PESQUISA

De Albert Camus a Tabata Amaral: dissidência, autonomia intelectual e perseguições

por Sérgio Pessanha (18/12/2019)

No atual contexto brasileiro, qualquer meio-termo é visto como condescendência ao “outro lado”.

Os anos 50 marcavam uma nova década após o fim da Segunda Grande Guerra e todos os seus desdobramentos em meio a uma Europa que ainda se reconstruía. A França condessava um pujante ambiente intelectual que tendia a ser capturado pela experiência soviética frente à polarização que se estabelecia com inicio da Guerra Fria. Para a intelligentsia parisiense encabeçada por Jean-Paul Sartre, não havia margem para críticas aos horrores do Stalinismo em 1951, o ano que Albert Camus lançava o seu O Homem Revoltado.

Camus ultrapassou a linha do que era aceitável ao se prostrar contra o messianismo e resistir ao apego a idealização de “um paraíso terrestre”, ao divergir da violência como justificava da ação politica, ao ir contra o sacrossanto instrumento da “revolução”, contestando tanto os seus métodos como os seus resultados.

Seu excesso de ponderação ética seria reflexo da sua incapacidade de agir, consequentemente uma mera fraqueza. Sartre faria questão de deixar tal constatação evidente, mas preferiria usar Francis Jeanson para responder isso ao seu outrora amigo e companheiro. A coisa, claro, não pararia com um mero artigo de resposta ao livro, Camus seria excluído de todos os meios ditos “progressistas”. Responderia não a Jeanson, mas a Sartre, dizendo que: “nossa amizade não era fácil, mas vou sentir a falta dela. Se você a quebra hoje, é, sem dúvida, porque ela devia um dia ser quebrada”.

O apogeu da exclusão viria com infundadas denuncias de que o escritor franco-argelino era favorável à colonização francesa na Argélia, tendo uma matéria no Le Monde fortalecido tal inverdade com a descontextualização de uma resposta sua ao ser questionado sobre as ações da FLN. Assim como não era hora de criticar Stalin, para a intelligentsia francesa também não deveria caber a Camus fazer ressalvas as ações da Frente de Libertação Nacional. A ironia fica no fato de Camus, diferente deles e de Sartre, ser oriundo da Argélia e ter presenciado de perto tanto os horrores da colonização quanto das ações da FLN. Ao ousar fazer tais ressalvas, aprofundou ainda mais o seu estigma de pária. Sua morte num acidente de carro em 1960 viria sem que seus detratores se retratassem ou o compreendessem.

Chegamos ao atual contexto brasileiro marcado pela polarização pós-derrocada do petismo e com ascensão do bolsonarismo. Onde qualquer meio-termo é visto como condescendência ao “outro lado”.

Guardadas as devidas proporções, perseguições de igual substancia são feitas agora a uma jovem deputada. Mudam-se as noções de “colonialismo”, Tabata Amaral estaria a favor não do colonialismo literal, mas do econômico, a serviço dos “magnatas”. Todo o seu pensamento é reduzido a acusações clichês. Seu crime é pensar fora da caixa e não comprar a pasteurização que lhe foi oferecida em forma de cartilha a ser seguida. Ela se junta não só a Camus – exemplos não faltam no próprio Brasil – junta-se também a Gabeira, a Marina, a Eduardo Jorge e a tantos outros. Ao se propor ao dialogo, ao buscar autonomia e alternativas reais, ultrapassou, a sua maneira, a mesma linha que Camus ultrapassou.

As redes sociais apenas servem para transparecer mais a perseguição sofrida, basta ir a alguma pagina relacionada à figura da deputada para perceber que não existe concessão, seu julgamento já foi feito e ele é sumario. E não importa que esteja partindo dela a agenda social mais robusta a passar pelo Congresso em muito tempo, com benéficas mudanças nos programas de transferência direta de renda e proteção social. Seus votos em prol da reforma da previdência e demais reformas econômicas, sua ousadia em ter algum bom senso fiscal, lhe legaram o ostracismo frente aos seus iluminados julgadores, gente preocupada em sinalizar uma virtude figurada enquanto mascara a intransigência e o autoritarismo.

Seja na França pós-guerra ou no Brasil atual, algo que não sai de moda é a fúria com que a esquerda mainstream persegue os seus dissidentes. Pior do que a direita, pior do que o inimigo declarado é o outrora aliado que ousa divergir do pensamento estabelecido, do conjunto de condutas e posições a serem tomadas por aqueles que se propõem a dizerem ser “de esquerda”.

Sérgio Pessanha

Graduando em economia pela Universidade do Sul de SC e empresário.