inclusive, levou ao declínio numérico dramático do DEM, que fazia oposição mais radical). Ou seja, nesse primeiro aspecto, os partidos bem descritos pelo conceito de pemedebismo são os que não elegeram presidentes, mas formaram bancadas importantes no Congresso (PMDB, PSD, PTB etc.). Justamente por não terem a iniciativa do Executivo, se organizam como sistema de vetos (característica “b”).

No que se refere à preocupação com as supermaiorias (característica “c”), encontramos já um problema recorrente na reflexão de Nobre: a sobreposição, no conceito de pemedebismo, de características que se referem a diferentes momentos (ou, no dizer do autor, “figuras”) do pemedebismo. A preocupação em formar supermaiorias seria característica do período pós-Collor, quando surge a “ideologia” de que seriam necessárias supermaiorias parlamentares para garantir a governabilidade. Nenhuma evidência é apresentada para justificar que se trate de uma ideologia, e o “contraexemplo” de Nobre, o Mensalão, claramente sugere que as maiorias são mesmo necessárias. Também não é demonstrado que, se os partidos procurassem obter maiorias um pouco menores, os problemas identificados no sistema político seriam atenuados (uma vez que nenhum partido que ganhou a presidência de 1989 até hoje esteve sequer perto de qualquer maioria que fosse).

Quanto à baixa fidelidade da base governista (característica “f”), é imperdoável que Nobre não apresente dados sobre as votações. Mas, novamente, não parece ser verdade que PT+Bloquinho ou PSDB+PFL tenham negado apoio aos governos com quem se identificavam claramente. Em vários casos, a baixa adesão prova apenas que os partidos têm mais ideologia do que se supõe normalmente. É difícil imaginar, por exemplo, que o PSD apoiasse Dilma caso ela propusesse algo muito à esquerda. Em outros casos, a situação do partido na base governista é pouco estável: o PMDB, por exemplo, por vezes negou votos a FHC, mas sempre teve dificuldade de encontrar na aliança PSDB/PFL espaço proporcional a seu tamanho, e as disputas com o PFL acabaram por quebrar a “aliança do Real” ao meio. No geral, os partidos que elegem deputado mas não têm presidenciáveis sabem que os sucessos do governo dificilmente serão atribuídos a eles, mas isso não necessariamente é verdade com relação às medidas impopulares que os governos propõem.

3.

Esse último traço do pemedebismo levanta uma questão mais de fundo: porque ele seria uma “cultura”? Há várias concepções de cultura, mas elas, em geral, tendem a enfatizar aspectos como valores, hábitos ou tradições. Por que é necessário invocar qualquer um desses fatores para discutir o pemedebismo tal como Nobre o descreve? Quantos dos atores envolvidos na história contada pelo autor tomaram qualquer medida que não possa ser explicada pelos interesses que então tinham e pelos constrangimentos práticos que enfrentavam? É possível que a repetição de interações estratégicas formem hábitos e valores, mas há alguma prova no livro de que tenha sido esse o caso?

Na verdade, não há sequer prova de que tenha havido tanta repetição assim. O pemedebismo de Nobre teve duas grandes “figuras”: (1) a atuação do Centrão na Assembleia Constituinte como bloqueio às aspirações populares que ressurgiam com força após o fim da ditadura; e (2) a ideologia das supermaiorias, que, como já vimos, não tem sua natureza ideológica propriamente demonstrada. Mesmo aceitando que as duas coisas tenham existido exatamente como Nobre as descreve, porque seriam “figuras” de um mesmo conceito? É absurdo, por exemplo, atribuir ao PMDB no governo Sarney “adesismo”, uma vez que o PMDB era o governo. De maneira algo confusa, um dos elementos do conceito geral de pemedebismo é uma de suas “figuras” (as supermaiorias). A característica “h” de Nobre parece ser uma característica do lulismo tal qual definido por Singer, não do pemedebismo (é difícil ver como aplicar-se-ia fora da era Lula e do período logo após o Plano Real, que não foi um negócio muito pemedebista). Mais de uma vez o leitor se pergunta se a opção por contar a história da política brasileira e descrever o pemedebismo ao mesmo tempo foi uma boa estratégia.

