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por Dan Batista * – Um princípio, se tomado como absoluto e inquestionável símbolo da pureza e da bonomia, tende a incutir em seus adeptos uma perigosa sensação de correção e superioridade, já que lhes rende uma certeza irrefutável – seja de natureza política, moral, religiosa etc – da qual outras pessoas ou grupos não […]

por Dan Batista * – Um princípio, se tomado como absoluto e inquestionável símbolo da pureza e da bonomia, tende a incutir em seus adeptos uma perigosa sensação de correção e superioridade, já que lhes rende uma certeza irrefutável – seja de natureza política, moral, religiosa etc – da qual outras pessoas ou grupos não compartilham. É isso que a limpidez da narrativa e do suave preto-e-branco de A Fita Branca, filme de Michael Haneke vencedor da Palma de Ouro deste ano, tenta nos dizer gritantemente.

Nele, retrata-se uma pequena comunidade onde logo o espectador descobre uma série de atos vis, tendo sempre pessoas puras ou purificadas como responsáveis. A tal fita branca, posta pelo pastor do povoado em seus filhos enquanto discursa convictamente sobre a moral, serve como uma lembrança de que se deve viver sob a pureza de um determinado conjunto de princípios; é, enfim, a própria representação da pureza. O diabo é que, ao lado da pretensa pureza, há uma noção de superioridade; isto é, aqueles que usam a fita, supostamente puros, sentem-se superiores aos impuros, e desse sentimento nascem os atos vis que pululam pelo filme.

Mas, ao contrário do que dão a pensar os parágrafo anteriores, este texto não é uma crítica de cinema. Também não é uma crônica sobre o fanatismo islâmico, tão conspícuo em nossa mídia, ainda que o caráter islâmico esteja presente; sim, ele está, mas como alvo de um ato vil, o que evidencia que o fanatismo não é, digamos, unilateral.

No dia 29 de novembro, houve um plebiscito na Suíça cujo objeto era a proibição de minaretes, que são torres de mesquitas, símbolo islâmico equivalente às torres de sino cristãs. Ora, a ver pelos princípios democráticos, a proposição é claramente bizarra e agressiva, uma vez que cerceia a manifestação religiosa e açula o preconceito, sobretudo se tivermos em conta que o principal poster de campanha dos partidários da proibição mostrava os minaretes como mísseis. Mas, ainda assim, a votação ocorreu. E, para assombro de muçulmanos e órgãos de pesquisas eleitorais, o “sim” venceu com 57,4% dos votos, com um índice de comparecimento de 53,4%.

Deste modo, a partir de agora, a construção de minaretes está vetada em território suíço (sim, no Éden da civilização ocidental). Só restarão os quatro que já existiam antes da votação. Os quatro que ameaçam a identidade republicana e cristã da Suíça, dizem os vencedores do plebiscito. Já é hora de se fazer valer a identidade européia, figuras de países vizinhos apressam-se em complementar. E todos, serenos, passam de leve as mãos sobre a fita branca presa bem firme em seus cabelos.

* Dan Batista, Araras-SP, é um ex-estudante de Filosofia.

Amálgama

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