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Melhores Leituras – 2009

por Amálgama (16/12/2009)

Assim como em 2008, o Amálgama aproveita o encerramento do ano para publicar um post especial com valiosas dicas de leitura, para as férias ou para qualquer momento de 2010. Pedimos a jornalistas, blogueiros e seres de outras espécies que nos falassem brevemente sobre o melhor livro que leram em 2009. Que o leitor se […]

Assim como em 2008, o Amálgama aproveita o encerramento do ano para publicar um post especial com valiosas dicas de leitura, para as férias ou para qualquer momento de 2010. Pedimos a jornalistas, blogueiros e seres de outras espécies que nos falassem brevemente sobre o melhor livro que leram em 2009. Que o leitor se divirta e fique à vontade para deixar sua própria dica para os demais.

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[ Otávio Dias, mestre em Física e colaborador do Amálgama ]
Neste ano em que pouco consumi de literatura, indicaram-me uma grata surpresa: A Descronização de Sam Magruder (Fundação Peirópolis, 1997). “Literatura de banheiro, porque depois de duas sentadas já terá lido tudo, pode ter certeza. E olha só: o livro tem mais prefácio e posfácio que estória,” meu amigo Marelo disse quando mo ofereceu. Realmente, um livro pequeno escrito por alguém que não tinha muita experiência no gênero: George Gaylord Simpson, considerado como um dos maiores paleontólogos do século XX. As palavras iniciais são de Arthur C. Clarke, autor do livro que deu origem ao filme 2001: Uma Odisséia no Espaço e um dos primeiros a falar em satélites artificiais, ressaltando a origem do texto de Simpson e sua importância; o posfácio é escrito pelo paleontologista, historiador da ciência e um dos maiores divulgadores de ciência do século passado, Stephen Jay Gould, que fez questão de pontuar pequenos erros e acertos científicos de Simpson – afinal, com o caminhar da ciência, teorias científicas foram deixadas pra trás em função da descoberta de novas evidências.

O título, Descronização, sugere uma viagem no tempo. O personagem principal, Sam Magruder, é cientista especializado no estudo do tempo que, durante experiência em seu laboratório, é lançado ao período Cretáceo, mais de sessenta milhões de anos antes de seu nascimento. Preso numa realidade completamente diferente daquela vivida, Magruder luta pra manter-se vivo, mantendo sempre a esperança de ao menos conseguir deixar registrada sua história para alguma geração futura. Simpson aproveita a ocasião pra apresentar um panorama então aceitável para o que deveria ser o período Cretáceo, uma viagem no mínimo tão rica quanto qualquer ficção que nos leve a planetas alienígenas. Este não é, entretanto, um livro sobre ciências ou mesmo viagem no tempo, estes são apenas motes pra que seja discutida a solidão. George Simpson não é um Garcia Marquez, mas soube, em pouquíssimas páginas, sensibilizar.

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[ Eustáquio Gomes, jornalista e escritor ]
Um balanço feito por alto me dá conta de que em 2009 li tanto quanto em 2008 (cerca de 30 livros), mas o padrão qualitativo me parece inferior ao do ano passado, quando tive à mão ao menos um romance realmente inovador e fecundante, Austerlitz de W. G. Sebald, e o Diário selvagem de José Carlos Oliveira, tão interessante e cheio de vida que ainda agora o releio como se fosse livro novo.

2009 foi um ano de livros leves. Conheci finalmente o Diário de um fescenino, de Rubem Fonseca, que me deixou a impressão de um romance mediano, sem pontos altos, que se mantém às custas de pequenos expedientes de suspense. Li O caderno vermelho, de Paul Auster, divertido mas insignificante, tão dispensável quanto um livro de crônicas que não seja de Rubem Braga. No momento em que escrevo este comentário vou a meio do Carne viva, o romance póstumo de Paulo Francis, e não estou nada convencido de que foi uma boa ideia da viúva extraí-lo da gaveta onde jazia há dez anos: dá a pinta de ser uma primeira versão e sem dúvida o talentoso Francis se revira um pouco na tumba. Mas também calhou de o ler após este Um homem só, novela psicológica de Cristopher Isherwood muito próxima de ser uma obra-prima.

