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Riso e melancolia: a sátira de Álvares de Azevedo

por Wagner Schadeck (22/01/2017)

Sem a junção de bondade, beleza e verdade, a sátira política aprisiona-se na própria gaiola ideológica da qual pretende nos libertar.

A sátira espelha os nossos ridículos mais íntimos. Na antiguidade, durante a celebração dos triunfos cesáreos, ela era canto paralelo para que o governante se lembrasse da humildade. Espantosamente atual, em A assembleia das mulheres, de 392 a.C., Aristófanes já satirizava a política igualitária e democrática como o despotismo da maioria. Envolvido pelos costumes, o satirista recorda-nos a ordem que transcende o eu, o desejo, a natureza, a burocracia…

Karl Kraus dizia que o satirista não ridiculariza, expõe o ridículo. Como anatomista da alma, é ele que examina os sintomas de nossas agonias, atentando aos comportamentos e costumes. Para isso, também está submetido aos universais. O Verdadeiro, o Belo e o Bom transcendem-no.

No meio do caminho de nossa tradição de crises, em O Ser e o Tempo da Poesia, Alfredo Bosi vê uma cisão na sátira. Como a cabeça de Jano, ela teria dois rostos: uma face voltada para o passado, a conservadora; e uma voltada para o futuro, a revolucionária.

A sátira supõe uma consciência alerta, ora saudosista, ora revolucionária, e que não se compadece com as mazelas do presente.

Porém, esses critérios dialéticos são confusos demais. Em sua classificação, Dante e William Blake seriam satíricos revolucionários, por reagirem ao presente fitando o futuro, a utopia. Mas quando pensamos que a sátira clássica está sustentada numa hierarquia de valores, ao passo que a sátira política, ou revolucionária, opera com o relativismo moral e com o ativismo político, seria improvável pensar nesses poetas como revolucionários. Além disso, tal cisão satírica deve-se tão somente à separação dos universais, com a arte pela arte e politização dos discursos, aspectos estéticos e políticos inerentes à modernidade.

Sem a junção de bondade, beleza e verdade, a sátira política aprisiona-se na própria gaiola ideológica da qual pretende nos libertar. Com isso, até o humor é relativo, podendo ser – aliás, querendo ser – politicamente correto. Oclusa a realidade, a referência de verdade torna-se o partido político, ou qualquer outra ideia que nos bata à porta.

Mas talvez Bosi esteja certo quanto à violência da sátira revolucionária. Embora se venda purgado de preconceitos, o humor politizado é restritivo e excludente. Furtado de sua identidade, o indivíduo é um bobo a serviço de coletivos e subserviente ao discurso partidário, por mais criminoso que seja. Quando Gramsci dizia que tudo é política, ele apenas queria saber quem são aliados, quem inimigos. Bosi estava certo também ao dizer que a sátira revolucionária ataca os discursos. Mas, investida do politicamente correto, ela só pode ser fiscal e censora de palavras inapropriadas… Nada mais ridículo do que se propor a redenção de preconceitos por meio do bálsamo da sátira.

Por outro lado, grandes poetas satíricos, como Gregório de Matos e Emílio de Meneses, sempre alcançaram a universalidade, por serem anatomistas da alma. Estavam preocupados com a verdade que se revela nos comportamentos.

Outro poeta que conseguiu produzir uma sátira sui generis foi Álvares de Azevedo. Ele conciliou tradições, misturando o lírico e o dramático, ampliando a poética.

No longo poema “Um cadáver de poeta”, o jovem Maneco reúne aspectos da dinâmica alegórica dos Triunfi petrarquianos, das moralidades – bastante caras para a formação dramática de Shakespeare[1] –, da lenda sertaneja da donzela guerreira – narrativa que também servirá de matéria para o Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa –, tendo ainda como referência o Oscar D’Alva, de Lord Byron.

No poema de Álvares de Azevedo, o trovador Tancredo é um defunto no meio da rua. Morto pela fome, esse cadáver é um empecilho, um incômodo para os tipos sociais. Por cima dele, passam a corte do Rei, o coche episcopal e dois noivos fidalgos.

Álvarez apresenta uma introdução bastante digressiva, ao gosto byroniano. Citando Tasso, Camões, entre outros, Maneco emula o famoso monólogo hamletiano, refletindo sobre a morte; mais especificamente, contudo, no valor da vida e na morte de um poeta.

“Um poeta é um poeta: apenas isso…”
[…]
“Deixem-se de visões, queimem-se os versos:
O mundo não avança por cantigas.”
[…]
“Um poeta no mundo tem apenas
O valor de um canário de gaiola…
É prazer de um momento, é mero luxo.”
[…]
“Meu Deus! e assim fizeste a criatura?
Amassaste no lodo o peito humano?”
[…]
“…porém Satã no peito vácuo
Uma corda prendeu-te — o egoísmo!”

