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A História sob o olhar anônimo

por Guilherme Stumpf (05/01/2021)

O traço biográfico que une a autora e sua personagem é a proximidade com a figura avoenga.

“Um dia chegarei a Sagres”, de Nélida Piñon (Record, 2020, 512 páginas)

São raros os escritores que conseguem produzir romances de fôlego após atingirem uma idade avançada — falta a energia que dispunham na juventude e o corpo já não possui o vigor de outrora. Isso, claro, para os escritores que conseguiram chegar àquilo que hoje chamamos de terceira idade – Emily Brontë, por exemplo, faleceu aos 30 anos. Tolstói chegou aos 82 ainda compondo obras incríveis, é verdade, mas em textos bem mais curtos do que produzira até então. Conforme se aproximava da morte, passou a escrever cada vez mais contos e novelas, à exceção do romance Ressurreição, cujo tamanho é bastante menor do que Ana Karienina e Guerra e Paz.

Mesmo com o peso da idade, alguns escritores conseguiram produzir narrativas mais longas. É o caso de Thomas Mann, vencedor do Nobel de Literatura de 1929, e que publicou o romance Doutor Fausto, uma obra-prima da literatura alemã, aos 72 anos de idade. O peruano Mario Vargas Llosa, outro escritor laureado para Academia Sueca, lançou, quatro livros no gênero ensaístico e quatro romances:  O Heroi Discreto, Llosa rememora alguns de seus personagens marcantes presentes em O Elogio da Madrasta e Os Cadernos de Dom Rigoberto. Já em O Sonho do Celta, apresenta-nos uma biografia romanceada do cônsul Roger Casement, importante e controvertida figura do século XX, na tradição dos romances históricos (A Festa do Bode, A Guerra do Fim do Mundo, Conversa na Catedral). E é neste gênero também que se passa o seu último romance,  Tempos Ásperos, que tem como pano de fundo o golpe militar ocorrido na Guatemala nos anos 1950.

Nélida Piñon se insere nesta segunda categoria de escritores: em seu romance recentemente publicado, Um Dia Chegarei a Sagres, o personagem Mateus conta, ao longo das mais de 500 páginas do romance, toda sua trajetória: do seu nascimento até a velhice. Tendo como cenário a Portugal do século XIX, a vencedora do Prêmio Príncipe de Astúrias narra nesse romance a sua relação com Portugal e a história dos homens portugueses, que, animados pelo espírito desbravador, se lançam às conquistas.

O traço biográfico que une a autora e sua personagem é a proximidade com a figura avoenga. Mateus, filho de uma prostituta, foi criado por Vicente, seu avô, que lhe ensinara noções de humanidade e de respeito, engendrando-lhe os valores que o jovem carregará consigo durante sua jornada. Nélida não foi criada pelo avô, no entanto a figura do velho Daniel a seguirá até sua morte, não apenas pelos laços afetivos e consanguíneos que são reforçados através das memórias que temos daqueles que já se foram, mas também pelo próprio nome, algo que o Daniel jamais saberia, mas que marcaria a vida da neta. Tal fato nos é contado pela própria Nélida em seu livro de memórias, Coração Andarilho:

Morreu, no entanto, sem saber que o nome Nélida forma, junto com o seu, Daniel, perfeito anagrama. Um fato que também eu desconhecia, só vindo a decifrá-lo graças a Tarlei, jovem bancário mineiro que, ao entrevistar-me, expressou sua emoção pela tia que teve a feliz ideia de prestar tal homenagem ao avô. A revelação perturbou-me. Até aquele momento não me dera conta do fato. Da misteriosa simetria que rege certos desígnios familiares.

Não é a primeira vez que a ancestralidade surge de forma tão impactante num romance de Nélida. Em A República dos Sonhos, o personagem Madruga é fortemente ligado ao avô, o velho Xan, figura que guarda em si a mitologia e o imaginário galego. É verdade que não se deve interpretar uma obra de arte apenas tendo em vista traços biográficos de seu autor, mas também é verdade que sabê-los enriquece a interpretação, como no presente caso.

Vicente é o responsável pela criação de Mateus, que não herda o sobrenome da mãe devido a sua profissão. É pelas influências do avô – que lhe ensina sobre a vida – e de um professor de escola chamado Vasco – que lhe ensina sobre a História – que Mateus resolve abandonar o local em que nasceu e partir em busca de algo grandioso, que dê sentido à sua existência.