Há os diários. Conheci dois em 2009: Descanso de caminantes, de Bioy Casares, que tem charme e elegância mas nenhum fogo interior, e o diário de juventude de Susan Sontag (Diários: 1947-1963), primeiro volume de uma prometida série de três: a ensaísta já aparece aqui madura e cosmopolita, interessada, inclusive, em Machado de Assis.

Há os livros que me deixaram pelo caminho, isto é, que desistiram de mim. Ali pela página 139 de Cinzas do Norte, de Milton Hatoum, eu me sentei na pedra e chorei sem compreender por que há tantas resenhas considerando-o um grande romance. Me pareceu que há ali mais enxúndia que facúndia. O que em nada desmerece seus primeiros dois romances. Outro que não consegui terminar foi A verdade de cada dia, de Carlos Heitor Cony, mas este tem a desculpa de ser um romance de juventude. Contudo pode se tratar de incapacidade minha, impaciência talvez, pois também falhei miseravelmente ao tentar reler o celebrado Pedro Páramo, de Juan Rulfo.

Foram as releituras que me salvaram. Do mesmo Cony reencontrei, depois de décadas, com Informação ao crucificado, um primor de síntese e de boa linguagem. Reli um romance extraordinário, A vinda de Joachim Stiller, de um belga igualmente extraordinário chamado Hubert Lampo, um tanto desconhecido por aqui. Mas o que reli mesmo com prazer renovado e um encanto que em mim não se esgota, foi a novela Uma abelha na chuva, de Carlos de Oliveira (nada a ver com o nosso José Carlos de Oliveira), obra-prima do neo-realismo português.

Mas sobretudo dois livros, duas ficções se apresentaram a mim como realmente novas e inovadoras, embora não sejam propriamente novidade: eu é que cheguei atrasado a elas. A prova, da húngara Agota Kristof (Rocco, 1989), traz em si um estranhamento que tem a ver com a linguagem “branca” e elíptica de que serve para dar conta de enredos tão simples quanto pouco convencionais (como em seu excelente Ontem, que virou filme). O outro livro marcante do período dormia há anos numa estante, sob forte desconfiança, e quando o apanhei e li de um fôlego tive de bater no peito com humildade e fazer um mea culpa. Muitos não gostam de Diogo Mainardi, o homem, mas deviam conceder um olhar compassivo a Malthus (Record, 2006), sua primeira novela. Há ali arte, sátira e linguagem inventiva o bastante para que seja situado na linhagem não-degradada de Serafim Ponte Grande, do sempre novo Oswald.

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[ Reinaldo José Lopes, repórter de Ciência da Folha de S. Paulo ]
Quem quer realmente ser desafiado por um livro lançado neste ano deveria encarar The Legend of Sigurd & Gudrún (Houghton Mifflin), a mais recente obra póstuma de J.R.R. Tolkien editada e publicada por seu filho e testamenteiro literário, Christopher Tolkien. Trata-se de uma recriação apaixonada de antigos poemas escandinavos que versam sobre a história trágica do matador de dragões Sigurd (ou Siegfried, como é mais conhecido). A forma poética, o chamado verso aliterativo, não tem nada a ver com a poesia clássica em português, e é uma experiência totalmente diversa para os ouvidos. Os personagens são viscerais, fortes, indomáveis. É um alívio para quem está cansado de historinhas urbanas modernosas e estreitamente antropocêntricas.

 

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[ Marjorie Rodrigues, jornalista e colaboradora do Amálgama ]
Simulacro e Poder: Uma análise da mídia, de Marilena Chauí (Perseu Abramo, 2006). Este livro é composto de três ensaios. O primeiro, mais longo, fala sobre como a mídia (em especial o jornalismo) ajuda a formar o imaginário social, reforçando mitos e estruturas de poder. Os dois outros falam sobre violência e direitos humanos – e a questão da mídia, embora diretamente relacionada ao tema, não é exatamente um ponto central.