Talvez o maior problema esteja em que, quando discute o sistema político brasileiro em termos de “travamentos”, Nobre parece supor que haja uma imensa energia transformadora que é travada nesse sistema. Não há evidência de que este seja o caso, ao menos depois da Constituinte (quando o Centrão, efetivamente, foi um freio a uma intensa mobilização social). Parece mais plausível ver o pemedebismo como uma trégua, um tratado de paz provisório entre forças que não têm como avançar mais sobre as outras. Ou seja, o tipo de coisa que define a política em qualquer lugar do mundo. O sistema parece imóvel para a esquerda e para a direita porque uma impede que a outra progrida.

Esse ponto é fundamental. Muitas críticas ao sistema político brasileiro supõem que, se não fosse por suas limitações e travamentos, “o que deve ser feito” seria feito, como se nós já estivéssemos de acordo sobre o que precisa ser feito. Isso é verdade? Há um amplo consenso nacional sobre o que deve ser a reforma da previdência, a reforma tributária, a taxa ideal de câmbio, a melhor maneira de combater a crise internacional, o equilíbrio entre preservação ambiental e crescimento econômico? Se o PMDB e os aspirantes a PMDB saíssem da frente, o que teríamos? A plena realização de um programa de esquerda, a plena realização de um programa de direita, ou o choque entre as duas forças, com a formulação de uma nova trégua, que nada garante que seria muito diferente da atual?

4.

Na verdade, a direita brasileira é uma ausência notável no livro do Nobre. O neoliberalismo de FHC não é levado muito a sério, o DEM só aparece com força na hora de sumir, e Palocci é visto como um conciliador com o pemedebismo (e não com o liberalismo, a ortodoxia econômica, enfim). A narrativa é um blocão conservador disforme contra as “energias transformadoras” da sociedade, que parecem vir só de um lado. Logo ao início do livro, o exemplo escolhido para ilustrar o pemedebismo não poderia ser pior: o caso dos vídeos anti-homofobia (o “kit gay”).

Nobre vê no episódio, em que o governo desistiu de usar os vídeos nas escolas após reação de grupos evangélicos, como um exemplo de acomodação pemedebista. Ele foi tudo menos isso. Os vídeos (entre os quais havia alguns bons e um muito ruim, sobre bissexualismo – todos disponíveis no YouTube) eram uma estratégia claramente de esquerda que, sem pemedebismo nenhum na frente, se chocou com grupos claramente de direita, e perdeu. Feliciano, Malafaia e Bolsonaro não representam o pemedebismo (diga-se o que quiser do pemedebismo). Uma solução pemedebista seria a confecção de novos vídeos, bem menos arrojados (e, provavelmente, frustrantes e superfaturados), que eventualmente chegassem às escolas. Não é óbvio que essa solução tivesse sido pior, aliás.

Não acho provável que a direita permaneça fraca como esteve ultimamente por muito tempo: não lhe falta financiamento de campanha, ser liberal é uma vantagem estratégica para quadros técnicos qualificados (pois torna mais fácil transitar pelo setor privado), a esquerda sempre faz besteira, e, enfim, porque deve haver problemas nacionais que seriam melhor solucionados com mais mercado do que o PT está disposto a apoiar.

O quadro atual talvez seja bem explicado por uma boa formulação de Choque de Democracia, que Nobre não desenvolveu em “Imobilismo em Movimento”: como o pemedebismo sempre jogou a seu favor, a direita perdeu o pé quando a esquerda assumiu a liderança do sistema. A tradição nacional de acordos conservadores pelo alto (que é muito, muito mais antiga que o pemedebismo) tirou da direita o estímulo para se organizar pela base. Mas, repito, acho difícil que essa situação persista. Uma hora os partidos de direita vão se tornar mais orgânicos, seja com os evangélicos, seja com os blogueiros (em suas diversas matizes), seja quando a classe média do Lula começar a abrir negócio, seja a partir de sua ampla superioridade numérica entre os políticos brasileiros. Esqueça o governo federal por um instante e cheque se a política brasileira ainda parece dominada pela esquerda.

A existência dos partidos bem descritos pelo pemedebismo pode obscurecer o fato de que existe, sim, esquerda e direita no Brasil. Mas o fato permanece, e acho difícil entender a sobrevivência desses partidos sem compreender seu papel na acomodação entre os dois lados.

5.

