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O gosto acre da decadência

por Ricardo Silva (01/11/2017)

O segundo romance de Lucrecia Zappi é um jogo de ping pong da memória.

“Acre” de Lucrecia Zappi (Todavia, 2017, 208 páginas)

Um título simples pode revelar um projeto narrativo poderoso, alegórico e múltiplo. Acre, de Lucrecia Zappi, é este tipo de romance de costura tão bem traçada que fazer o desnovelo das suas camadas é mais do que apenas uma experiência de leitura, é um prazeroso exercício de cavar interpretações e de descoberta de múltiplas camadas narrativas que podem estar na óbvia superfície dos acontecimentos do enredo ou nas entrelinhas que não se dão de bandeja para o leitor mais afoito.

O segundo romance de Zappi é um jogo de ping pong da memória. Ao contar a história de Oscar e Marcela — ele o narrador, ela a protagonista dúbia —, a autora nascida na Argentina radicada brasileira, e que hoje mora nos Estados Unidos, vai desnudar temas clássicos da literatura nacional — a insegurança masculina, o ciúme, a decadência moral e ética de uma classe média emergente — com bastante segurança.

Oscar e Marcela, é um casal de pequenos empresários que vive na Vila Buarque em São Paulo — bairro de classe média que divide espaço entre condomínios mal acabados com usuários de crack, travestis, e figuras de todas as categorias menos socialmente toleráveis — e que agarra-se no que pode para conseguir sustentar, ainda que de forma capenga, um estilo de vida mais ou menos digno.

Nas primeiras cenas entende-se que a relação de Marcela e Oscar sustenta-se naquilo que é a essência da classe média: a aparência. As conversas entre eles entremeiam-se com ironias, provocações e falsas manifestações de afeto. Paralelo a isso, a imagem de casal bem resolvido mantém-se: ambos com seus próprios negócios — ele uma loja, ela um pequeno restaurante de pratos feitos —, donos do seu próprio apartamento e também do imóvel ao lado onde permitem que Vera, uma senhora que inspira piedade, viva, numa demonstração canhestra de caridade.

Mesmo com todos estes poréns, o casal se mantém neste teatro com certa harmonia. A mesma harmonia que se dissolve com a chegada de Nelson, filho de Vera e ex-namorado de adolescência de Marcela, que estava no Acre e envolvera-se com venda de madeira na região. A presença de Nelson é o gatilho para as inseguranças de Oscar, que passa a se comportar de forma paranoica e possessiva.

Nelson é também um desafeto antigo de Marcelo. Ambos moravam em Santos. Nelson era rebelde, desbocado, consumia e traficava drogas e envolvera-se com Marcela, alfinetando os sentimento de Oscar por ela. A adolescência do trio se dera toda dentro do embrião simbólico do caos que hoje o Brasil vive, e que fora germinado ali nos anos 80 (numa década repleta de rebeldia, sexo e o espectro da AIDS desenfreada, e muita droga).

Este retorno de Nelson amplifica todos os desconfortos do leitor. O ambiente hostil e sufocante do romance torna ainda mais insalubre. A insegurança de Oscar se torna insustentável, intragável, doentia. Marcela arma-se de ironia, desprezo pela infantilidade estúpida do marido e o achincalha, inflando sua insegurança. O clima pesa, tudo se torna paranoico e difuso. E Zappi revela seu domínio ao não perder o tom do seu narrador. Não existe qualquer resquício que coloque o leitor em dúvida de que é um homem — medíocre e pequeno — narrando aqueles acontecimentos. A voz do personagem se mantém coerente com sua psicologia. Lucrecia Zappi expõe o ridículo da situação com extrema elegância, conduzindo os acontecimentos e o leitor de forma firme.

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Para além do mote de um relacionamento que implode na chegada de um terceiro elemento do passado, o retorno de Nelson evoca também um novo campo narrativo dentro da trama de Zappi. Ao retornar do Acre, Nelson traz colado em si colombiano que lhe persegue afim de acertar as contas que ele deixara pendente na região amazônica. E este sujeito difuso protagoniza uma cena muito sintomática da classe média que enxerga em si mesma a figura heroica capaz de salvar o país da sua profunda crise moral, ética, política e econômica através da violência. Adriano, o simpático médico e síndico do condomínio de Oscar, é essa catarse da truculência estúpida.

Adriano incorpora o signo dessa classe decadente que enxerga na violência simbólica e real contra tudo que considera uma ameaça a sua lógica de mundo, que promove discrepâncias sociais, ao mesmo tempo que delas se diz vítima, uma solução para problemas de raízes muito mais profundas do que ela pode alcançar. O médico é a projeção simbólica da hipocrisia xenófoba e homofóbica de uma classe condenada a não sentir-se miserável enquanto não consegue alcançar os seus ideais de boa posição socioeconômica, e que precisa conforma-se com sua situação constantemente intermediária.

Esse segundo plano da narrativa de Zappi é habilmente entremeado com o primeiro, sem que um se sobreponha ao outro — ao mesmo tempo que não deixa o enredo fechado para outras leituras. Acre é um jogo muito habilidoso na confluência dos seus acontecimentos, num jogo de espelhos do tempo, em que os arranjos da adolescência do trio de protagonistas em Santos se reflete no jogo atual em que eles são as principais peças do tabuleiro.

Lucrecia Zappi consegue emular de forma bastante realista uma reflexão onde o leitor pode concluir que relações se dão numa fusão de vivências acumuladas de cada universo insular que é o sujeito que compõe aquele arranjo. Nada se apaga do seu passado quando você se insere numa nova relação amorosa. Há ali uma miscelânea de acontecimentos que formam e definem aquela sua composição atual. Nesse espectro há as lembranças, muita delas escamoteadas, outras tantas postas em posição privilegiada na memória, mas todas lá, cumprindo seus papéis. Em paralelo a isso também expõe o gosto acre da decadência de uma classe social completamente perdida no seu jogo de aparências, e que se defende de forma problemática e repreensível.

O trabalho de Zappi é coroado com sua prosa límpida, cristalina, sem necessidade de colocar penduricalhos no texto. Os diálogos sem aspas ou travessões conferem à narrativa uma organicidade na forma como o leitor vai formatar os tons da conversa travada entre os personagens de uma determinada cena.

Entre os melhores lançamentos nacionais deste ano, Acre é uma leitura desafiadora que expõe o ridículo do ciúme amoroso entremeado da exposição dos aspectos mais vergonhosos — e reais — da classe média brasileira.

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Ricardo Silva

Graduando em Filosofia na Universidade Estadual do Amapá.