O primeiro dos ensaios me tocou muito. Quando recomendo este livro para as pessoas, gosto de dizer que Marilena fez um trabalho de costureira. Como estudante de jornalismo que se enfiou no mercado desde o primeiro ano de faculdade, nada do que ela descreve é exatamente novidade para mim. Li praticamente todos os livros que ela cita (e, não, não estou tentando dar uma de pseudointelectual – é que os livros são leitura obrigatória de todo curso de jornalismo Brasil afora…) e, trabalhando, observei de perto as práticas, vícios e discursos que ela descreve tão bem. Mas me fascinou a maneira como ela pegou todas essas referências e as colocou numa ordem lógica, didática, cheia de sentido. Ela mostrou pontes que, para mim, estavam escondidas. Extraiu deste material todos os pensamentos que eu provavelmente levaria uns bons anos para atingir. Enfim, lançou luz sobre o que, para mim, era apenas um esboço muito rudimentar de raciocínio.

Um dos outros dois ensaios tem um trecho interessantíssimo sobre como a violência é algo que está em cada de um nós. Sobre como a nossa sociedade é, essencialmente, violenta. A violência é validada em diversas de nossas expressões culturais e é institucionalizada por meio do Estado. No entanto, não assumimos isso. Preferimos atribuir a violência apenas ao forasteiro, ao outsider, ao “bandido”. Preferimos enxergar como violência apenas os atentados contra a propriedade – a privada e a do corpo. Todas as outras pequenas (mas não menos importantes) violências do dia-a-dia são jogadas para baixo do tapete, para que não tenhamos de reconhecer o monstro em nós mesmos. Desde que o li, este trecho do ensaio vira-e-mexe me volta à cabeça. Passei a perceber, em pequenas coisas do dia-a-dia, o quanto isto é mesmo recorrente. Acho que não há um dia sequer em que eu saia à rua ou assista ao noticiário e não me lembre do ensaio, sempre concluindo: “É, Marilena, você tinha razão”. E livro bom é livro que faz isso, não? É aquele que te dá um novo par de óculos para enxergar o mundo.

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[ Ísis Diniz, repórter da RedeTV! ]
Um conto conhecido. Entre tantos livros sobre meio ambiente e ciência, o que mais me marcou foi uma releitura do José Saramago. Brincadeira, claro. Foi realismo fantástico. O pequenino livro O conto da ilha desconhecida (Cia. das Letras, 1998), de 62 páginas, é ficção. Dependendo do olhar do leitor, pode ser pura ficção científica.

Não lembro em que ano visitei o livreto pela primeira vez. Sei que, em 2009, interpretei sua essência de modo diferente. Mais realidade do que fantasia. No conto, um homem pede ao rei um barco para encontrar uma ilha que não existe nos mapas. Partindo de uma situação verossímil, Saramago navega em direção a uma parábola. “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra (…)”, escreveu o poeta metafísico John Donne. Dependendo do modo como dirige o leme da vida, de como está a maré no momento, de como se navega – ou não – em direção aos sonhos, a recepção da história de Saramago pode ser diferente. Na releitura, avistei uma ilha desconhecida. Excelente narração – científica e comportamental – para o início de um ano novo.

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[ Juliana Dacoregio, jornalista e colaboradora do Amálgama ]
Não terei a menor pretensão de separar o artista de sua obra: Fal Azevedo é a autora e a história. Nesse caso, a história se chama Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite (Rocco, 2008). Fal é o tipo de pessoa que sofre, conta o que sofre, mas, sem querer, nos conforta no seu sofrimento. Não me entenda mal, não é o pensamento “antes ela do que eu” o que nos deixa confortados. É que ao expressar suas dores (ou as dores de sua protagonista) ela o faz de uma forma esperançosa. Mais uma vez é bom esclarecer: Fal não é uma caricatura do pensamento positivo, tampouco escreve auto-ajuda. Em Minúsculos Assassinatos, ela apenas narra a trajetória de uma mulher que perdeu muitas coisas ao longo da vida, mas mesmo assim continuou. Não como se fosse fácil. Não cheia de entusiasmo e negação inconsciente das tragédias da existência. Apenas continuou. Um dia após o outro, após o outro, após o outro. “Só hoje vou viver sem surtar”, parafraseando o mantra dos Alcoólatras Anônimos. Um dia uma decisão, outro dia mudar para a praia, alugar uma casa, trabalhar um tanto, conversar muito com os amigos por e-mails, trocar receitas… E como tantos de nós, refugiar-se em uma cozinha aconchegante, preparando comidinhas e comendo, como quem dá e recebe carinho. E no meio de toda essa rotina trivial estão as memórias dessa mulher (A personagem? A Fal?) cheia de perdas e recomeços. Trata-se de uma obra confessional que recomendo a todos que têm a tal da alma poética e também àqueles que precisam se lembrar que sem ternura e um pouquinho de auto-indulgência a vida não tem graça nenhuma.

