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A política brasileira na era do populo-cinismo

por Bolívar Lamounier (12/11/2015)

O Brasil nunca viveu um período político comparável ao atual no que toca à quantidade de cinismo

lula-cinismo

Todo populismo é nefasto. É, em essência, a combinação de dois males – irresponsabilidade econômica e um ameaçador desapreço pela democracia –, ambos levados ao limite do intolerável.

Como sistema de política econômica, populismo é o voluntarismo do governo (ou do “líder”) levado à antessala da loucura. Para atingir seus fins – geralmente designados como “proteção aos pobres”, “combate às elites”, ou “defesa da soberania nacional” – , os governos populistas, julgando-se realistas e espertos, em geral embarcam numa trajetória de pura alucinação. Desprezam a racionalidade a tal ponto que não só tentam convencer a sociedade, mas convencem-se a si mesmos de que 2 + 2 = 5. Em nome da “justiça social” – ça va sans dire – ignoram todas as restrições normais da administração financeira, propelem os gastos públicos a níveis estratosféricos, dão de ombros para a inflação fugindo ao controle e nem disfarçam o prazer que sentem quando intervêm despropositadamente na atividade econômica, demonstrando “poder” e “coragem” frente aos empresários privados. Frente a companhias estrangeiras, então…

O script do desastre chega a ser repetitivo. Começa com uma auto-drenagem cerebral, cuja função é extirpar possíveis resquícios de racionalidade; em seguida, tais governos perdem contato com a realidade, pois, como é óbvio, ao deletar a racionalidade eles destroem os mecanismos que os alertariam para o fato de seu mundo ter-se tornado não-real, ou surreal.

Na política é mais ou menos a mesma coisa, basta trocar algumas expressões. O populismo econômico acredita que 2 + 2 são 5, o político imagina que conquistar o Poder Executivo – seja por que meio for, mas sobretudo se for graças a uma montanha de votos –, equivale a apropriar-se de um poder ilimitado, a uma realeza por direito divino, a uma situação de total onipotência. Na chefia do Estado, o populista só admite uma obrigação: a de se dirigir ao “povo”, observando intervalos mais ou menos regulares, ou em ocasiões que ele e seus áulicos consigam revestir de um simbolismo “heroico” e “justiceiro”.

O que ele diz à massa é o que menos importa; seu discurso é quase sempre uma logorreia emocional, de cujo conteúdo manipulador ele tem perfeita consciência. A finalidade de tais cerimônias é reiterar aos partidos políticos, ao Legislativo e a quaisquer organismos sociais independentes que não depende deles para nada; não os respeita no mais mínimo, até porque não respeita a Constituição e as leis, que são a fonte de sua suposta autonomia e autoridade. Reiterar que, para ele, a única origem válida de autoridade é aquela em vias de encenação: ele ao microfone e, lá embaixo, uma massa ululante.

Meu eventual leitor e minha eventual leitora certamente terão percebido nos parágrafos anteriores o esforço que fiz para me manter num nível relativamente abstrato. Falei do populismo como um sistema de política econômica, como uma concepção de governo, como uma distorção grotesca da ideia democrática de legitimidade, mas não falei de líderes populistas na pessoa física, e muito menos me referi nominalmente a qualquer deles. A razão é simples. O tema que estou tentando explorar não é propriamente o populismo, mas o cinismo.

Perón, Evita, Getúlio, Brizola et alii eram cínicos? Pode ser que sim, pode ser que não. Suspeito que acreditavam piamente no que diziam. Esses quatro eram estatizantes, nacionalistas e criavam, de caso pensado ou não, aquela relação de desvairado antagonismo a que acima me referi. Salvo raríssimas exceções, políticos de oposição, empresários, proprietários rurais e elites em geral só podiam ser inimigos do “povo”, todos freneticamente tramando um golpe contra ele, o grande líder popular, o único realmente capaz de se dirigir à massa como uma encarnação sincera da Nação.

Vocês, meus caros leitores, certamente objetarão: mas isso não é loucura? Não é alucinação? É lógico que é. Esse não é o ponto. O que digo é que os quatro políticos citados me parecem ter assumido tais ideias com firmeza e convicção. Nenhum deles deixaria escapar dos lábios um fraseado qualquer que pudesse ser interpretado como “individualista” ou “liberal”. Duvido que tenham algum dia pronunciado a expressão “livre empresa”, e estou absolutamente seguro de que, em voz alta, jamais disseram algo favorável aos Estados Unidos.

O caso de Perón é o que menos suscita dúvida, pois sabemos que ele saboreava o fascismo com um entusiasmo inferior apenas ao que manifestava saboreando um bom tinto argentino. A quem lhe contestasse a dignidade, Getúlio demonstrou tê-la no dia 24 de agosto de 1954. Brizola não chegou aos mais altos cargos governamentais, mas sublevou a Brigada Militar gaúcha contra os chefes militares que tentavam impedir a posse de João Goulart e – mesmo exercendo um mandato de deputado federal! –, fez em diversas ocasiões as ameaças de praxe ao Congresso Nacional.

Se os argumentos acima estiverem corretos, os personagens citados foram a fina flor do populismo latino-americano, mas não foram necessariamente cínicos.

Isso é muito diferente do que temos hoje no Brasil. Tivemos durante vários anos o populismo como um sistema de política econômica – para se convencerem disso, vocês que me leem só precisam abrir a janela e contemplar lá fora a situação em que o país se encontra.

Temos tido bravatas “apopulistadas” até com certa frequência, como a do Lula ameaçando convocar o “exército do Stédile”. Sim, na economia houve e há muito populismo; na política, parece-me haver uma camada, uma crosta, mas uma cobertura externa, apenas, de populismo. Em nosso caso atual, o essencial não é o populismo: é o cinismo.

Que tal batizá-lo de populo-cinismo? Assim poderemos manter uma saudável flexibilidade nesta troca de ideias.

Um vol d’oiseau sobre a história brasileira é o quanto se necessita para constatar que o Brasil nunca viveu um período político comparável ao atual no que toca à quantidade de cinismo. Tivemos períodos de euforia, de unidade, de depressão, de tensão, de radicalismo; mas de cinismo – não. Em nenhum momento sentimos a vida brasileira recoberta por uma camada de cinismo tão espessa. Nunca a vimos tão impregnada por um culto sistemático da mentira, por um descompromisso tão chocante com a afirmação feita e a palavra dada, e muito, muito menos, por um desapreço tão virulento pelas instituições. Desapreço pela Constituição, pelas leis, e pelas regras formais e informais da democracia.

Um grupo ou partido relativamente numeroso arquitetar uma coisa dessas já seria uma proeza, um espanto, mas o espanto é muito maior quando o examinamos com singeleza, sem grandes aparatos estatísticos ou linguísticos, recorrendo apenas à sequência dos fatos – aos dados que trazemos na memória.

Assim procedendo, somos forçados a reconhecer que a maior parte desse fenômeno deveu-se a um único homem. E não temos como não questionar a sabedoria de Abraham Lincoln.

Foi em razão de sua ilimitada confiança nas instituições de seu país que o célebre presidente americano se recusou a crer que uns poucos poderiam enganar muitos por muito tempo. Não podia ter conhecido e não conseguiu imaginar uma figura pública chamada Luís Inácio Lula da Silva.