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Clarice Lispector nos lembra: ninguém nasce pra ser feliz

por Pedro Gabriel (26/12/2010)

PEDRO GABRIEL - As pessoas querem ser felizes o tempo inteiro, interminavelmente.

-- Clarice na sala de seu apartamento no Leme (Rio de Janeiro, 1961). Foto de Claudia Andujar --

por Pedro Gabriel

Se viva, Clarice Lispector teria completado este mês belos 90 anos. Reconhecedor que sou da importância maiúscula de Clarice para a nossa prosa e admirador contumaz de sua personalidade incrivelmente lúcida sou, não obstante, um quase desconhecedor de sua obra. Pretendo ser breve neste artigo a fim de (como manda a prudência) não cutucar minha própria ignorância com vara curta. Não tecerei nenhum comentário sobre algo de específico em sua obra que, como disse, desconheço em profundidade. Meu comentário diz respeito ao sentido geral de sua produção, algo que faz de Clarice uma escritora digna de ser lida e que se refere a uma postura oposta à índole comum da nossa humanidade: a de esconder o rosto sob o travesseiro da ilusão e sob o mesmo dormir o profundo sono da animalidade onde se sonha enganosa e falivelmente com a felicidade.

As pessoas querem ser felizes. O tempo inteiro, a cada instante, interminavelmente. Tal experiência é esperada hoje por todas as pessoas em todos os níveis, individual e social (com o novo laço social que se desenha) e reforçada pela produção das drogas da felicidade e por uma imersão midiática numa atmosfera de euforia onde todos os bens necessários à nossa plena satisfação estão à venda numa série interminável de coisas ofertadas sobr essa égide. Há hoje uma espera constante e permanente por uma vida isenta de perdas, traumas, violência, frustrações, lesões, engano. Enquanto há outro há dor (diria Freud se perguntado hoje sobre o sentido geral de uma de suas obras maiores: O Mal Estar na Civilização). Falando em Freud, aliás, não podemos esquecer do que este disse sobre a literatura que é o reino onde impera soberano o Princípio do Prazer, afirmação que não deve ser confundida com a idéia de fruição (isso seria entender superficialmente a terminologia freudiana, embora não fosse de todo incoerente com a função a-pragmática da arte e do que faz Clarice com sua pena majestosa). Completamente de acordo com a arte-epifania, todas as obras de Clarice que tive contato são tramas tecidas pelo fio do conflito e do trauma, dito em uma única palavra: do Trágico.

Talvez seja esse o critério que mais facilmente nos ajude a distinguir os gigantes intelectuais dos meros vendedores de livros (os celebrados best sellers): na nossa história estética nenhuma obra cunhada sob uma atmosfera edificante com personagens felizes sempre emitindo bons exemplos resistiu à prova do tempo. A vassoura da história felizmente varre de nossa memória obras irrelevantes não condizentes com a dimensão mais elementar da vida, aquelas que não são feitas sob a proposta de um trilhar sobre nossas veredas mais intimas: o ouro verdadeiro só se prova no fogo (já diz um antiquíssimo ditado Hebreu). Mesmo as histórias feitas para as crianças, como analisa Bruno Bettelheim no seu Psicanálise dos Contos de Fadas, são metáforas do que há de mais odioso em nossa condição e que, por meio das narrativas infantis, encontram uma brecha na pesada barreira do recalque para alertar nossas crianças que a vida não é para amadores e que exige que pisemos leve e não confiemos demais. “O mundo não vale o mundo” disse Drummond e poderiam dizer, se perguntados, os contos dos Irmãos Grimm ou as fábulas de Esopo ou de Andersen (o gigante dinamarquês), obra que meu filho (cuja carne hoje ainda é feita de sonho e vento) haverá de um dia ler.

O senso comum (horse sense, como chamam os americanos) insiste em criar histórias, para adultos e crianças, que desprezam o que há de mais inconciliável em nossa condição substituindo os monstros comedores de crianças por histórias sobre pessoas felizes que não conhecem o engano em suas ascéticas trajetórias. Clarice, na contramão dessa índole (como dissemos no início desse escrito) trata de solidão, horror, morte, do eterno problema de nossa incomunicabilidade. Num de seus poucos livros que li (Laços de Família) Clarice levanta a cortina do núcleo familiar demonstrando toda a gama de impossíveis que nos cerca e dos pequenos e grandes crimes cometidos todos os dias. Clarice é uma flor de Lis ardendo em nosso peito lembrando que “nunca fomos felizes” e que, aliás, não somos aparelhados pra isso.

Conforme lemos em Benjamin Moser, seu mais recente biógrafo, Clarice fora concebida para curar sua mãe de uma sífilis incurável transmitida pelos sucessivos estupros de soldados Russos durante a ocupação na Ucrânia. Essa foi a trama que decidiu a presença de Haia (nome de batismo de Clarice) nesse mundo infeliz. Conforme uma antiga crença vigente no pequeno vilarejo de Tchetchelnik, engravidar significava curar-se de qualquer doença. Mania não resistiu e morreu pouco depois de chegar ao Brasil (fugindo da guerra). É a esse evendo que Bruno Moser se refere para argumentar que Clarice é uma missionária falhada: falhada porque não nasceu pra curar, restruturar ou edificar ninguém, senão para exprimir o que há de mais próprio (num sentido heideggeriano) de nossa experiência de estar no mundo. É uma obra onde se percebe a aceitação dos limites e do peso impostos pelo mundo e pelo tempo e um estado de conciliação com o que há de falível em nós próprios. Há paz em Clarice, mas (oportunamente) não há felicidade.

Clarice completou efetivamente 90 anos neste mês. Sua obra permanece viva e atual e assim se manterá enquanto houver algum peso que sua escrita ajude a tornar suportável ou alguma ilusão que precise ser tornada desilusão. Morrer é próprio do que é breve e passa sem deixar vestígio, com isso Drummond nos faz pensar que Clarice não morrerá em definitivo. Sua dissipação ocorrerá, fatalmente, mas como uma pluma suave que, com leveza, dissipa-se e vai se perdendo em algum lugar. Como disse a própria Clarice: perder-se é também caminho.

Pedro Gabriel

Psicanalista, mestre em Psicologia pela UFPE.