Nesse monólogo aparece o conflito romântico entre o homem contemplativo e o homem prático, algo sintetizado nas figuras antagônicas de Werther e Alberto, que o jovem Goethe colheu de sua experiência de vida. Mas o homem contemplativo de Álvarez de Azevedo tem algo das personagens byronianas: são estrangeiros, peregrinos, de origem obscura, desajustados sociais, malditos… Tancredo é assim. De outro lado, eis que surge uma trupe de homens práticos, para os quais as atividades sociais são naturais. Esses grupos reforçam o caráter sublimado do poeta, ao mesmo tempo, como um ser divino e como um pária, um enjeitado social.

Maneco então dá voz aos homens práticos desvendando o abismo que há entre os discursos e as ações. O narrador descreve concisamente aspectos psicológicos das personagens. Como na tragédia grega, os caracteres são revelados pelos diálogos.

O primeiro grupo a passar pelo cadáver é a corte de El Rei.

Iam em grande gala. O Rei cismava
Na glória de espetar no pelourinho
A cabeça de um pobre degolado.
Era um Rei bon-vivant e Rei devoto;
E, como Luís XI, ao lado tinha
O bobo, o capelão… e seu carrasco.
O cavalo do Rei, sentindo o morto,
Tremente de terror parou nitrindo,
Deu d’esporas leviano o cavaleiro
E disse ao capelão: “E não enterram
Esse homem que apodrece, e no caminho
Assusta-me o corcel?” Depois voltou-se
E disse ao camarista de semana:
“Conheces o defunto? Era inda moço,
Daria certamente um bom soldado.
A figura é esbelta! Forte pena!
Podia bem servir para um lacaio.”

Descoberto, o faceiro fidalgote
Responde-lhe fazendo a cortesia:
“Pelas tripas do Papa! eu não me engano,
Leve-me Satanás se este defunto
Ontem não era o trovador Tancredo!”

“Tancredo!” murmurou erguendo os óculos
Um anfíbio, um barbaças truanesco,
Alma de Triboulet, que além de bobo
Era o vate da corte! bem nutrido,
Farto de sangue, mas de veia pobre,
Caídos beiços, volumoso abdômen,
Grisalha cabeleira esparramada,
Tremendo narigão, mas testa curta,
Em suma um glosador de sobremesas.

“Tancredo! — repetiu imaginando —
Um asno! só cantava para o povo!
Uma língua de fel, um insolente!
Orgulho desmedido… e quanto aos versos
Morava como um sapo n’água doce!
Não sabia fazer um trocadilho…”

Dentro do coche real vão três pessoas de mais destaque: o Rei, um carniceiro, “bon-vivant”, mas devoto; um fidalgo, provavelmente o cicisbeo real; e o poeta e bobo da corte.

Tão logo o cavalo estanca, comenta-se sobre a utilidade do morto em vida. Fosse “soldado” ou “lacaio”, Tancredo teria sido mais útil à sociedade. Mas quem mais revela ressentimento em relação ao trovador é o poeta do Rei. Satirizado como “farto de sangue”, mas “pobre de veia” poética, sendo um mero bufão, “glosador de sobremesas”, ele ataca o finado por… não saber fazer um trocadilho! Convém destacar a separação feita por Álvares de Azevedo: Tancredo é um trovador, um poeta porta-voz do povo, ao passo que o vate da corte não passava de um bobo, que divertia os nobres com trocadilhos.

O próximo coche a passar é o clerical:

Depois de bem jantar fazendo a sesta,
Roncava um nédio, um barrigudo frade…
Bochechas e nariz, em cima uns óculos
Vermelho solidéu…” […]
E acorda o fradalhão… “O que sucede?
— Pergunta bocejando, é algum bêbado?
Em que bicho pisaram?” “Senhor bispo,
— Triunfante responde o bom cocheiro
Ao vigário de Cristo, ao santo Apóstolo
Rebento da fidalga raça nova
Que não anda de pé como S. Pedro,
Nem estafa os corcéis de S. Francisco —
“Perdoe Vossa Excelência Eminentíssima,
É um pobre diabo de poeta…
Um homem sem miolo e sem barriga
Que lembrou-se de vir morrer na estrada!”

Abrenúncio! rouqueja o santo bispo,
Leve o Diabo essa tribo de boêmios!
Não há tanto lugar onde se morra?
Maldita gente! inda persegue os Santos
Depois que o Diabo a leva!…”

Além de revelar a sinecura clerical, a sátira azevediana desmascarada a vaidade das vaidades desse bispo que, em vez de abençoar, pragueja e amaldiçoa o trovador defunto, “um homem sem miolo e sem barriga”: o miolo pode representar concretamente o cérebro ou figurativamente o juízo, de modo análogo, a barriga representando a magreza do morto ou metonimicamente a miséria que o matara.

