PESQUISA

Um grã-fino na contramão*

por Amálgama (09/12/2008)

Pelo fato de ter criado a EAD, a Escola de Arte Dramática de São Paulo, que dirigiu e sustentou por vinte anos, tornando-a um pólo de qualidade decisivo para a profissionalização do teatro brasileiro, Alfredo Mesquita tem sua história frequentemente confundida com a da escola. Se por um lado isso significa o justo reconhecimento de […]

Pelo fato de ter criado a EAD, a Escola de Arte Dramática de São Paulo, que dirigiu e sustentou por vinte anos, tornando-a um pólo de qualidade decisivo para a profissionalização do teatro brasileiro, Alfredo Mesquita tem sua história frequentemente confundida com a da escola. Se por um lado isso significa o justo reconhecimento de sua contribuição, por outro abandona aspectos fascinantes de sua personalidade e de sua época, que tornam ainda mais notáveis suas iniciativas.

Alfredo Mesquita era um cavalheiro da velha São Paulo. Formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e aluno de grandes escolas francesas, como a Sorbonne, o Collège de France e a École du Louvre, era capaz de discorrer com segurança sobre Sthendal, Proust, Musset e muitos outros autores. E poderia exercer apenas a sua porção mundana, aplaudido pela nata da sociedade paulistana, se não o perseguisse constantemente o sentimento de que era preciso “fazer alguma coisa”, como escreveu sobre ele Antonio Candido, estreante em crítica literária na revista Clima, fundada pelo próprio Alfredo, e onde se projetaram jovens intelectuais como Paulo Emílio Salles Gomes, Lourival Gomes Machado, Antonio Lefèvre e Décio de Almeida Prado.

Ao escolher, entre todas as possibilidades de sucesso ao seu alcance, a criação e a manutenção de uma escola, Alfredo Mesquita exerceu um traço admirável de sua personalidade, a de não querer se destacar nem aparecer, mas de se incluir numa certa cultura herdada, sem perder o toque pessoal e inovador. “Não foi à toa que soube combinar o apego à civilização burguesa do século XIX, com a introdução de Beckett e Brecht no repertório dos palcos brasileiros”, comentou Antonio Candido.

A EAD, que começou a funcionar numa sala emprestada pelo externato Elvira Brandão, em maio de 1948, inventou no Brasil a figura do ator com bagagem cultural. Ensinava mitologia para facilitar a compreensão do teatro grego; ensinava francês para permitir a leitura de obras sobre teatro – quando ainda era dificílimo encontrá-las traduzidas. Para facilitar a vida dos alunos, jovens comerciários, bancários, trabalhadores modestos que sonhavam com uma oportunidade de expressão, a EAD iniciava o expediente – noturno – com uma sopa, compartilhada também com os professores. Havia um clima acolhedor, em que pese o rigor de Mesquita. Para muitos alunos, a EAD era a segunda casa e, não raro, a única.

Esse clima de familiaridade não se deve a nenhuma vocação falsamente democrática do fundador da escola. Alfredo Mesquita foi, reconhecidamente, um homem autoritário, que nunca abriu mão da palavra final nas principais questões escolares. Por isso, quando as condições impostas pelo regime militar tornaram impossível para ele continuar a bancar sozinho seu projeto de escola, e a EAD foi incorporada à USP, ele se retirou. Não queria participar de um projeto em que não tivesse a palavra final. “Alfredo só fazia o que gostava”, disse sobre ele Paulo Mendonça, seu sobrinho e professor da EAD. “Não era assim por capricho, mas por coerência”.

 
* Esse texto é parte da apresentação de Alfredo Mesquita: Um grã-fino na contramão (Terceiro Nome, 2007), biografia de Marta Góes, reproduzida aqui com prévia autorização da editora.

Amálgama

Site de atualidade e cultura, com dezenas de colaboradores e foco em política e literatura.