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por Taís Luso – Quando eu estiver bem velhinha quero ser sustentada pelas minhas lembranças e ter a lucidez para lembrar do meu “Natal Encantado”: o de minha infância, o Natal de meus 7 anos. Até então, sempre esperava pelas recompensas do bom velhinho; por ter passado de ano, por ter sido uma boa filha, […]

por Taís Luso – Quando eu estiver bem velhinha quero ser sustentada pelas minhas lembranças e ter a lucidez para lembrar do meu “Natal Encantado”: o de minha infância, o Natal de meus 7 anos. Até então, sempre esperava pelas recompensas do bom velhinho; por ter passado de ano, por ter sido uma boa filha, pelas minhas boas ações e pelas verdades que sempre disse.

Porém, sempre fui meio invocada com um grande armário que ficava na garagem de nossa casa. Sempre fechado, sempre sem as chaves. Chegou um dia que eu tinha de transgredir, tinha de ver o que havia lá dentro. E parti para o “trabalho”: por todos os cantos, por cima e por baixo de tudo, procurei aquela safada chave. E nada. Então peguei uma chave de fenda e comecei a escavar…

Consegui abrir a primeira porta: só cacarecos! Parti para a seguinte, e dei de cara com bolas, guirlandas e penduricalhos de nossa árvore de natal. Nada me parecia anormal. Com o medo de quem sabia que estava fazendo algo de errado, mesmo assim fui para a terceira porta: dei de cara com uma roupa vermelha, barba, touca, cinto e botas… Estava ali minha inocência, minha infância, minhas fantasias! E fechei a porta deixando lá dentro todo o meu desencanto. Começou ali minha intimidade com a mentira do mundo em que eu vivia.

Por quê? Por que fui arrombar aquele armário que guardava – para mim – uma imagem de amor e de bondade, com a intenção de não trazer à tona um mundo de hostilidades e de violências? Foi-se meu Papai Noel… Ali, naquele momento, tive a sensação de ficar mais madura – ou despojada de sonhos. Tive a amostra do mundo em que eu vivia.

Abri a porta novamente e peguei a roupa vermelha, o cinto e as botas e deixei tudo isso em cima da cama de meus pais, com um bilhetinho (escrito todo errado, mas que corrijo aqui): “Pai e mãe: daqui pra frente eu não preciso mais de Papai-Noel, aqui está ele…”. Lembro que quiseram me dizer algo, mas não quis ouvir; eu acabara de destruir uma de minhas mais queridas ilusões. Eu só conseguia chorar.

Com isso, atesto que temos duas comemorações distintas: o primeiro é o Natal Encantado da criança; o segundo é o Natal do adulto. Este, é uma tentativa de estender ao máximo o Natal de nossa infância. Um esforço para resgatar amor, solidariedade, fantasia e ilusões. Mas isso só é possível quando acreditamos na roupa vermelha, na barba branca e nas botas pretas. Quando a gente descobre a verdade sobre o “bom velhinho”, só nos resta brincar de faz-de-conta… É o que tenho feito até hoje: com alegria, mas sem ilusões.

Amálgama

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