Mateus nasceu na região do Minho, no norte de Portugal. A região, obviamente, não foi escolhida simplesmente por terem saído de lá a maior parte dos portugueses que vieram fazer o Brasil, mas também por fazer fronteira com a Galícia, terra dos avós da escritora. É lá, numa pequena aldeia que jamais será nominada (recurso provavelmente retirado do famoso início de Cervantes: en un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme) que Mateus ouvirá, pela primeira vez, sobre a grandeza de sua nação e do responsável por ter “o globo do mundo em sua mão”: o Infante d. Henrique.

A narrativa abrange boa parte  do século XIX, período da decadência portuguesa. Nesse espaço de tempo  Portugal viu sua aristocracia atravessar o Atlântico para um país distante fugindo das tropas napoleônicas, enfrentou uma guerra civil e graves problemas econômicos e,  por fim, presenciou o início do processo de independência de suas colônias. O jovem Mateus, no entanto, ouvira falar de um Infante que sumira em meio a uma batalha, e que fora o responsável pela grandeza dessa nação.

Mais do que uma esperança sebastianista a qual se agarrar, o Infante Dom Henrique, a cabeça do grifo para Fernando Pessoa, é para Mateus um mediador do seu desejo. Assim como Amadis forjou a imaginação do Quixote para que este peregrinasse por La Mancha em busca de aventuras, o Infante povoou a imaginação do jovem Mateus, que resolveu sair daquela aldeia e ir até Sagres, a grande escola fundada pelo Dom Henrique, responsável por lançar Portugal aos mares. Mais adiante, quando descobre que o Infante teria arrematado para si o primeiro lote de escravos levados da África a Portugal, Mateus se questiona: o que faremos sem nossos mitos?

Pode-se interpretar a trajetória de Mateus como uma releitura da Odisseia: Mateus quer retornar às origens portuguesas, assim como Ulisses deseja retornar à Ítaca. Podemos responder, assim,  ao questionamento de Mateus sobre os mitos com o primeiro verso do poema Ulysses, de Fernando Pessoa, em que o poeta modernista afirma categoricamente: o mito é o nada que é tudo. Não podemos prescindir do mito. Podemos adaptá-lo, torná-lo contemporâneo, mas abandoná-lo, jamais.

No percurso da trajetória pelo seu país, carregando consigo a memória do avô e a esperança de um dia chegar não só a Sagres, mas de alcançar a glória do Infante, Mateus amadurece. Em cada passo desse camponês por sua terra, Nélida faz ecoar toda tradição da literatura portuguesa: a grandeza de Portugal cantada por Camões em Os Lusíadas; a convocação de Fernando Pessoa em Mensagem para que o país readquira tal grandeza; a história dos anônimos, frequentemente esquecido pelos livros de história, mas que são responsáveis pela manutenção de uma pátria, na esteira de José Saramago, em Memorial do Convento.

O romance possui alternâncias temporais: Mateus narra da velhice, mas sem ordem cronológica ao contar sua história. Trafega entre a infância, a mocidade e a vida adulta, sem uma ordem aparente. Mas já de início sabemos que o personagem carrega, ainda na velhice, o sentimento de frustração. Não sabemos o que ele encontrou em Sagres, mas percebemos que sua ânsia de grandeza não foi atingida:

A vida de fato nunca me pertenceu. Não fiz jus a ela. Esta certeza talvez sinalizando ser este o momento de rever porções da minha história. Não posso nem sei o que ocorre hoje, nas horas tardias, antecipa meu fim. E falta-me, nesta velhice que nunca pensei viver, o consolo de não ter sentado à mesa dos poderosos, e provado de suas iguarias.

O sexo é uma constante no livro. A erotização do personagem é representada como uma força propulsora e quase irrefreável. Mateus conhece o sexo por meio de uma prostituta, levado ao prostíbulo por seu avô. A sensação lhe é prazerosa, certamente, mas faltava-lhe amor. O jovem nunca havia sido amado por ninguém. A mãe o abandonara, o avô zelava por ele, percebendo uma fragilidade exacerbada, sem expressar, contudo, palavras de afetuosidade. A primeira paixão de Mateus se dá, então, por Leocádia, que não correspondia ao seu sentimento, e pela qual o jovem se humilha, contentando-se com apenas vê-la.

