PESQUISA

Melancólica esperança

por Douglas Marques (26/11/2017)

"Gostar de Ostras" é um romance que se apresenta modesto na superfície, mas esconde camadas de complexidade em sua narrativa episódica.

“Gostar de Ostras”, de Bernardo Ajzenberg (Rocco, 2017, 192 páginas)

Jorge Blikstein, o protagonista de Gostar de ostras, novo livro de Bernardo Ajzenberg, tem apenas trinta e poucos anos, mas já há algum tempo deixou de viver plenamente as aventuras típicas da juventude. Dirige sua vida de forma a reforçar a segurança de uma boa rotina e afastar surpresas – as boas e as ruins. Isso faz de Jorge um solitário, e a epígrafe de W. B. Yeats não podia ser mais bem pensada: “A vida é uma longa preparação para algo que nunca acontece”. E, de fato, nada acontece com o personagem.

Tudo muda, inevitavelmente. “O velho Marcel chegou fazendo estardalhaço” é a frase que inicia o romance e pode ser compreendida em muitos níveis, inclusive como resumo da própria obra. Sobre o novo apartamento de Jorge Blikstein vive um casal de octogenários franceses, Rachelyne e Marcel Durcan. A partir de então o nome Jorge Blikstein deixa de existir e passamos a acompanhar a história de como Jorginho, como será chamado, se relacionará com a ruidosa dupla, de quem será amigo e cúmplice. É através desse contato que sua existência inerte e apática será colocada em movimento, sendo a força motriz por trás de uma nova transformação.

Contrastando a monotonia interminável da vida de Jorginho com o hedonismo dos franceses, Bernardo Ajzenberg cria uma paisagem bem-humorada das relações humanas. Ele é hábil ao induzir o leitor ao riso sem deixar de lado reflexões importantes sobre o luto, a finitude e os sentidos do viver, pois em Gostar de ostras a morte é ao mesmo tempo trajeto e destino da história.

São muitos os episódios que fazem rir e estreitar a relação do leitor com os personagens, incluindo a explicação do nome de um gato chamado Zeca Pagodinho e a visita inesperada – para quem lê, porém natural para os envolvidos – de um grupo de personagens ao prostíbulo. Jorginho passa a tomar parte em todas as peripécias executadas pelos Durcan, aos poucos se tornando para eles mais do que amigo, protetor e protegido em igual medida.

LEIA MAIS  Um romance de terror sem terror

O romance assume um tom mais sério em suas cinquenta últimas páginas. Emerge finalmente algo terrível que ao longo da narrativa havia sido apenas sugerido. O humor dá espaço para sentimentos diversos cuja direção não conseguimos delimitar, a exemplo da confusão do protagonista. A desordem das emoções de Jorge Blikstein aproxima a angústia ao leitor, que neste momento deverá fazer seu próprio julgamento sobre o grande dilema moral que coroa o livro.

Gostar de ostras é um romance que se apresenta modesto na superfície, mas esconde camadas de complexidade em sua narrativa episódica. Os capítulos não são longos e encerram em si seus próprios debates, cujos efeitos são então dispersos por todas as páginas. O que fez Marcel e Rachelyne abandonarem a França e se mudarem para o Brasil? O que houve com Jorginho, outrora um bon vivant, para que rechaçasse o ardor natural da vida em seus anos mais intensos? São perguntas simples com uma miríade de desdobramentos.

Além disso, Bernardo Ajzenberg tratou de situar a narrativa num quadro histórico tangível prontamente reconhecível. Alguns personagens tomam parte nas manifestações de junho de 2013 e demonstram a mesma perplexidade que até hoje experimentam os comentadores que tentam explicar as Jornadas de Junho.

Gostar de ostras é um romance sucinto que não se propõe ocupar um lugar sacrossanto na literatura, e por isso mesmo dele se aproxima. Em sua proposta de embate entre passado e presente, há uma persistente sensação de triunfo, senão da vida sobre a morte, ao menos da vida em relação à tragédia. E por isso Bernardo Ajzenberg pode se considerar vitorioso: é fácil se relacionar com as histórias de seu trio de personagens – todos nós vivemos histórias parecidas, de uma maneira ou de outra. Somos testemunhas e partícipes de amadurecimento de Jorginho, Marcel e Rachalyne.

  • 52
    Shares

Douglas Marques

Psicólogo curitibano, atua junto a migrantes e refugiados. Também se refugia, mas nos livros. Está concluindo especialização em antropologia cultural.