Há outros aspectos em que o esquema teórico geral do livro poderia ser melhor desenhado. Nobre constrói sua narrativa supondo que houve, no Brasil, uma substituição de um “modelo de sociedade” nacional-desenvolvimentista por um “modelo de sociedade” social-desenvolvimentista. Não se entende muito bem como é produzido e funciona o modelo de sociedade (se for um conceito já estabelecido em alguma literatura, Nobre deveria ter apresentado a referência bibliográfica), mas aprendemos que os sistemas político e econômico são “expressões” do modelo de sociedade (o “modelo de sociedade” seria uma versão mais politizada do “mundo da vida” habermasiano, uma espécie de projeto de colonização do sistema?). Deduzo eu que, mais ou menos, se muda o modelo de sociedade, deve mudar os sistemas político e econômico, e acho que deduzo certo, porque Nobre encerra o livro dizendo que o grande conflito atual no Brasil é entre o modelo de sociedade social-desenvolvimentista e o pemedebismo do sistema político.

Agora, nesse esquema, ou falta um modelo de sociedade que corresponda ao pemedebismo (que seria expressão de que? Do nacional-desenvolvimentismo que colapsava enquanto o pemedebismo surgia nos anos oitenta?), ou o pemedebismo foi expressão do modelo social-desenvolvimentista. Afinal de contas, o PMDB foi o grande veículo do “progressismo” que Nobre identificou como ideologia oficial de nossa transição democrática. Visto que não é fácil identificar algum partido que tenha defendido ao longo dos últimos trinta anos o social-desenvolvimentismo (que parece uma síntese de realizações tucanas, petistas, dos constituintes de 88, com uma dose maior de ambientalismo), é o caso de nos perguntarmos se o sistema de vetos do PMDB não foi um dos pilares da construção do social-desenvolvimentismo.

Não acho, portanto, que a discussão conceitual de Nobre seja satisfatória, a não ser, talvez, como explicação do comportamento dos partidos com deputado e sem presidenciável. É, sem dúvida, um fato notável de nosso sistema político que esses partidos elejam tanta gente. Por que esse seria o caso? Deve haver mais de uma explicação (as regras para distribuição de tempo na TV e Fundo Partidário, para criação de novos partidos, e, aliás, talvez cultura política). Pode ser que uma boa pista esteja em outro bom aspecto da obra de Nobre: o resgate de Os Barões da Federação e de trabalhos posteriores de Fernando Abrucio.

6.

Não sei porque Os Barões da Federação, a tese de mestrado do cientista político Fernando Abrucio (que escreve regularmente em importantes órgãos de imprensa) não é mais editado (está disponível para download integral aqui), ao menos como e-book. Abrucio mostra como a crise do Estado desenvolvimentista brasileiro nos anos oitenta foi acompanhada de uma descentralização do poder da União para os Estados, cujos governadores ganharam legitimidade pela circunstância de o Brasil ter feito eleições diretas primeiro para governador e só alguns anos depois para presidente. Os governadores organizaram sistemas políticos estaduais fortemente presidencialistas e criaram instrumentos próprios de política econômica (os bancos estaduais, de triste memória). Em artigos posteriores (que talvez pudessem compor uma nova edição de Barões), Abrúcio mostra como foi fundamental para FHC recuperar o controle da política econômica e esvaziar o poder dos governadores, tarefa que o presidente realizou com grande habilidade.

Nobre resgata a narrativa de Abrucio e a amarra com a sua: o pemedebismo foi fortemente influenciado pela “política dos governadores” dos anos oitenta (lembrando que, após a eleição de 86, todos os Estados brasileiros menos um eram governados pelo PMDB), e parte da estratégia de FHC foi enfraquecer o “polo dos governadores” em benefício do “polo parlamentar” do PMDB. É bastante plausível que certas características de nosso sistema político (em especial no parlamento) sejam projeções de vícios de nossa política estadual. Quantos Estados, por exemplo, têm imprensa (ou poder legislativo, ou tribunal de contas, ou seja o que for) que efetivamente fiscalize os governadores, para não falar nos sempre excelentes deputados estaduais? Fosse eu o Nobre (lá vou eu fazer o que tinha dito que não faria), exploraria mais esse vínculo entre grandes bancadas parlamentares sem candidato a presidente e o peso dos governadores na eleição dos deputados. É possível, inclusive, que o tipo de característica que favorece o sujeito virar o favorito de um governador (como um tesão desesperado de primeiro amor por empresas que prestam serviços ao governo, ou a habilidade com a micropolítica clientelista) dificulte sua passagem para o centro do palco (e do escrutínio) na eleição presidencial.

