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Em certas situações, o partido parece um organismo ameboide, sem forma e incapaz de escolher um rumo.

Um partido político pode ser fundado numa tarde, mas construí-lo como uma organização de verdade, conferir-lhe um mínimo de identidade e coesão, é tarefa para muitos anos. O PSDB, com todos os seus defeitos, parece-me ser ainda, de longe, o melhor de que dispomos. O mais capacitado a encetar as reformas e a reorganizar o processo de crescimento de que o Brasil desesperadamente necessita.

Ajudei a fundá-lo e contribuí até o limite de minha capacidade para torná-lo um instrumento eficaz para a transformação de nossa sociedade. Não tenho intenção de me desligar dele, até porque, quando uma organização vai mal, a saída dos bons apenas facilita a dominação total da máquina pelos que não querem servir a ela, mas apenas servir-se dela.

Mas, claro, não sou cego nem surdo. Percebo perfeitamente a gravidade da crise que ele atravessa, em parte por erros seus, em parte por fatores que escapavam e escapam a seu controle.

Se até a Convenção Nacional a realizar-se em julho ele tiver corrigido certas posturas que o vem desgastando brutalmente perante seus eleitores, meu voto será partidário; ou seja, votarei em Geraldo Alckmin e em candidatos que a convenção indicar para os demais cargos em disputa. Se não, votarei no candidato presidencial que mais se aproximar de uma visão programática que exporei parcialmente na parte final deste texto.

Como os leitores verão abaixo, vou expor meu pensamento sem nenhuma preocupação em ser “politicamente correto”.

Entre os fatores desgastantes a que me referi no início, o mais grave atende pelo nome de Aécio Neves. Sei que, juridicamente, o senador mineiro é apenas alvo de uma denúncia. Não é réu em nenhum processo. Mas o pedido de empréstimo que fez a um empresário de péssima reputação nada teve de “republicano”. Foi um fato ética e politicamente gravíssimo, que está levando um grande número de tucanos, quadros e eleitores, a descrer de vez do partido. No lugar dele, eu faria no mínimo o que fez Henrique Hargreaves no governo Itamar Franco: me afastaria do cargo pelo tempo necessário ao cabal esclarecimento da questão.

Isso, aliás, seria do interesse dele, pois na situação em que se encontra ele dificilmente será reconduzido ao Senado na próxima disputa. Altivos como são, os mineiros provavelmente lhe imporão uma derrota proporcional à decepção que sofreram com o promissor líder que Aécio parecia ser. Neste momento, é óbvio que Aécio encarna o avesso da demanda ética que presidiu à fundação do PSDB, cuja recuperação é condição sine qua non para a própria sobrevivência do partido. Não só ele, infelizmente. Na terça-feira, 19, em hora já avançada, a bancada tucana na Câmara Municipal de São Paulo encenou um dos momentos mais vergonhosos da história de nossa agremiação, aliando-se ao PT para meter a mão no dinheiro público.

Ainda em conexão com o tema ético, temos que examinar seriamente certas insinuações (acusações) de corrupção que remontam à década dos 90, envolvendo os governos tucanos de São Paulo e a empresa francesa Allston, a alemã Siemens, e o cartel das empreiteiras brasileiras. Tenho a mais profunda convicção de que o PSDB não sobreviverá se não passar tudo isso a limpo, duela a quien le duela, e o comandante de tal processo só pode ser o governador Geraldo Alckmin, sob pena de se inviabilizar como candidato à presidência. Tem de ser dele a iniciativa de cobrar investigações rigorosas e, se for o caso, levar os agentes públicos e privados envolvidos em práticas ilícitas à barra dos tribunais.

O segundo fator que me vejo forçado a mencionar é uma nebulosa aproximação que parece estar em curso entre a Fundação Teotônio Vilela, o PT e os satélites deste. A proposta, ou pretexto, seria discutir a situação da democracia em nosso país. Mas como é que um partido que há anos não debate temas dessa ordem nem com seus membros de repente resolve fazê-lo com partidos sabidamente ambíguos em sua devoção ao regime democrático? Aqui não me refiro apenas ao que me parece ser um equívoco na escolha de parceiros, mas também à pífia escala de tal debate. Por que não temos tido, há vários anos, iniciativas mais consistentes, mais abrangentes, condizentes com o papel que o PSDB pode e precisa desempenhar na política brasileira?

Há outros problemas, claro, mas de outra natureza, inerentes a todo processo político: a excessiva desunião entre os dirigentes partidários, a dificuldade de assumir posições nítidas em certas conjunturas, a tibieza em certos momentos decisivos. Infelizmente, o veneno que nossos adversários e uma parte da imprensa insistem em difundir tem muita razão de ser. Em certas situações, o PSDB parece uma biruta de aeroporto, ou pior ainda, um organismo ameboide, sem forma e incapaz de escolher um rumo.

O terceiro fator a considerar é a magna questão da agenda, ou seja, a imprescindível elaboração de uma nova base programática, que permita ao partido se relançar no cenário político com a qualidade e a consistência que sempre foram seu apanágio. Reitero, em alto e bom som, que o PSDB, apesar de todos os seus defeitos, ainda é a agremiação que mais se aproxima do padrão ético, da racionalidade econômica e da visão social lúcida que o Brasil reclama.

Bem ou mal, ele ainda tem um núcleo programático. Tem quadros capacitados. Foi o artífice da estabilização econômica após 33 anos ininterruptos de super-inflações. Ou seja, pode perfeitamente se recuperar a tempo de participar competitivamente das eleições de 2018. Mas isso requer coragem. A hora é agora. Les jeux sont faits.