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A “invasão muçulmana” da Europa

por Raphael Tsavkko Garcia (21/12/2014)

A discussão hoje não deve ser mais (apenas) em torno do "multiculturalismo"

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Antes mesmo da ISIS os ânimos europeus contra muçulmanos estavam exaltados. A isto, junta-se a xenofobia, o ódio ou rechaço à imigrantes como um todo. Por quê?

A resposta é mais complexa do que querem direita e esquerda. Ou, na verdade, ambos os lados estão mais próximos da resposta do que pensam, porque é um misto das reclamações vindas dos dois lados do espectro.

A “invasão” muçulmana/estrangeira apregoada pela extrema-direita é real. Ao menos é real na percepção de muitos, de gente que inclusive sempre se identificou com a esquerda ou com movimentos de trabalhadores, mas votará (ou votou) na Frente Nacional na França. Há lugares na Europa onde se vê mais estrangeiros que nativos, cidades onde não se vê um nativo em certos postos de trabalho e, com a crise, a situação piorou, com imenso desemprego de nativos e, claro, de estrangeiros e naturalizados.

Não se pode desprezar o sentimento de imensa parte da população europeia apenas com bravatas e com pedidos de “inclusão”. Se é verdade que muitos países recebem mal estrangeiros, ou recebiam mal, por outro não faltam aqueles que se recusam a se adaptar e a respeitar as regras do país onde vivem.

Querendo ou não, a Europa tem origem ou ao menos desenvolvimento cristão, logo, é intolerável para muitos o uso de burkas ou mesmo, como acontece em Bruxelas, regiões da cidade serem controladas por grupos muçulmanos que impõem suas regras de conduta. Há alguns anos surgiu até mesmo um grupo militante buscando impor o islamismo na Bélgica!

Para o europeu médio (e na verdade para qualquer pessoa normal), um grupo islâmico pregar a imposição da sharia à população da Bélgica é simplesmente inaceitável. Essa semana um imigrante de Burundi invadiu uma delegacia e, aos gritos de “Allah é grande”, em árabe, atacou um policial com uma faca e foi morto a tiros. O irmão dele já tentou se juntar à ISIS. Angela Merkel chegou a dizer que o multiculturalismo estava morto, não tinha dado certo. E ela tem certa razão na afirmação, pese suas intenções na declaração não serem as melhores. De fato há locais em que o multiculturalismo falhou miseravelmente.

Temos um problema circular, onde guerras impulsionadas pela Europa e EUA no Oriente Médio, por exemplo, criam levas de refugiados que acabam na Europa. Por outro lado, refugiados que encontram sua salvação na Europa acabam por se fanatizar e engrossar fileiras de grupos que serão, então, combatidos pela Europa – ou mesmo grupos dentro de países europeus, o que causa maior animosidade, ódio e medo por parte da população autóctone.

Há uma negativa firme de muitos grupos se integrarem às sociedades hospedeiras, assim como há sem dúvida xenofobia arraigada. Nestes dois extremos, inexiste diálogo. Um lado acha que está tudo bem, que todos são bem vindos e que o medo que muitos sentem dos fanáticos islâmicos é irreal, do outro o grupo que se aproveita deste medo para pregar a xenofobia, para ampliar as guerras que pioram a situação e que, no fim, criam apenas mais medo.

Há um problema do excesso de imigrantes chegando na Europa, que está em crise e é incapaz de receber tamanha quantidade de pessoas. Mesmo na sempre aberta Escandinávia há problemas. Há cidades onde a população local periga tornar-se minoria, com hordas de imigrantes pedindo dinheiro nas ruas ou trabalhando como ambulantes, pois não há emprego para todos e nem Estado de bem estar que aguente. É incompreensível que um francês ou um sueco sinta-se mal por temer se tornar minoria em seus próprios países ou cidades? Somemos a isto também o medo do terrorismo islâmico, que já causou vítimas em atentados cinematográficos dentro da própria Europa.

À esquerda e à direita busca-se atirar mais álcool no fogo. Um lado pede total aceitação, nega problemas; o outro prega o ódio. O lado do ódio tem vencido, porque sabe aproveitar problemas reais e jogar; mas a esquerda perde espaço também por, no poder (fingindo que Socialistas europeus são esquerda), acabar repetindo a direita e não conseguir sustentar seu discurso.

Sou um estrangeiro no País Basco e na Espanha e tenho consciência de minha condição e de que sou eu quem deve realizar os principais (senão todos os) esforços para me integrar. Não sou eu quem deve impor minha visão de mundo, meus costumes ou minha forma de pensar/agir; tenho que me adaptar e, no processo, buscar também ser entendido e respeitado. Infelizmente, não é sempre assim que acontece. O Sharia4Belgium que o diga.

