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Você quer uma intervenção militar? Me diga de que tipo

por Bolívar Lamounier (16/11/2016)

Toda ruptura da ordem constitucional e do regime democrático é um salto no escuro.

Entendo perfeitamente o que você sente. Como eu, você está angustiado com a situação econômica do país, com a recessão e os 12 milhões de desempregados. Sabe que isso é o legado dos treze anos e meio em que Lula e seu bando governaram o país, e que não tem jeito, agora o país tem de ajustar as contas públicas para poder retomar gradualmente os investimentos etc. Estamos à beira de um ataque de nervos, mas no fundo sabemos que não há atalhos. Não somos idiotas. Estamos também pra lá de indignados com a lentidão da Justiça, que até hoje não colocou no xilindró os corruptos que, quebrando a Petrobras, aprofundaram a quebradeira do país. Mas isso aí é só a história recente. Sabemos bem que o Brasil nunca foi uma maravilha; bem ao contrário, nossa sociedade sempre foi tremendamente iníqua e desigual, e, nessa área, nossas elites dirigentes, de direita ou de esquerda, tiveram apenas uns raros lampejos de sensibilidade. Como não sentir a mais pungente tristeza, uma angústia imensa, uma vontade de chutar o balde, se a soma do passado recente com o mais distante nos leva inexoravelmente a essa conclusão?

OK, até aqui estamos de acordo. Pensemos então na intervenção militar. Adianto que o faço para argumentar, estou seguro de que as Forças Armadas não querem e não vão intervir. Mas vamos lá, o exercício é útil. De que tipo de intervenção estamos falando? Quais seriam seus objetivos?

Sugiro começar por uma hipótese radical. Um dia os militares vão dormir e acordam comunistas. Passam a ver os problemas do Brasil pelas lentes do marxismo, e adotam os partidos comunistas – o falecido PC da URSS, por exemplo, ou esse que até hoje faz de conta que governa Cuba.

O que eu aprecio nessa hipótese é sua simplicidade. A teoria marxista afirma que as desigualdades de oportunidade, renda e outras no fundo se reduzem à desigualdade entre as classes sociais, que por sua vez se devem à apropriação privada dos meios de produção. Então está feito: é só estatizar as indústrias, bancos, fazendas – e por que não a quitanda da esquina e o salão de beleza, como fizeram em Cuba? – e, bingo!, as classes sociais desaparecem. E que fazemos com os juízes e deputados corruptos? Ora, é para isso que existe o Partido. Nomeamos gente “nossa” para o lugar deles. Pronto. Resolvido.

Se a primeira hipótese lhes pareceu um tanto caricatural, tentemos outra. Os militares assumem o poder organizadamente, conservando a hierarquia e a disciplina que os caracterizam. Pragmaticamente, sem ideologias tresloucadas. Não. Vão reformar o país, modernizar a administração, botar tudo nos eixos. Ora, esse, como sabemos, foi o figurino adotado no Brasil entre 31 de março de 1964 e 15 de março de 1985.

Não nego que aqueles 21 anos trouxeram alguns avanços importantes. Mas os militares conseguiram se manter coesos em torno de um conjunto claro de objetivos? É óbvio que não. A eleição de Costa e Silva foi um claro golpe contra seu antecessor Castelo Branco. As políticas econômicas de Bulhões/Roberto Campos e mais tarde de Mário Henrique Simonsen nada tinham a ver com as de Delfim Netto e Reis Velloso. Por razões que não posso relembrar aqui, a mescla de ambas foi o zig-zag que levou à quebradeira do inicio dos anos 80, à crise da dívida externa e ao longo período de estagnação conhecido como “década perdida”.

Você, meu caro leitor intervencionista, acredita que hoje seria diferente? Por quê? Admita, pelo menos, que todo governo militar restringe o debate sobre alternativas, reduzindo dramaticamente a racionalidade dos programas de governo e a presteza dos ajustes, quando eles se tornam inevitáveis.

Então, OK, não é esse o tipo de intervenção que você está pleiteando. Você quer só que eles entrem e promovam uma rápida faxina. Que ponham os extremistas e corruptos irrecuperáveis para correr. Que prendam os baderneiros e os grupos que resistirem a tal ação salvadora por um breve período, só para reeducá-los. Ótimo.

Infelizmente, esta hipótese envolve duas pequenas dificuldades. Primeiro, é preciso combinar com os russos, quero dizer, com os comandantes da intervenção, para que eles cumpram o script à risca, resolvendo logo a situação e retornando para a caserna. Essa combinação precisa estipular qual o período que nós e eles considerar “razoável” para a intervenção: um ano? dois? cinco? A segunda dificuldade, que também exigirá um acordo prévio, é estimar o número de baderneiros e resistentes que precisarão ser presos e devidamente reeducados. Cem? Mil? Dez mil? Cem mil?

Não se avexe, não precisa responder. Eu sei que você não sabe e você sabe que eu também não sei, pela singela razão de que é impossível saber. Este é um aspecto apenas de uma lição que deveríamos reestudar diariamente: toda ruptura da ordem constitucional e do regime democrático é um salto no escuro. E não vale a pena pagar para ver, se a história do século 20 é um bom guia para essa nossa reflexão.

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