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A luxúria do Brasil potência

por Fabio S. Cardoso (12/12/2015)

Em tom ironicamente solene, romance de Fernando Bonassi explora o fracasso de um país que prometeu imensas transformações sociais.

"Luxúria", de Fernando Bonassi (Record, 2015, 368 páginas)

“Luxúria”, de Fernando Bonassi (Record, 2015, 368 páginas)

Os jornais da primeira semana de dezembro falavam em recessão. E justamente o consumo, que na última década puxou o desempenho econômico do Brasil, agora é a mais perfeita tradução da grave crise que assola o país. Nas mídias sociais ou nos veículos da (wait for it) “mídia alternativa”, você, leitor, vai encontrar proto-cientistas políticos e dublês de crítica de mídia forjando verdades convenientes. E na estratégia de capturar a narrativa do momento, até mesmo o cinema nacional, com o filme Que horas ela volta?, foi tragado como a narrativa que mostraria a nova face do Brasil – sem crise, mas com “inclusão social”. No entanto, enquanto a fita de Anna Muylaert edulcora um Brasil que poderia ter sido, Luxúria, novo romance de Fernando Bonassi, traz a narrativa de um país que fracassou em promover a transformação social que prometia.

O leitor notará um tom ironicamente solene no romance. Isso porque a narrativa, ao tratar do personagem principal, fala do “homem de que trata este relato”, uma maneira a princípio distante e sóbria, mas que, à medida que o texto avança, consegue apontar com alta fidelidade o drama silencioso e verdadeiro pelo qual passa um homem que, acima de tudo, acredita nas verdades inventadas que os homens contam. E qual é essa verdade? A de que o Brasil vivia um momento excepcional, marcado pela ascensão de uma nova classe social, responsável pelo país atravessar um período inédito de bonança. Essa narrativa triunfalista que fez a oposição desaparecer nos últimos anos é radiografada de modo singular por Fernando Bonassi.

Tudo isso porque a grande virtude do texto é apresentar uma história cuja crítica não dispara contra os vilões de sempre. O homem de que trata aquele relato tampouco é inocente; antes, motivado por um desejo voraz por status, busca a todo custo aproveitar ao máximo a sua nova condição, que, no romance de Fernando Bonassi, assume a forma da construção de uma piscina. Sem querer, o texto do romance dialoga com o filme de Anna Muylaert. Se em Que horas ela volta? a piscina denuncia o ápice da tensão entre a casa grande e a senzala, como um ponto de encontro de duas camadas sociais que antes estavam separadas graças à emancipação da “nova classe média”, em Luxúria a piscina é o investimento que vai marcar definitivamente a ascensão daquela família, em que pese o fato da estrutura social estar mutilada, seja pela religiosidade de fachada (teologia da prosperidade), seja porque a esposa, aos poucos, vai sucumbindo aos antidepressivos que lhe são oferecidos para aplacar sua crescente ansiedade.

Num momento em que o núcleo duro da intelligentsia se esmera para dar vida a uma interpretação conveniente que justifica um projeto de poder, o romance assinado por Fernando Bonassi consegue indicar onde está a fissura: os ganhos sociais foram convertidos em bens de consumo de pouca duração. E é evidente que esse desenvolvimento não se sustentaria, porque o consumo, tal como foi preparado, estava longe de ser racional. Luxúria reelabora esse diagnóstico em uma ficção extremamente realista a respeito do Brasil contemporâneo. De certa maneira, se transforma em uma mensagem mais convincente do que o conteúdo do noticiário, que, adotando certa padronização, sempre consegue ver virtude no país – sim, estou falando da mídia alternativa e do relato do Brasil que dá certo.

É injusto afirmar que Luxúria é o primeiro livro que aponta que as coisas não vão bem no Brasil. Em 2012, ainda quando o sonho de Brasil potência estava em voga, o escritor João Paulo Cuenca publicou “Antes da queda”, editado pela revista Granta, que apresentava um cenário distópico do Rio de Janeiro pós-especulação imobiliária. Já em 2014, André Sant’anna lançou O Brasil é bom, editado pela Companhia das Letras, uma coletânea de contos em que o autor, tomando partido, aponta como a nova classe média incomoda a velha classe média – de forma estridente, o livro capturou o argumento que seria reproduzido fartamente de que o problema no Brasil é a rejeição das conquistas de uma nova classe média. Luxúria, no entanto, não cai nessa esparrela ideológica: o livro é virtuoso porque evidencia como um homem comum pode ser envolvido numa tragédia sem precedentes quando acredita nas mistificações de quem está no poder.

Fabio S. Cardoso

Professor na Universidade Anhembi Morumbi. Colabora com o jornal literário Rascunho.