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A nova oposição, ou Como Aécio deu um xeque-mate no PSDB

por João Villaverde (13/12/2010)

JOÃO VILLAVERDE - O senador se distancia do lado moralista do PSDB

-- Aécio no Roda Viva (6/12/2010) --

por João Villaverde

Quando anunciou que desistira de lutar pela candidatura à presidente do PSDB, em 17 de dezembro de 2009, Aécio Neves estava fazendo duas apostas: uma, que seria (bem) eleito senador por Minas Gerais; e outra, que essa eleição o cacifaria para ser o “novo” no PSDB, fosse num governo José Serra, onde Aécio despontaria como o grande nome, fosse num governo Dilma Rousseff, quando ele surgiria como o único nome disponível.

Dilma ganhou, numa campanha que Serra, o candidato do PSDB, falou de aborto, padres e os valores da família.

Aécio foi o senador mais votado, proporcionalmente, na história de Minas Gerais — e, após as eleições, sofreu tiroteio do lado serrista tucano, acusando-o de não ter se empenhado o suficiente na campanha. Serra perdeu para Dilma, em Minas, e sequer citou Aécio no discurso da derrota, na noite do segundo turno.

Um ano depois veio o xeque-mate.

Falando aos jornalistas do Roda Viva, tradicional programa de entrevistas da TV Cultura, Aécio bate em dois pontos: 1) é bobagem anunciar candidato em 2012, dois anos antes das eleições de 2014; 2) a campanha de 2010, de cunho moralista extremo, foi um erro.

Com isso, Aécio se distancia do jogo que levou o PSDB, a partir de 2005, para o lado moralista das forças políticas — o lado que só ganha eleições em tempos de Guerra Fria (1947-1991) — e tenta, um tanto sozinho, bem verdade, servir de pólo aglutinador para novas forças do PSDB.

Não acredito que Geraldo Alckmin, governador eleito em primeiro turno em São Paulo, seja uma dessas novas forças. Alckmin é o típico político paulista: se dá bem tanto com Serra, que tem personalidade mais assertiva, quanto com Aécio, que é mais pão de queijo, ou seja, cai bem com café, coca-cola, água ou cerveja. Mas, por ser tão paulista, Alckmin não tem cara. É o sujeito sem sotaque, sem tempo, sem papo, sem traquejo de incutir o novo — apenas reverberar conceitos já conhecidos e testados.

Além disso, Alckmin já teve sua chance: foi candidato do PSDB à Presidência, em 2006, e perdeu. Perdeu também as eleições municipais de 2008, quando uma ala de seu partido, liderada por Serra, então governador de São Paulo, apoiou descaradamente Gilberto Kassab (DEM), atual prefeito. Alckmin, paulistanamente, aceitou, poucos meses depois, virar secretário de Serra. E em 2010, sair candidato ao governo doando todo seu capital na campanha de Serra, que perdeu.

Mais que isso: Alckmin, em 2006, jogou com a pauta conservadora que, como vimos, pode até ser bem sucedida em segmentos da classe média e na Igreja Católica, mas que não leva eleição — que é o que importa para um partido político, certo?

A nova oposição, então, não se faz com velhas peças. Beto Richa (PSDB), governador eleito em primeiro turno no Paraná, sabe bem disso, tanto é que flertou com o serrismo apenas no fim da linha, durante o segundo turno, apostando que uma vitória de Serra o credenciaria ainda mais. Serra não levou e Richa, esperto, sumiu, indo se preocupar em tomar um vinho na bela Curitiba, antes de assumir o governo do Estado.

Em menos de 20 dias, quando começa 2011, o PSDB terá diante de si um período de 18 meses (um pouco mais, um pouco menos) em que o PT, sob Dilma, dificilmente enfrentará uma denúncia bombástica, ou os rumos da economia se alterem de maneira drástica. Nada disso deve acontecer. Além disso, o DEM, partido que orbita os tucanos desde 1994, passa por sua mais grave crise desde 1986, quando o PFL (nome original do DEM) foi fundado.

Será o momento em que os diferentes pólos internos do PSDB oscilarão, ora com mais força para a ala moralista, ora com mais força para os mercadistas, ora com mais força para os desenvolvimentistas, ora para os gerentes. A partir de um determinado momento, tudo isso deve começar a se aglutinar em torno de uma ala que se tornará hegemônica – e não será mais o pessoal conservador, que dominou o partido entre 2005 e 2010.

O xeque-mate de Aécio veio, 365 dias depois.

João Villaverde

Jornalista, autor de Perigosas pedaladas: Os bastidores da crise que abalou o Brasil e levou ao fim o governo Dilma Rousseff. Foi pesquisador visitante na Universidade de Columbia, NY, e atualmente é mestrando em administração pública e governo na FGV-SP.