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O derradeiro encontro encerra uma surpresa. Ao voltar da festa de noivado, o casal é surpreendido pelo cadáver de Tancredo. Elfrida espanta-se. E o aristocrata Solfier, escondendo a covardia, inventa para a noiva uma desculpa supersticiosa: eles deveriam escolher um outro atalho para o castelo, porque não “É mau agouro / Por um morto passar em noites destas.”.

Elfrida não lhe dá ouvido e, ao aproximar-se, reconhece Tancredo. E ao lamentar-lhe a morte, é surpreendida pela voz de um desconhecido. Maneco emula esse suspense do poema Oscar D’Alva, de Byron.

Introduzindo a estrutura dramática, é um desconhecido que diz:

“…Eu vim, há pouco,
Ao saber que do povo no abandono
Jazia como um cão, eu vim… e eu mesmo
Cavei junto do lago a cova dele.”

Tancredo, abandonado pelo povo com um cão, jazia ao relento. Mas o desconhecido preparou uma cova para ele. O trecho seguinte é bastante longo, mas peço escusas e atenção ao leitor por se tratar do clímax e do desfecho do poema:

Elfrida
“Tendes um coração: tomai, mancebo,
Tomai essa pulseira… Em ouro e jóias
Tem bastante pra erguer-lhe um monumento
E para longas missas lhe dizerem
Pelo repouso d’alma…” O moço riu-se.

O Desconhecido
“Obrigado: guardai as vossas jóias.
Tancredo o trovador morreu de fome!
Passaram-lhe no corpo frio e morto,
Salpicaram de lodo a face dele,
Talvez cuspissem nesta fronte santa,
Cheia outrora de eternas fantasias,
De idéias a valer um mundo inteiro!…
Por que lançar esmolas ao cadáver?
Leva-as, fidalga, tuas jóias belas:
O orgulho do plebeu as vê sorrindo…
Missas?… bem sabe Deus se neste mundo
Gemeu alma tão pura como a dele!
Foi um anjo! e murchou-se como as flores
Morreu sorrindo, como as virgens morrem…
Alma doce que os homens enjeitaram,
Lírio, que a turba imunda profanou
Oh! não te mancharei, nem a lembrança
Com o óbolo dos ricos! Pobre corpo,
És o templo deserto, onde habitava
O Deus que em ti sofreu por um momento!
Dorme, pobre Tancredo! eu tenho braços:
Na cova negra dormirás tranqüilo…
Tu repousas ao menos!” …………
……………………………..
No entanto sofreando a custo a raiva,
Mordendo os lábios de soberba e fúria,
Solfier da bainha arranca a espada,
Avança ao moço e brada-lhe: “Insolente!,
Cala-te, doudo! Cala-te, mendigo!
Não vês quem te falou? Curva o joelho,
Tira o gorro, vilão…”

O Desconhecido
………………….. “Tu vês: não tremo!
Tu não vales o vento que salpica
Tua fronte de pó. Porque és fidalgo,
Não sabes que um punhal vale uma espada
Dentro do coração?”
………………….. Mas logo Elfrida:
“Acalma-te, Solfier! O triste moço
Desespera, blasfema e não me insulta.
Perdoa-me também, mancebo triste!
Não pensei ofender tamanho orgulho:
Tua mágoa respeito. Só te imploro
Que sobre a fronte ao trovador desfolhes
Essas flores, as flores do noivado
De uma triste mulher… E quanto às jóias,
Lança-as no lago… Mas quem és? teu nome?”

O Desconhecido
“Quem sou? um doudo, uma alma de insensato
Que Deus maldisse e que Satã devora!
Um corpo moribundo em que se nutre
Uma centelha de pungente fogo!
Um raio divinal que dói e mata,
Que doira as nuvens e amortalha a terra!…
Uma alma como o pó em que se pisa!
Um bastardo de Deus! um vagabundo
A que o gênio gravou na fronte — anátema!
Desses que a turba com o seu dedo aponta…
Mas não; não hei de sê-lo! eu juro n’alma,
Pela caveira, pelas negras cinzas
De minha mãe o juro!… Agora há pouco,
Junto de um morto reneguei do gênio,
Quebrei a lira à pedra de um sepulcro…
— Eu era um trovador, sou um mendigo…”

Ergueu do chão a dádiva d’Elfrida,
Roçou as flores aos trementes lábios,
Beijou-as. Sobre o peito de Tancredo
Pousou-as lentamente… “Em nome dele,
Agradeço estas flores do teu seio,
Anjo que sobre um túmulo desfolhas
Tuas últimas flores de donzela!”