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[ Julio Daio Borges, editor do Digestivo Cultural ]
O melhor livro que li em 2009 não foi um livro recente, nem do século passado, nem do retrasado. Foi um livro de 1600, com mais de 400 anos de idade, o Dom Quixote de Miguel de Cervantes (Nova Aguilar, 2004). Na verdade, comecei na virada de 2008 para 2009 e só concluí a primeira parte neste segundo semestre de 2009. Como disse num texto que escrevi sobre, precisei de certo tempo, e até de certo isolamento, para “entrar” no livro e desfrutá-lo plenamente. Com a internet, com a velocidade e com a fragmentação dos textos, estamos cada vez menos acostumados a ler de verdade. E só os clássicos proporcionam essa experiência, quase de “teletransporte”. Passei vários dias nesse compasso e “retornei a São Paulo” tentando resistir, ao máximo, à nossa indústria cultural. Não consegui, é claro. Mas, hoje, rememorando, sinto saudade dessa minha resistência… Estou me planejando para conseguir me dedicar mais aos clássicos.

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[ Luiz Biajoni, jornalista, escritor e colaborador do Amálgama ]
Não li muitos romances nesse ano, nenhum que tivesse realmente me marcado. Tenho grande interesse na área alimentar, então destaco dois livros que li e que recomendo forte: O Homem que Comeu de Tudo (Cia. das Letras, 2000) e O Dilema do Onívoro (Intrínseca, 2007). O primeiro é escrito com leveza e humor irônico, digno do melhor Woody Allen, pelo crítico de gastronomia da revista Vogue, Jeffrey Steingarten. Recheado de informações, os textos são deliciosos – como bem convém a textos gastronômicos. Assim, ele conta, por exemplo, como pegou um avião para Hong Kong só para experimentar o bife Wagyu, a “mais famosa, cara e deliciosa carne do mundo, proveniente de uma raça de gado negro japonês alimentada com uma dieta de cerveja e grãos empapados de saquê e paparicada ao longo da vida com massagem e acupuntura”. Já O Dilema do Onívoro, de Michael Pollan, conta como se produz boa parte dos diversos tipos de comida encontrada nos mercados. O destaque é para a importância do milho – cerca de 90% dos alimentos industrializados contém algum produto derivado do milho. Interessante, já que o milho não se auto-fecunda, precisa da mão humana para continuar a existir. Assim, não seria errado se perguntar se o milho não tem uma brilhante estratégia evolutiva que nos coloca a serviço dele, já que hoje praticamente não viveríamos sem seus grãos dourados.

