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Calma: o Brasil não está condenado ao fracasso

por Gabriel de Arruda Castro (21/11/2017)

Nossos recursos naturais não significam que estamos destinados à grandeza. Nossas falhas não são uma maldição eterna.

Estátua de José Bonifácio no Bryant Park, NY

É difícil chegar à majestosa Union Station, a alguns quarteirões do Congresso americano, em Washington, sem notar a imponente estátua de Cristóvão Colombo na praça logo em frente. O homem nasceu em Gênova, trabalhou para a Coroa Espanhola e nunca pisou no território dos Estados Unidos. Ainda assim, ele tem seu próprio feriado nacional (só Martin Luther King recebeu honra semelhante), o distrito federal americano leva o nome dele e existe essa escultura bacana (na verdade, uma fonte) em Capitol Hill em homenagem a ele.

Não tão grandiosa, mas ainda sim bastante elegante, é a estátua de José Bonifácio – o Benjamin Franklin brasileiro – no Bryant Park, no meio da mais movimentada (e talvez mais cara) parte de Nova York.

Cada vez que eu passo por uma dessas efígies, penso nos muitos brasileiros que acreditam que nós nunca vamos ser bem-sucedidos porque, bem, somos latinos, ibéricos e portugueses.

Talvez por causa do nosso péssimo sistema educacional, talvez simplesmente porque não ligamos para essas coisas, uma parte significativa dos brasileiros parece mesmo acreditar que a corrupção, a violência e a pobreza são um destino inescapável.

Geralmente, para essas pessoas, os britânicos, alemães e japoneses (“O Japão reconstruiu uma ponte em duas semanas depois do terremoto!”) são modelos de dignidade e civismo. Às vezes os Estados Unidos (“Lá tem uma bandeira americana na frente de cada casa!”) também entram na lista.

Devo dizer, entretanto, que essa é uma visão deficiente das coisas. Não há predestinação cultural ou genética que explique nossos fracassos.

A Londres que é lar da Sua Alteza Real Elizabeth II (os portugueses diriam Isabel II) foi fundada pelos romanos – um povo latino. Como lembra a cena brilhante de Monty Python em A Vida de Brian, os conquistadores romanos foram aqueles que levaram a civilização como conhecemos aos antepassados de Noel Gallagher. “Além do saneamento, da medicina, da educação, do vinho, da ordem pública, da irrigação, das estradas, de um sistema de água potável e da saúde pública, o que é que os romanos já fizeram por nós?”, pergunta um dos personagens, que logo em seguida ouve de um colega: “Trouxeram a paz”.

Sobre os ibéricos: nós e nossos primos espanhóis temos tido um bom desempenho ao longo da história. Não somos nós o único povo que reagiu e reconquistou seu território após ser dominado por invasores muçulmanos? Portugal e Espanha não dividiram o mundo entre si (antes que se tornasse politicamente incorreto fazê-lo)? Não é Barcelona X Real Madrid o maior espetáculo que qualquer esporte pode oferecer?

Os portugueses, esse povo tenaz de uma nação minúscula, plantaram colônias em todos os continentes – do Canadá ao Japão ao Timor Leste a Moçambique ao Brasil – com audácia e bravura incomparáveis. E, apesar de haver muito do que se envergonhar, o nosso processo de colonização foi humano e tolerante quando comparado àquele conduzido pela França, Bélgica ou Turquia. Os portugueses não cometeram genocídio; com frequência, eles buscavam se integrar com os moradores locais. Como Gilberto Freyre lembrou, o único meio pelo qual uma população tão pequena poderia colonizar porções gigantescas de terra era se misturando com os povos nativos.

Nosso espírito é de aproximação e não rivalidade. Não há nada mais revelador do caráter português do que a história contada por Pero Vaz de Caminha em sua carta do descobrimento. Os índios e os europeus não conseguiam uns com os outros, mas ficaram amigos rapidamente. Diogo Dias, um dos marinheiros a bordo, “passou para o outro lado do rio” levando uma gaita consigo, e então “meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos”. E eles “folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita”.

Nossa herança não é tão má quanto pensamos.

A herança deles não é tão boa quanto pensamos.

Mesmo os veneráveis japoneses cometeram atrocidades inacreditáveis, como o massacre de Nanquim. Os alemães foram capazes de monstruosidades que, 70 anos depois, ainda são difíceis de acreditar. Os britânicos e holandeses mantiveram o Apartheid funcionando até a década de 90. A Inglaterra de hoje é o país onde um juiz pode decidir que um garoto de 8 meses deve ser sacrificado contra a vontade dos pais. Muitos países europeus parecem ter renunciado aos próprios valores e entrado voluntariamente em uma espiral de morte.

Por fim, apesar de ser verdade que nossos políticos não podem ser tomados como exemplo, nós nunca tivemos um prefeito mantido no cargo após ser filmado fumando crack (!), como aconteceu em Toronto há pouco tempo com Rob Ford.

E, já que estamos falando disso, que tal a história de Marion Barry, ex-prefeito de Washington? Ele foi preso por agentes federais ao portar cocaína em um quarto de hotel no qual estava com sua amante, e acabou condenado a seis meses na prisão. O velhinho cumpriu a pena e acabou eleito novamente para comandar a capital do país em 1994. É demais até para o Brasil.

O sucesso da Coreia do Sul e de Singapura, assim como o fracasso da Argentina, deve nos lembrar que não existe predestinação geográfica. Nossos recursos naturais e diversidade não significam que estamos destinados à grandeza. Nossos fracassos não são uma maldição eterna.

Poucas pessoas sabem, mas se você olhar bem de perto para o pedestal da estátua de Cristóvão Colombo em Washington, vai encontrar a seguinte frase – em letras pequenininhas – de autoria do próprio navegador: “Parem de reclamar. Nosso povo não é tão ruim assim”.

Aliás, acho que a frase na verdade foi gravada na estátua do José Bonifácio em Nova York. Não tenho certeza.

De qualquer forma, sigamos adiante. Não há condenação perpétua sobre nós.

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Gabriel de Arruda Castro

Jornalista formado pela UnB e mestre em administração pública pela Universidade da Pensilvânia.