Depois vibrou na lira estranhas mágoas,
Carpiu à longa noite escuras nênias,
Cantou: banhou de lágrimas o morto.
De repente parou: vibrou a lira
Co’as mãos iradas, trêmulas… e as cordas
Uma por uma rebentou cantando…
Tinha fogo no crânio, e sufocava:
Passou a fria mão nas fontes úmidas,
Abriu a medo os lábios convulsivos,
Sorriu de desespero; e sempre rindo
Quebrou as joias e as lançou no abismo…

VI
No outro dia na borda do caminho,
Deitado ao pé de um fosso aberto apenas,
Viu-se um mancebo loiro que morria…
Semblante feminil, e formas débeis,
Mas nos palores da espaçosa fronte
Uma sombria dor cavara sulcos.
Corria sobre os lábios alvacentos
Uma leve umidez, um ló d’escuma,
E seus dentes a raiva constringira…
Tinha os punhos cerrados… Sobre o peito
Acharam letras de uma língua estranha…
E um vidro sem licor — fora veneno!…

Ninguém o conheceu: mas conta o povo
Que, ao lançá-lo no túmulo, o coveiro
Quis roubar-lhe o gibão, despiu o moço…
E viu… talvez é falso… níveos seios…
Um corpo de mulher de formas puras…

VII
Na tumba dormem os mistérios d’ambos:
Da morte o negro véu não há erguê-lo!
Romance obscuro de paixões ignotas,
Poema d’esperança e desventura,
Quando a aurora mais bela os encantava,
Talvez rompeu-se no sepulcro deles!
Não pode o bardo revelar segredos
Que levaram ao céu as ternas sombras:
— Desfolha apenas nessas frontes puras
Da extrema inspiração as flores murchas…”

É um momento de transbordamento, por vezes de excessos. Mas o jovem poeta consegue manter a suspense entre a identidade do desconhecido e o amor secreto. Certa obscuridade dessa história é propriamente romântica. Entretanto, como na lenda sertaneja da donzela guerreira que alimentou o épico metafísico de Guimarães Rosa, é essa nulidade que revela as virtudes do casal. Assim como o defunto (na ironia etimológica de que se servira o poeta: aquele que está fora de função, ou não tem função), ela não tem máscara – é toda coração.

E é na sacralidade mórbida da cova que Tancredo e a moça celebrarão seu casamento. É a invasão do mundano no sagrado, é a profanação do amor que revela o sexo. Como em Tristão e Isolda e Romeu e Julieta, o casal defunto também busca se anular, fazendo do amor um sacrifício.

Este é um dos raros momentos de nossa poesia em que o humor satírico torna-se melancólico, algo importante para os mestres Machado de Assis e Manuel Bandeira. Nesse poema, Álvares de Azevedo vai do riso à melancolia, algo jamais alcançado por nossos maiores satiristas – Gregório de Matos e Emílio de Meneses, tampouco por estes satiristas políticos, preocupados com militância e ocupações, imbuídos em eliminar preconceitos, purificando o coração das palavras, meros “glosadores de sobremesas”.

______
NOTA

[1] “Um último progresso se realizou, no século XV, dentro do teatro religioso: a libertação completa do texto sacro, conservando-se embora as doutrinas cristãs, nas chamadas Moralidades, que também não são, aliás, exclusivas da Inglaterra e mesmo na nossa literatura estão representadas por alguns dos autos de Gil Vicente. As Moral plays integram-se na grande corrente medieval da alegoria e as personagens, lutando em volta da Alma Humana como protagonista, são as diferentes Virtudes e Pecados, o Demónio, o “Vício”, etc. Estes dois, e especialmente o último, têm a seu cargo o elemento cómico e o Vício, de origem obscura, é o precursor nacional do “Fool” ou truão do teatro isabelino.
Como não estavam sujeitas ao enredo fixo da narrativa bíblica, a invenção dos autores tinha nelas já o seu papel e por outro lado esta mesma circunstância permitia reduzi-las a poucos ou mesmo a um único quadro cénico, o que facilitava a sua representação.
As Moralidades punham-se em cena em qualquer época do ano e formam a transição para o teatro profissional e permanente…” (Luís Cardim. Shakespeare e o Drama Inglês. Porto: Faculdade de Letras, 1931, pp. 24, 25.)

Wagner Schadeck

Nasceu em Curitiba, onde vive. É tradutor, ensaísta, editor e poeta. Colabora com a Revista Brasileira (ABL), com a Revista Poesia Sempre (BN) e com os periódicos Cândido e Rascunho. Em 2015, organizou a reedição de A peregrinação de Childe Harold, de Lord Byron, pela Editora Anticítera.