Ao final do livro, Nobre apresenta uma proposta de nova descentralização política como forma de facilitar a existência de governos de oposição ao governo federal (o que enfraqueceria a tendência adesista pemedebista). Reconhece inteiramente o risco de retrocesso presente nessa proposta, mas o aceita em contrapartida à possibilidade de um sistema político mais competitivo.

Talvez seja uma boa ideia, mas permaneço agnóstico até me apresentarem um plano detalhado que diminua os riscos de um retorno à década de oitenta. Alguém (à exceção dos pecuniariamente interessados) quer mesmo de volta algo semelhante aos velhos bancos estaduais? Ou flexibilizar a exigência de responsabilidade fiscal? Quando Nobre diz que FHC tomou para si o monopólio da irresponsabilidade fiscal, a piada é boa, mas acho que estabelecer a livre concorrência da irresponsabilidade pode não ser a melhor solução.

De qualquer forma, esse é um debate necessário, em especial à esquerda. O próximo passo na construção do welfare state brasileiro é o aperfeiçoamento de nossos sistemas de saúde e educação, que vai se decidir na esfera estadual. É fundamental que a política estadual receba uma dose de dinamismo, para que a competição política produza no âmbito estadual algumas das dinâmicas positivas (partidos copiando os melhores programas uns dos outros, por exemplo, ou denunciando a corrupção um do outro) que aconteceram no âmbito federal.

7.

Quando eu fazia mestrado, a turma que gostava de “teoria crítica” (Frankfurt etc.) dizia que um bom trabalho não podia ser nem “teoria” demais nem “crítica” demais. Isto é, o tipo de coisa que as ciências sociais normalmente fazem não têm indicações suficientes de possibilidades de transformação (falta crítica; Nobre dirige esta acusação ao Singer), mas filósofo abstratão só falando de transformações sem identificar as tendências do mundo real também não dá (falta teoria). Em um ou outro momento alguém já disse que a teoria crítica tinha “déficit sociológico” ou “déficit econômico”, querendo dizer que a reflexão estava sem raízes o suficiente na pesquisa sociológica ou econômica. No meu entender, Imobilismo em Movimento tem um déficit de ciência política.

Na verdade, é quase um manifesto contra a ciência política brasileira contemporânea, grande parte da qual tem se dedicado a mostrar que a dinâmica do nosso sistema político é mais ou menos a mesma dos sistemas políticos democráticos modernos. A política brasileira tem suas peculiaridades (como também as tem a inglesa, a americana…), mas o funcionamento é razoavelmente semelhante. Este texto de Fabiano Santos, por exemplo, mostra como, com os modelões mais basicões de CP, já se entende bem os movimentos dos partidos brasileiros desde 1989. Os trabalhos de Limongi são especialmente críticos de quem procura na política brasileira um festival de aberrações. Deem uma olhada neste livro. Este vosso humilde servo tende a concordar com as linhas gerais do que a CP brasileira anda dizendo (com cem controvérsias internas), sempre ressaltando que ninguém está dizendo que não tem corrupção, que o Sarney é batuta, ou coisa que o valha. Mas a tese da “geleia geral” pemedebista tem muitos dados contra os quais se bater, desde a frequência com que os partidos se aliam entre si até os padrões de votação no congresso.

Mas nem eu nem os cientistas políticos citados temos qualquer envolvimento emocional com essa linha de pensamento, e não resta dúvida de que ainda há muita coisa a explicar no sistema político brasileiro, que tem vários traços específicos importantes: ter crescido nas frestas e/ou ao redor de um outro, o bipartidarismo altamente restringido do regime militar; suceder uma ditadura de direita que legou à democracia um Estado em crise, o que quer dizer que sobrou para gente de esquerda a tarefa de fazer o ajuste; e muitos outros.

Trabalhos de orientação mais histórica, como o de Nobre, contribuem para resgatar essas dimensões, digamos, path-dependent. Mas seriam muito melhores se dialogassem com as evidências elaboradas pela CP. Nobre não era obrigado a apresentar uma extensa discussão da literatura em um livro de menos de duzentas páginas, mas era, sim, obrigado a escrever como quem já fez essa discussão na sua cabeça até chegar a algo parecido com uma conclusão. Não me parece que o tenha feito. Por esse motivo, não é muito fácil acreditar que alguns dos fenômenos discutidos por Nobre (o governismo exacerbado, a geleia geral ideológica etc.) sequer existem. O autor exige demais que você acredite que, em algum lugar, ele tem os dados que provam o que está sendo dito.

