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O que a expressão “acendrado amor” tem a ver com o PT?

por Bolívar Lamounier (21/11/2015)

O “projeto de poder” lulopetista significa “projeto de permanecer no poder por um tempo indefinido”.

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Ontem Lula deitou falação para a chamada “juventude petista”. Do que ele disse, pelo menos 95% eu ignoro e pretendo continuar ignorando. Mas duas frases me chamaram a atenção:

1ª) “Temos que tirar a Dilma dessa encalacrada em que a oposição nos meteu depois da eleição [de 2014]”;
2ª) “Temos que fortalecer o PT nas eleições deste ano para preservarmos o nosso projeto de poder”.

Ora, ora, meus amigos e amigas, vejam vocês. Que pena Shakespeare não ter vivido mais quatro séculos para conhecer e retratar literariamente essa figura extraordinária, o Sr. Luís Inácio Lula da Silva. Esse, meus caros, é dose prá leão.

Vejam só: quem meteu Dilma numa “encalacrada” foi a oposição! Entre aqueles com quem tenho contato, não me lembro de alguém ter feito um elogio desse tamanho à oposição. Só vejo gente malhando: oposição medrosa, ausente, bunda-mole, desnorteada, sem liderança etc.

Vem o Lula e diz o seguinte – e peço desculpas por repetir só quatro linhas abaixo: “foi a oposição que meteu a Dilma nessa encalacrada”. Ah, que maravilha, já pensaram? Que maravilha se fosse verdade! Mas obviamente não é; muito pelo contrário, é uma mentira obscena. Obscena até pelo padrão Lula de mentira, o que não é dizer pouco. E como explicar que a “juventude petista” ouça uma coisa dessas sem irromper numa estrepitosa vaia? Será que, jovens ainda, já contraíram o mal que grassa entre os petistas mais velhos?

Se não foi a oposição que meteu a Dilma nessa “encalacrada”, quem foi então?

Em primeiro lugar, ele, Lula, que ardilosamente, enganando até a cumpanherada de partido, a fez presidente da República. Será que ele ignorava a dimensão amazônica da arrogância, da incompetência, da pretensão e da prepotência de sua pupila? Esta pergunta eu deixo para os historiadores; um dia eles acharão a resposta mais adequada.

Em segundo lugar, quem foi que…? Um dos gandulas que atuam no Itaquerão, talvez? Ah, meu Deus, onde é que Lula aprendeu essa, essa, como direi… onde aprendeu a manter “essa relação cerimoniosa com a verdade”? – e aqui relembro uma definição clássica da Lúcia Hipólito.

Lula, escute aqui, você parece ter esquecido alguns fatos fundamentais: (i) Dilma, nomeada por você, presidia o Conselho de Administração da Petrobras quando aqueles fatos escabrosos começaram a acontecer lá; (ii) feita presidente, empenhou-se em demonstrar, como direi?, empenhou-se “diuturnamente” em demonstrar sua desumana ignorância em economia; (iii) para se reeleger, reeditou com você a farsa de 2010, só que num nível infinitamente mais grave: declarou com a cara mais limpa que a economia estava em ordem e que “ajuste fiscal” quem pregava era a oposição. E o que significava tal expressão na boca dos oposicionistas? Significa “tomar direitos dos trabalhadores” – lembra-se? Eu sei que muitas coisas você “não sabe”, mas será que também não se lembra de coisas tão recentes quanto patéticas?

Demorei, mas cheguei à segunda frase. Ei-la: precisamos “fortalecer o PT para podermos preservar nosso projeto de poder”.

Os caríssimos amigos e amigas certamente já repararam como certas palavras sempre caminham juntas: “acendrado amor”, por exemplo. Com o PT, quando, onde e como ele estiver, essa expressão sempre aparece: “nosso projeto de poder”. Às vezes a imagino como um poodle, sempre por ali, sempre alegrinho, esperando a hora de subir ao palco. Lula vai falando, vai falando e de repente – cadê o projeto de poder? – lá vem ele, o poodle, abanando o rabo para mostrar sua gratidão ao dono.

No Brasil, como vocês sabem, todo grupelho que esteja a fim de se imiscuir no processo eleitoral – lançando candidatos, alugando a voz para xingar algum adversário do locador ou seja para o que for – tem que ter a palavra “partido” em sua sigla. Temos umas 15 ou 20 arapucas desse tipo, todas ostentando o pomposo designativo de “partido político”. Isto eu estou dizendo só para limpar o terreno, entendem?

Organizações que mereçam o nome de partido temos meia dúzia, e olhe lá. Essas compartilham um traço importante entre si, e não só entre si, mas também com todos os partidos que jamais existiram ou irão existir na face da terra. Todo partido político é criado e se organiza para disputar o poder. Esta é a diferença mais óbvia e flagrante entre um partido político e, digamos, as freiras carmelitas. Nunca ouvi falar que disputar o poder fosse o objetivo das carmelitas. E também nunca ouvi falar em um partido político de verdade (excluindo, repito, as arapucas) que não tivesse por objetivo lutar pelo poder.

Mas vejam só que coisa interessante: “PT” e “projeto de poder” são expressões inseparáveis. Onde um vai, o outro vai atrás. São unidos como os vocábulos “acendrado amor”, ou “adrede preparado”, ou, se preferem, “come due baggi”, expressão irada de um sindicalista no filme I Compagni. Pode ser que vocês tenham, mas eu não me lembro de ter visto ou ouvido alguém falar no projeto de poder do PSDB, do PMDB, do DEM. Não me lembro de ler “o projeto de poder do partido tal” na Dora Kramer ou na Eliane Cantanhede. Tal junção de palavras só acontece quando se trata do PT.

Seria uma vasta pretensão de minha parte dizer que sei explicar esse fato. Explicação, não tenho. Tenho só um palpite.

É algo que só os petistas dizem, ou que só se diz quando se tem como referência o PT, porque na verdade se está falando de um projeto de poder exclusivo. Se minha interpretação estiver certa, o que realmente interessa é uma parte que permanece implícita: “projeto de poder” significa “projeto de permanecer no poder por um tempo indefinido”.

Uai, mas vem cá: o mandato presidencial não tem sua duração limitada em quatro anos? É óbvio que tem. Então, o que o “adrede preparado” do PT de fato quer dizer é que eles, os petistas, se lixam para esse limite de quatro anos. De duas, uma; ou quem sabe, de duas, duas: ou se dispõem a impedir a alternância, sempre possível enquanto vigente estiver o processo eleitoral estipulado pela Constituição, ou, sem chegar a “impedi-lo” na base da truculência, eles se dispõem a “fazer o diabo” (onde foi mesmo que ouvimos isso?) para permanecerem no poder por um tempo indefinido.

To make a long story short, as expressões “projeto de poder” e petismo aparecem sempre juntas, como Cosme e Damião, porque designam o que há muitos anos tenho chamado de ranço totalitário do PT. Juntas porque vêm lá do fundo, lá do âmago, lá dos intestinos de uma coisa a que Lula jamais se refere, embora seja algo muito importante.