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[ Ricardo Cabral, psicólogo ]
De verdade, do húngaro Sándor Márai. Aí está um grande, grande livro. (Quase) um triângulo: Ilonka, Péter, Judit. (Sim, quase. Leia o livro e concorde comigo, vá.) Quatro décadas sendo escrito, e o uau! vale também para o resultado. Só por sua descrição do fracasso da relação de Péter e Judit qualquer um se convenceria que nem mesmo em amores de livro o abismo entre nobreza e criadagem pode ser transposto. E no meio de tudo, uma Budapeste em ruínas. E também solidão, desamor, ressentimento aos montes, mas sem exagero algum. Gigante, esse Márai, que me capturara com seu As brasas… humm, deve ter sido por isso. O impacto que senti em As brasas não se repetiu no De verdade. Cheguei a pensar: estarei condenado a gostar “bem gostado” só do primeiro livro que resolvo ler de cada autor? O Benedetti riu de mim, tenho certeza, e disse que não, uns meses antes de morrer. Conheci sua prosa muito tempo atrás, em Primavera num espelho partido, e resolvi repetir logo a dose com El ejercicio del criterio. (Bom, não era outro romance, mas uma coletânea de críticas literárias, escritas entre 1950 e 1970, então a maldição não foi de fato posta à prova.) Depois houve um enorme intervalo, mais de duas décadas, até tornar a ler outro livro dele. Suspeito que demorei tanto por receio de confirmar aquela hipotética escrita, somado ao fato de não ter encontrado livros dele por aqui.

Mas numa livraria falecida meses atrás — e que para minha tristeza virou academia de ginástica —, dei de cara com Quem de nós. Era simplesmente a estreia em romances do Benedetti (1953), livro publicado aqui pela Record em 2007. (Aliás, googleando encontrei uma edição de 1992, pela Mercado Aberto, do RS. Em se tratando de literatura, o Rio Grande do Sul é mesmo outro país. Que inveja.) Nem mesmo a minha presbiopia galopante foi capaz de me impedir de devorar suas 84 páginas em poucos minutos. Caramba, um primeiro romance desses? Um triângulo amoroso, meu segundo do ano? Esse mesmo livro em que a gente — ou pelo menos eu — meio que embarca na autocomiseração do relato de Miguel, se apieda de seus fracassos e dores, mas que no segundo capítulo, nas poucas linhas postas na mesa por Alicia, logo nos vemos obrigados a largar de mão, não sem um pouco de vergonha? Esse mesmo capítulo em que ela, escrevendo ao ex-marido, diz “Querido, nosso casamento não foi um fracasso, mas algo muito pior: um sucesso mal gasto” (p. 53)? E onde, mais adiante, Lucas, o pretensioso e terceiro Lucas, que crê saber de tudo, mostra como consegue entender menos ainda as coisas? Esse livro tão exato e curto, onde não vi as gorduras ou pretensões que tão frequentemente se encontra em primeiros romances?

O Márai (e também os Roberto Bolaño, Javier Marías e Haruki Murakami que li este ano) que me desculpe(m), mas fico com Quem de nós. De todos, foi o mais tocante e belo presente que me dei em 2009, segundo informações colhidas em minha memória. (E A trégua, do mesmo autor, segue na cabeceira. Do ano que vem não passa, juro.)

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[ Guilherme Scalzilli, jornalista e escritor ]
Tocaia Grande, de Jorge Amado (Cia. das Letras, 2008). Num ano dominado por leituras técnicas e alguma poesia, reencontrei a ficção despretensiosamente. Prestes a fugir para um retiro baiano, chegou-me por acaso um exemplar desse extenso romance (cerca de 550 páginas). Mais do que a oportunidade da leitura “de evasão”, seduziu-me a absurda coincidência de estar com viagem marcada exatamente para a região onde se passa a narrativa de Jorge Amado. Confesso que jamais havia lido qualquer coisa do ilustre imortal, um pouco por rejeição à sua popularidade, que conheceu períodos de saturação através das incontáveis adaptações audiovisuais. Mas o fato do livro ter virado telenovela não me assustou, porque a ignorei solenemente na época. Apostei no fato de se tratar de uma obra da maturidade, entre as derradeiras do escritor, e não me arrependi. É uma lição de exuberância narrativa. Amado atingiu uma fluência rara até mesmo nos clássicos universais mais festejados, aliando o vocabulário simples e objetivo a regionalismos enriquecedores que, em mãos menos hábeis, poderiam descambar para a cruel vulgaridade. E então se opera esse milagre de que apenas os grandes criadores são capazes: o popular sublima-se em universal. Os personagens adquirem nobreza quase mitológica, com um sentido de dignidade desprovido de pedantismo didático ou melodrama. O mesmo ocorre com o humilde lugarejo do título, que sintetiza microcosmicamente a grandeza e a tragédia de um povo inteiro.