Há exageros, claro. O banimento de burkas na França ou o mais recente caso de prefeitos se recusarem a servir carne que não seja de porco a alunos muçulmanos (e judeus) são exercícios de laicismo que têm o objetivo de confrontar os muçulmanos e não de efetivamente defender valores laicos. Por outro lado, o uso da burka em um país laico de histórico cristão é uma ofensa ao modo de vida de quem acolheu esta população.

É lógico que não estamos aqui lidando com a dicotomia europeus bonzinhos versus terríveis imigrantes muçulmanos, mas é impossível lidar com a situação sem antes entender o que pensam e pelo que passam os cidadãos europeus, que não são todos – individual ou coletivamente – responsáveis pelas guerras patrocinadas por seus países. Há clara xenofobia quando o europeu vira a cara para um imigrante africano, seja qual for sua situação, mas é indiscutível que ter imigrantes pedindo dinheiro nas ruas incomoda e, pior, quando você olha em volta e vê mais imigrantes que nativos.

A resposta da direita é incentivar o ódio, a da esquerda light é a de discursar de uma forma, mas agir de outra – criando ódio também – e a da esquerda é a de dizer que está tudo bem, que devemos aceitar e entender sempre e que este entendimento não deve ter limites. Seria lindo se fosse fácil. O limite parece ter sido alcançado em muitos lugares. Agora, como lidar?

Tive experiências de andar por Bruxelas e só ouvir árabe por algum tempo, nas proximidades do Parlamento Europeu. Em Bilbao, há um bairro perto do meu (e olha que vivo em bairro cheio de imigrantes) dominado por africanos, lotado de prostituição, e muitos me dizem ser o único bairro onde é perigoso andar à noite. A história se repete pela Europa afora.

É óbvio que existe muito racismo envolvido (imigrantes brancos são mais bem recebidos que negros), assim como classismo (um imigrante qualificado é em geral bem recebido), mas é preciso ir além e buscar escutar as reclamações antes de simplesmente descartar como xenofobia ou ódio insensato ou “nazismo”, como chegaram a chamar uma manifestação imensa em Dresden contra a islamização da Alemanha. Certamente muitos ali eram neonazis ou fascistas, muitos eram abertamente xenófobos, mas outros tinham medo, tinham receio, não querem ver seu país se tornar islâmico e vêem que isto pode ocorrer:

Almost two-thirds of Germans, according to a poll for news magazine Spiegel by the TNS institute, believe that Angela Merkel’s government is not doing enough to address concerns about immigration and asylum seekers, and 34% think Germany is enduring a process of “Islamisation”.

Ao invés de diálogo, de entendimento, os críticos chamam a todos de “nazistas” e o problema permanece, com dois lados entrincheirados.

O crescimento do ódio é preocupante, mas nem tudo se resume a ódio. A discussão hoje não deve ser mais (apenas) em torno do “multiculturalismo”, mas sim sobre os limites da tolerância. É preciso buscar entender o que nos levou até esse momento de franco enfrentamento.

Qual o limite para a pregação do radicalismo, para o laicismo e para o não-laicismo? Qual o limite para a entrada de imigrantes em uma sociedade saturada? Qual o limite para as intervenções, guerras e desmandos europeus mundo afora que exacerbam ânimos e forçam imigração?

A esquerda não é capaz de debater os medos da população que, em boa parte, acredita estar sendo “islamizada” e invadida, um sentimento que não é totalmente deslocado. A esquerda também não foi capaz de demonstrar para esta população que em grande parte o crescimento do fundamentalismo e da imigração (i)legal vem das ações de seus próprios Estados contra a África e o Oriente Médio. Ora, recentemente o presidente de Burkina Fasso foi deposto pela população e, ao invés de ser preso e julgado, fugiu do país com ajuda da… França. Ou seja, o antigo colonizador continua a ajudar aqueles líderes que fazem seu trabalho sujo e mantém países em situação de miséria e controle ferrenho.

É impossível que a situação ou o sentimento de invasão na Europa mude enquanto a presença da Europa no mundo não mudar também. Mas descartar como simples preconceito ou “nazismo” o sentimento de amplas camadas populares em relação aos imigrantes é querer fechar os olhos para a realidade e acabar entregando de vez o jogo para a extrema-direita.

Raphael Tsavkko Garcia

Formado em Relações Internacionais (PUC-SP), mestre em Comunicação (Cásper Líbero) e doutorando em Direitos Humanos (Universidad de Deusto).