O sentimento mais profundo do amor surge em sua vida pelo encantamento que lhe é despertado por outra personagem: o Africano. É por este ébano sedutor, exímio contador de história, que Mateus irá se encantar. A questão carnal acaba se tornando afetiva, e o jovem protagonista ao perceber os sentimentos que sentia pelo Africano e ao se questionar sobre a correição ou não de sua atitude, acaba por rejeitá-lo. O amante desesperado, diante da rejeição, atira-se de um desfiladeiro, caindo no mar.

Através das águas, Mateus perderá o Africano. As mesmas águas que garantiram a grandeza de Portugal são as que destruíram o homem que o protagonista amara. Aqui caberia o questionamento de Fernando Pessoa: ó mar, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal? O protagonista aprende com essa relação trágica e pode desfrutar, posteriormente, de uma relação mais madura, com Amélia, mulher sofrida, mas que ganhou a admiração e a compaixão de Mateus. Amélia surge ao final do romance, sendo responsável por uma redenção do protagonista, que perseguiu uma ilusão durante toda a vida, mas que se perdeu para se encontrar, para usar a expressão de Camus em O Mito de Sísifo. No último capítulo, em que Mateus faz uma ode à figura de Amélia, encontramos reflexões em um português vernacular.

No entanto,  é justamente nesse ponto que reside a fragilidade do livro: a linguagem. É o único livro ficcional de Nélida Piñon narrado em primeira pessoa, o que acaba por revelar problemas de técnica. É difícil crer que um narrador camponês, sem estudos mais avançados, fosse conseguir contar tal história, não apenas com a riqueza de recursos estilísticos, mas, sobretudo, com um vocabulário tão preciso. O próprio narrador confessa que é um sujeito iletrado:

Em dia recente indaguei, curioso, se caso tivesse estudado, e não fora um camponês do norte, teria sido um artista ou um escritor?

O contraste entre a linguagem da personagem e sua vida, sua história e sua origem é evidente. É pouco provável que uma pessoa prosaica pudesse perder-se em abstrações e reflexões sobre o ato sexual, como faz Mateus após perder sua virgindade. Tampouco seria capaz de escrever, para depositar no túmulo do avô, um bilhete nos seguintes termos:

Tenho pressa de sair de perto do forno onde cozíamos o pão do nosso cotidiano, o único que tínhamos. Após tua morte, avô, abandono o presépio que montaste em certa noite de dezembro, instado pela cura da paróquia que chegara de Tui com ideias inovadoras, para darmos prova da fé que tínhamos no menino Jesus. E ainda a confiança que depositávamos nos artesãos do Minho. Verdadeiros fabricantes de arte que nos fizeram chorar e rezar sobre o berço do filho de Maria. Uma cena que agora é memória. Adeus, avô, já não lhe posso mais fazer companhia. Vou atravessar Portugal a nado e a pé. Espero alcançar a outra margem de qualquer dos nossos rios. O senhor foi e sempre será minha família.

Percebe-se que a voz narradora não é a de Mateus, mas sim a de Nélida. A linguagem é a mesma que encontramos em seus livros mais confessionais (Livro das Horas, O Pão de Cada Dia) ou em seu livro de memórias (Coração Andarilho). Graciliano Ramos não conseguiu criar uma linguagem que fosse condizente com a personagem Paulo Honório, mas São Bernardo é um excepcional romance, apesar disso. Nélida Piñon não conseguiu criar uma linguagem que se encaixasse com Mateus, mas construiu um dos mais impactantes romances da literatura brasileira do século XXI.

Retorno, por fim, à Ítaca. Não a de Homero, mas a de Kaváfis, que nos ensinou que a cidade de Ulisses não ilude a ninguém; os homens é que trazem consigo, na imaginação, uma Ítaca inexistente, e, na procura da verdadeira cidade, compreendem o significado que ela possui. Mateus foi em busca de Sagres e, quando lá chegou, descobriu que o caminho se faz ao caminhar.

Guilherme Stumpf

Bacharel em Direito pela UFRGS. Colaborador do site PersonaCinema.