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[ Mary W., blogueira ]
Mulher de um homem só (Os Viralata, 2009) é o melhor livro que eu li em 2009. O autor, Alex Castro, tem uma visão bastante peculiar da psiquê feminina e então o livro é absurdamente relacional. O masculino e o feminino tentam dialogar e a verdade é que o masculino acaba calado. A narradora conta toda a história sem tentar encobrir neuroses e birutices de qualquer espécie. Daí que ela somos todas nós. Ou todos nós. A leitura flui e a gente não vê o tempo passar enquanto lê. O que é significativo já que se trata de uma história que deveria ser pesada (ela está falando sobre um casamento marcado por desconfianças e a gente percebe que toda a vida dela é marcada por essa infelicidade conjugal). Mas a gente não se cansa. Não sente o peso. Há apenas identificação e gargalhadas. Um livro sobre esse tal mal-estar contemporâneo. Sobre indivíduos que se comunicam apenas através de loucuras. Sobre a dificuldade de mantermos em pé as instituições do passado (casamento, família). E tudo contado assim, através de uma personagem sem freio, que faz com que a gente desembeste com ela.

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[ Rafael Rodrigues, editor-assistente do Digestivo Cultural ]
2009 foi um ano excelente para os amantes de literatura. Porque, além de terem sido publicados muitos livros excelentes, tanto de autores brasileiros quanto de estrangeiros, foi um ano com acontecimentos importantes, como o novo de Dan Brown (não gosto dele, mas estou falando sério) e o novo romance de Rubem Fonseca, agora na editora Agir. Mas, dentre os livros que li, e acredito até que dentre os que não li, ao menos se formos falar de ficção, a melhor obra publicada em 2009 no Brasil foi Indignação, de Philip Roth (Cia. das Letras). É uma obra-prima. Chega a ser in-crível – assim mesmo, com hífen – a maneira como Roth consegue abordar temas tão diversos – e diria até espinhosos – de maneira tão simples e, ao mesmo tempo, marcante. O que parece, no início, ser um livro sobre relações entre um filho e seu pai, se transforma num romance sobre a juventude e tudo o que ela acarreta: primeiras experiências, inconseqüência juvenil, medos e inseguranças. Não é a melhor obra de Roth, mas definitivamente Indignação é uma obra-prima, ao menos para mim.

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[ Victor Barone, jornalista e colaborador do Amálgama ]
Na construção do cotidiano de uma família sertaneja das primeiras décadas do século XX, em Vidas Secas, Graciliano Ramos expôs o embrutecimento humano e a conseqüente impossibilidade de ultrapassar as barreiras do pensar. Exatamente por estas características a obra é tão atual, especialmente no que se refere à dificuldade que – expostos à necessidade de sobreviver matando um leão por dia – os milhões de brasileiros imersos na miséria têm de abstraírem-se das estratégias que lhes saciem as necessidades mais primárias. É este o principal legado de Vidas Secas, um alerta contra o embrutecimento do ser humano, um aviso sobre o que ele pode causar de pior aos homens: o conformismo e a submissão. Em meio a um cenário onde os personagens vagueiam entre o humano e o animalesco, no qual as conversas se dão por grunhidos, meias palavras, acenos de mãos e cabeças, onde as crianças são vistas como “bicho miúdo que não pensa”, onde o máximo que se pode almejar é sobreviver a mais um dia, a cadelinha Baleia surge como um contraponto. São dela os momentos de maior humanidade no romance. Tão forte é o fator humano em Baleia que, mesmo baleada por Fabiano, recusa-se a morder a mão de seu companheiro. Da mesma forma que Fabiano se recusa a revoltar-se contra seus infortúnios, a cadela não pode ir contra a sua natureza. Eis aí um laço entre os dois principais personagens do romance. Fabiano, de humanidade embrutecida pela pobreza, guarda sua revolta, aceita o inaceitável, precisa sobreviver. Baleia, cujo caráter animal se vê impregnado de humanidade, não pode ir contra sua natureza de lealdade. E assim os dois destinos se enlaçam.

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