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A importância do 13 de dezembro

por Bolívar Lamounier (07/12/2015)

Tenho especial curiosidade pelo comportamento de empresários, estudantes universitários e deputados federais.

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A maioria dos brasileiros e uma legião de escritores, antropólogos e sociólogos garantem ter decifrado a “alma brasileira”: somos passivos, medrosos e adoramos levar desaforo para casa. Nos deixamos abater com a maior facilidade; somos, em suma, uns bundões.

Admitamos, para abreviar a conversa, que isso seja verdade. Mas quem abrir os olhos verá que muita coisa começou a mudar em 2012: a mudar para melhor e de uma maneira praticamente irreversível. Lembram-se daquele mensaleiro que dizia “não vai dar em nada”? Está na cadeia. A mudança ganhou ritmo em 2014, sob a batuta de Sérgio Moro e da Operação Lava Jato. Ou seja, vista se quiser a carapuça de covarde, mas por favor, não generalize; fale só por você.

E agora, preste atenção: o processo de impeachment foi deflagrado; pode ser a chance de uma salto muito maior na questão da corrupção e, de quebra, a saída para o pesadelo econômico que Dilma Rousseff e seu bando implantaram no país.

Milhões de brasileiros parecem acostumados à crise, ao desânimo, a um pessimismo que parece não ter fim. Pois tratem de se mexer, sacudam-se, saiam desse torpor; olhe cada um para dentro de si mesmo e responda a esta pergunta: o que você quer, afinal de contas? O que queremos como povo? Esta questão jazia por aí, adormecida, mas despertou furiosa. Você está a fim de estender a mão a Dilma Rousseff, ajudá-la a sair do sarcófago político em que se encontra e dar-lhe mais três anos para ela finalmente se revelar como uma mulher sábia, uma presidente de grande tirocínio e não menor competência? Ou quer vê-la e tudo o que ela representa pelas costas?

Os dados da economia podem te ajudar na busca da resposta: 4.5% de contração nos últimos doze meses, juro básico em 14.5%, inflação subindo, já acima de 10%, uma legião de desempregados; e nem sinal, isto desde Lula, das reformas sem as quais o crescimento sustentável permanecerá uma miragem. Realmente, nessa área, o governo Dilma aproxima-se do mal absoluto.

Vejo pelos jornais que certos analistas, embora cientes do tamanho do estrago, parecem inclinados a vestir uma fantasia de Dr. Pangloss – o imortal personagem de Voltaire. Querem acreditar que a permanência de Dilma será benéfica, pois continuam a acreditar em que o Brasil seja o “melhor dos mundos possíveis”. Superado o episódio do impeachment, Dilma terá a tranquilidade de que necessita para pôr em prática seus insuspeitados dons políticos e sua vasta bagagem de conhecimentos econômicos. Não me surpreenderei se alguns desses analistas tiverem o saci-pererê e duendes entre seus melhores amigos.

Sabemos todos que o Brasil – quero dizer, aqueles que não precisam se preocupar com o rango de amanhã – padecem de um otimismo doentio, exacerbadamente infantil. Mas são também adeptos da teoria do oito ou oitenta: se Dilma não estiver com a bola que imaginam, qual é o problema? Dá tudo errado, o país afunda-se mais um pouco e eles trocam a fantasia de Dr. Pangloss por outra qualquer, que pode até ser a do mais negro pessimismo. Qualquer coisa é melhor que enfrentar a realidade e suas incômodas companheiras, as responsabilidades.

De hoje ao próximo domingo, o país inteiro terá de decidir se faz ou desocupa a moita. Se irá à rua ou se acompanhará as manifestações pela televisão, endossando implicitamente a continuação da situação atual. Tenho especial curiosidade pelo comportamento de três setores: empresários, estudantes universitários e deputados federais.

Não vou me ocupar dos grandes empresários, pois a maioria deles gosta mesmo – como sabiamente observou Delfim Netto – é de “mamar nas tetas do governo”, de preferência naquela super-teta em que o BNDES se transformou nos governos Lula e Dilma. Vou me referir só aos pequenos e médios, que conhecem a super-teta de ouvir falar, mas não tiveram a honra de lhe serem apresentados. Por que os menciono? Por implicância, certamente não é.

Menciono-os porque ninguém melhor que eles pode aquilatar o desastre econômico a que o país chegou. Ninguém como eles é tão atento à expressão “passa-se o ponto”, hoje visível em todas as regiões do país, de Norte a Sul e Leste a Oeste. Minha indagação é a mesma: vão à rua ou vão acompanhar tudo pela televisão? Alguns eu sei que não vão: aqueles que para ganhar a vida só precisam plagiar a Wikipedia. E os outros?

Outro grupo que me chama a atenção é o dos estudantes universitários. Ninguém como eles sabe que várias universidades públicas vivem uma situação catastrófica. Por que diabos isso terá acontecido, se o governo federal está nas mãos do PT, se desde 2003 todos os ministros da Educação foram do PT, se o PT se proclama o mais lídimo representante da educação e da cultura, e se o ambiente ideológico das universidades é sabidamente de esquerda? Será que a mãe, num inexplicável acesso de fúria, resolveu devorar os filhos?

Sobre a situação financeira das universidades, acho que os leitores serão mais bem atendidos se buscarem informações no Ministério ou em algum posto de gasolina. A dúvida que me ocorre diz respeito à maioria estudantil. Por que à maioria? Porque, como todos sabemos, na atualidade e sobretudo nas universidades públicas, o dilmismo, o grevismo e outros ismos são obra de uma meia dúzia ligada aos micropartidos de extrema esquerda; a maioria, esta é a triste verdade, vai no vai da valsa. Endossa greve atrás de greve, ou, pelo menos, nada faz para resistir a elas.

Nas universidades privadas o quadro é ainda pior, pois uma grande parte dos estudantes estuda à noite, é muito mal atendida – e paga os olhos da cara. Nisto ela se parece com os pequenos e médios empresários, que paga impostos, arrisca seu capital e esperam pacientemente a metamorfose salvadora da “doutora” Dilma e de seu partido.

Por último, mas não menos importante, os governadores e parlamentares federais. Quem como eu observou e estudou durante tanto tempo as instituições políticas, não tem como evitar um sentimento de vergonha, decepção e tristeza. Tempo houve em que os governadores, por maiores que fossem as dificuldades administrativas que enfrentavam, comportavam-se como o que a lei manda que sejam: representantes de seus Estados. Mantinham uma postura de independência e altivez. Atualmente, é constrangedor observar a facilidade com que coonestam a pretensão populista de governar ao arrepio das leis – como Dilma Rousseff, seu mentor e seu partido sempre se inclinaram a fazer.

Espetáculo ainda pior é o que o Congresso Nacional nos vem proporcionando já há vários anos, ou há várias décadas, dependendo do prisma pelo qual o observemos. O espaço disponível não me permite precisar quando e como o declínio começou, mas a mentalidade que o acompanha cabe em poucas linhas.

Parece-me fora de dúvida que muitos congressistas também perderam a noção do que representam. Não atinam mais com o significado da expressão “mandato eletivo”. Em certos momentos eles se comportam de uma forma errática – nisto este ano foi pródigo; em outros, como terceirizados do Executivo; e em outros, não menos frequentes, como despachantes federais.

Rezo para que me desmintam no próximo domingo, saindo às ruas, e nas próximas semanas, ostentando a altivez que o mandato eletivo e a vida pública pressupõem. A atitude deles é que dirá se o Brasil vai ou não vai sair da arapuca em que a presidenta e sua turma o meteram.