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Aconteceu em Woodstock

por Amálgama (13/12/2009)

por Jean Garnier – Há mais de 40 anos, 500 mil pessoas se amontoaram na cidade de Bethel, próxima a Nova Iorque, entre os dias 15 e 18 de agosto, para viverem aquilo que ficou conhecido como o mais famoso festival de artes da história. Em meio às desilusões de uma época marcada pela guerra […]

por Jean Garnier – Há mais de 40 anos, 500 mil pessoas se amontoaram na cidade de Bethel, próxima a Nova Iorque, entre os dias 15 e 18 de agosto, para viverem aquilo que ficou conhecido como o mais famoso festival de artes da história. Em meio às desilusões de uma época marcada pela guerra do Vietnã e a lendária contracultura da era hippie, embalados por muita música e sempre ao lema de paz e amor. Aconteceu em Woodstock, que estreou na última sexta no Brasil, é sobre tudo isso e também não é. Sim, na produção estão todos os ingredientes já citados aqui, só que tudo visto na perspectiva de um rapaz de 34 anos que não sabia até então o que seria de sua vida.

O filme é baseado no livro Taking Woodstock: A True Story of a Riot, a Concert and a Life, e é centrado nas memórias e na figura de seu autor, Elliot Teichberg. O jovem, que é interpretado por Demetri Martin, resolve abandonar o trabalho de designer em Manhattan para retornar a sua terra natal e ajudar os seus pais no quase falido hotel da família, o El Monaco. Além de cuidar das obrigações corriqueiras do lugar, o protagonista preside a Câmara de Comércio de Bethel e sente a necessidade de dar uma chacoalhada não apenas na pacata cidadezinha, mas também na sua vida. Ao ler um jornal, vê uma grande oportunidade: um evento que iria acontecer na vizinha Wallkill foi cancelado porque a população temeu uma possível confusão que os shows pudessem causar na região.

Elliot convence o promotor do evento Michael Lang (Jonathan Groff) que a fazenda de 600 acres de seu amigo Max Yasgur (Eugene Levy) era o lugar perfeito que eles procuravam. O concerto, que dá nome ao longa, a partir desse momento se transforma em pano de fundo na vida da família Teichberg, portanto se alguém esperava ver Jimi Hendrix incendiar sua guitarra, ou quem sabe apreciar a chapada Janes Joplin se sustentando no palco ou ainda os loucos do The Who em uma apresentação bombástica… é melhor procurar o documentário lançado em 1970.

Esse bastidor do evento é que faz com que o longa não seja “mais um sobre Woodstock”. Elliot é retratado pela dúvida, algo muito parecido com a figura de Dustin Hoffman em A Primeira Noite de Um Homem. Só que no meio do mato, enquanto a história acontecia, o espírito libertador que o espetáculo trouxe faz com que o jovem aprenda pela primeira vez a enfrentar seus pais, a amarga e gananciosa mãe Sonia (Imelda Staunton, numa atuação magnífica) e o inerte pai Jack (Henry Goodman). Há também sua relação com o amigo Billy (Emile Hirsch, que aqui teve o talento um tanto desperdiçado), um esquizofrênico ex-soldado que serviu no Vietnã.

O diretor Ang Lee conseguiu captar o espírito, os efeitos e o impacto que o evento trouxe na vida de diversas pessoas, desde os mais animados e entusiastas até aos mais céticos, que no início acreditavam que tudo aquilo não passava de um bando de vagabundos que não tinham nada mais o que fazer. As imagens que o diretor taiuanês utilizou são totalmente convincentes, como se feitas na época. Uma das cenas me fez lembrar outra que vi esse ano, só que aí é que você sente a diferença de algo realmente grandioso para aquilo que é totalmente descartável: em determinado momento, Sonia e Jack ingerem alguns bolinhos “suspeitos” e a alegria que emitem, debaixo de uma chuva torrencial, mostra o quanto a distância de pensamentos tinha castigado aquela família. Em Transformers, a mãe do protagonista também come algo que a deixa alterada, só que no blockbuster a cena é retratada de forma totalmente patética, muito diferente da genialidade Lee.

[ veja o trailer ]

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