PESQUISA

por João Peçanha * – O romancista João Silvério Trevisan afirma que a “musa” (apelido que dá à inspiração na criação literária) morreu de fome por falta de pagamento de direitos autorais. Que toda peça poética (entenda-se a palavra “poética” como algo abarcando tudo que contenha poesia, desde um poema a um texto em prosa) […]

por João Peçanha * – O romancista João Silvério Trevisan afirma que a “musa” (apelido que dá à inspiração na criação literária) morreu de fome por falta de pagamento de direitos autorais. Que toda peça poética (entenda-se a palavra “poética” como algo abarcando tudo que contenha poesia, desde um poema a um texto em prosa) demanda, antes de seu início, um projeto literário onde se afirme o que é necessário que a futura obra traga, qual é sua proposta, seja ou não inovadora. A partir de algumas premissas anteriores ao processo criativo propriamente dito, portanto, teríamos uma fase de preparação do que será gerado. Algo como uma gravidez.

Do outro lado do campo, temos o escritor Autran Dourado, que prima pela inspiração e crê que é a ela que devemos boa parte das obras primas hoje disponíveis. Que o projeto limita muito a ousadia e a liberdade criadora, transformando a obra em algo mais parecido com um memorando, por exemplo. Que uma obra de arte nasce dentro do artista quase inconscientemente. Algo como um espirro ou soluço poético.

A nós resta a arquibancada.

A questão da inspiração X transpiração (foi Einstein que começou a percentualizar esta relação, afirmando que na manufatura de obras de arte temos 90% de transpiração para apenas 10% de inspiração, se não me engano) não é nova e certamente demorará muito até que dirimamos as polêmicas em torno dela. Vemos excelentes escritores afirmando maravilhas de uma e de outra escolha.

Que a musa (inspiração, repito) existe, existe. Só que, assim como a uma mulher é imprescindível algo mais que um corpo ou rosto bonito, a musa não basta a si mesma.

Não me lembro de um texto sequer escrito por mim que tenha saído pronto e absolutamente desprovido de suor. Muitas vezes cheguei a escrever um texto inteiro de uma paulada só. Às vezes em menos de uma hora eu tinha pronto o primeiro tratamento do texto. No entanto, as semanas seguintes eu sem dúvida passaria refazendo frases, rearrumando vírgulas e alterando o destino de personagens.

A regra, portanto, é não ter regras, pois não? Mais ou menos isso. A arte que os nossos netos consumirão dependerá em grande medida de que a criação (literária, poética, artística) seja mantida tanto distante de normas quanto abrigada das necessidades ordinárias do artista. Portanto, pelo amor de deus, não encilhemos potros como o da criação, não congelemos momentos sublimes como o da produção de boa literatura.

Pedindo a conta: os textos nascem como nascem nossos filhos; alguns são planejados e outros nascem no susto. Os textos ditos “com projeto”, assim como podem se transformar em estado da arte, podem não dar certo de tão esquisitos e formais demais ou pouco ousados; os outros, erráticos e caóticos, filhos legítimos da musa de Autran Dourado, podem ser verdadeiras obras de arte ou, imperfeitos, nascer faltando um nariz ou com a boca torta. Não creio que haja uma estatística a esse respeito. Se houver, e se eu a encontrar, prometo jogá-la no lixo.

* João Peçanha é professor, contista e dramaturgo nascido em Niterói. Mestre em Estudos Comparados de Literaturas em Língua Portuguesa pela USP.

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