8.

Mas, se há o déficit de ciência política, a visão crítica talvez funcione. Quando essa resenha estava para ser fechada, saiu a nova piauí, com artigo de Nobre sobre Eduardo/Marina. O artigo inicia comparando a disputa entre PT e PSDB às lutas armadas do velho telecatch, o que é engraçado, mas tomara que a essa altura vocês também já tenham desistido de pedir para ver as evidências de que seja verdade. Não é: a direita fez oposição ao PT como deu para fazer, e aqui acho que o insight de Choque de Democracia, de que a direita ficou atordoada quando o sistema inteiro já não operava a seu favor automaticamente, marca um gol. Mas, assim como quando o PT apanhava feito uma vaca nos anos noventa, a fraqueza da oposição não indica, necessariamente, que ela não exista, não use todos os instrumentos a seu dispor para derrotar o governo, não cumpra seu papel de fiscalização conforme suas possibilidades, ou não tenha chances reais de recuperar o poder.

Entretanto, pode ser que essa visão meio distópica de um peemedebão sem oposição nos ilumine. É fácil ver os traços do governo do PT que devem ter inspirado Nobre: a aliança PT/PMDB, assim como pode ser uma saudável repolarização política (PT+PMDB vs. DEM+PSDB), pode também ser a anexação do PT pelo pior que existe na cultura política brasileira. A montagem do PSD, ou a ida de setores ruralistas para a base do governo, onde fazem sua própria oposição com seus próprios recursos, também pode ser ruim (seria melhor se fizessem sua oposição como oposição mesmo, e fizessem os acordos de uma posição de independência). Se esse sistema, com uma espécie de bloco equivalente ao Partido do Congresso da Índia, ou ao CNA sul-africano, se enraizasse no Brasil, seria ruim, e acho realmente bom que Nobre nos alerte para o risco.

Mas não acho o cenário provável. Suspeito que o PSD, em algum momento não muito distante, vá romper com o PT, e talvez ocupe o lugar do PFL na direita brasileira. O governo Cabral era, na verdade, um reflexo da polarização política nacional: o PT fechou com o PMDB no Rio porque o resto do Sudeste era inteiro governado por tucanos. Se o PSDB não se viabilizar como produtor de presidenciáveis, a direita vai trocar de sigla (já tem gente querendo fazer isso pensando em Eduardo Campos), mas o polo político da direita vai continuar onde sempre esteve. Se o PT se deixar diluir no PMDB, o PSOL ocupará o lugar do PT, e terá que tomar contato suficiente com o planeta Terra para governar este mundo decaído de degradados filhos de Eva, abandonando o clima de “nos anos oitenta éramos tão puros”; o PSOL vai ter que sair da Festa Ploc.

PT e PSDB sabem desses riscos, e devem se prevenir como puderem. O novo texto do Nobre na piauí já sugere que Eduardo/Marina podem ganhar o polo da oposição, e que o PT vem tentando recuperar espaço nas eleições estaduais. No geral, não vejo como a polarização possa sumir, porque não vejo como as tensões da sociedade brasileira vão deixar de se manifestar no sistema político, salvo alguma catástrofe. Mas, a crer no livro de Nobre, ainda podemos contar com os Frankfurtianos para nos assustar com o os fantasmas das catástrofes certas.

::: Imobilismo em Movimento :::
::: Marcos Nobre :::
::: Companhia das Letras, 2013, 208 páginas :::

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PS: se tiver gostado do tema, não deixe de ler a resenha do Vinícius.
PSTU: Boa parte das ideias aqui expostas foram fruto de duas discussões que o grande Bruno Borges me chamou para fazer com seus alunos no CLIO Internacional e na PUC-RJ em 2012. As duas foram muito boas, e fica meu agradecimento ao Bruno e a seus ótimos alunos.
PSTUdoB: E a Rede, dirão vocês? Sei lá.
REDE (CLANDESTINO): Já me disseram que a banca de mestrado (ou de monografia? Não lembro) do Nobre foi Ruy Fausto e José Arthur Giannotti. De qualquer jeito, ele é um dos caras que conhecem bem a discussão (e a briga) dos dois. Decidam aí se isso (a) explica que ele tenda a considerar todas as polarizações como falsas ou (b) o tenha tornado calejado e insensível a polarizações menos violentas.

Celso Barros

Mestre em Sociologia pela Unicamp e doutor por Oxford.