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A esquerda latino-americana e a reconstrução do discurso de oposição

por Éder Souza (14/02/2013)

No momento, a direita latino-americana tem uma chance de se reposicionar na luta política

ChávezNo início da década passada, os partidos de esquerda tiveram uma ascensão forte em vários países da América Latina. A subida ao poder de Hugo Chávez na Venezuela, a eleição de Nestor Kirchner na Argentina, de Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador e Lula no Brasil garantiram a predominância dos setores da esquerda latino-americana no cenário político continental e um recuo enorme da direita. Agora, a provável morte do presidente venezuelano, a crise econômica argentina e, no Brasil, a repercussão dos casos de corrupção do PT e o progressivo e contínuo aumento da inflação, podem vir a ameaçar essa hegemonia — apesar de, não obstante o momento ideal,  a ameaça por parte da direita a esse projeto de poder, que pode ser considerado transnacional, não ser tão forte.

A realidade é que a oposição nesses países foi gradualmente sendo reduzida e marginalizada, quando não virtualmente exterminada, sendo que hoje não representa um papel de grande poder no cenário político interno, estando suas forças em grande parte domesticadas pelos atuais ocupantes do poder. Vários fatores contribuíram para esse cenário se tornar realidade, sendo que o principal deles foi o processo de reescrita da história promovida por esses regimes, que, para se legitimar e se perpetuar no poder, precisavam construir um discurso em que a única alternativa possível para o desenvolvimento nacional, a eliminação da pobreza, realização da justiça social e fim da ingerência estrangeira (sempre a principal responsável pelas mazelas latino-americanas, de acordo com o discurso “de la sinistra”) era a subida e manutenção do poder da esquerda. Quem ousa questionar ou discordar do primado do poder dos bolivarianos (uma mistura improvável dos ideais de Simón Bolivar com marxismo vulgar) Chávez, Correa, Morales, da peronista Cristina Kirchner e do PT é tido como “reacionário”, “contra o povo pobre e o proletariado” e “imperialista”, sendo, desta forma, abortada qualquer discussão de projetos políticos nacionais alternativos e contrários aos que possuem os portadores do poder.

A oposição tem que se contentar com um discurso que, no máximo, critica a figura detentora do cargo de presidente, do seu partido e correligionários, atacando questões pontuais como a corrupção, o mal uso do cargo, personalismo e histrionia, mas não questionar o projeto político que está por trás de tudo isso e que em última análise lhes dá sustentação e amparo retórico e ideológico. A causa do sucesso da esquerda e do fracasso da oposição está na construção de um projeto político razoavelmente consistente por parte daquela, que foi constantemente refinado e atualizado diante das circunstâncias sem perder suas premissas básicas, e isso lhes permitiu criar uma identidade mais ou menos sólida. Assim, foi possível ter inserção em diferentes camadas sociais, desde os pobres, agraciados com bolsas e programas afirmativos de todo gênero, aos ricos, contemplados com cargos de alto gabarito na administração governamental, o que lhes permitia preservar poder político e também ampliar seu poder financeiro, graças ao livre acesso ao maná dos cofres públicos — desde que, claro, se aliassem aos novos chefes do poder, possibilitando a compra do apoio de vastas parcelas da sociedade, que é em boa parte leniente e condescendente com os abusos de poder e corrupção constantes da esquerda, abusos e corrupção que são justamente as condições essenciais para que se mantenham firmes aonde estão ou galguem maiores ambições.

Na história reescrita que fundamenta o discurso dos grupos do poder, o continuum histórico agora possui um “antes” e “depois”, sendo que antes havia desordem, caos, corrupção, pobreza e uma elite mesquinha no poder, até que, depois, o grupo que pensa no povo pobre toma o poder e coloca as elites ligadas aos interesses estrangeiros no ocaso final, e a única garantia que se tem de não se voltar mais ao passado de dominação, que passa por diversas fases — o colonialismo, o caudilhismo e coronelismo, as ditaduras militares que infestaram a América Latina e o “neoliberalismo” dos anos 90 (por mais que esses críticos mal saibam o que signifique “neoliberalismo”) — é a perpetuação no poder da esquerda, pois ela foi responsável pelo tempo inédito e revolucionário, o “nunca antes na história deste país”, contra a história cíclica da América Latina, que sempre esteve dominada e subjugada a interesses estrangeiros, principais responsáveis pela marginalização do continente.

No passado, figuras como Simón Bolivar, Perón, Getúlio Vargas e Martí buscaram quebrar essa história cíclica, e por isso são os precursores deste tempo inédito, mas seus projetos foram derrotados pelas “forças e os interesses contra o povo que se coordenaram novamente”. Por isso mesmo, a figura de Fidel Castro é essencial para a esquerda da América Latina, pois sua imagem, romantizada pela propaganda oficial, é vital para demonstrar uma suposta unidade latino-americana contra a “opressão” e “imperialismo” da burguesia e dos países que historicamente dominaram a América Latina (leia-se EUA). A idealização de Cuba como um lugar paradisíaco é fundamental, isso explicando em grande parte o financiamento do regime sanguinário dos irmãos Castro por parte do governo de Chávez, Cristina e do PT.

Dentro desta lógica de reescrita do tempo histórico, a oposição e qualquer questionamento ao poder da esquerda é automaticamente ligado a uma volta à história cíclica que afetou a América Latina durante séculos. A reescrita foi especialmente bem sucedida em efetivar essa ligação como algo factual, o que diminui em muito a margem de manobra oposicionista e dá aos governos maior força para impor sanções cada vez maiores a vozes destoantes. A imprensa é sempre o principal alvo destes governos, pois, para a consolidação de sua visão histórica, é essencial que os canários que cantam músicas que não condizem com ela cantem mais baixo ou mesmo sejam calados. Isso explica a virulência da perseguição a jornais e canais de TV oposicionistas na Venezuela, a truculenta investida de Cristina Kirchner contra o Clarín, jornal que não escondia sua antipatia pelo governo da peronista, e, no Brasil a tentativa constante do PT de regular a mídia, sempre acusada de ser golpista pelo simples fato de fazer críticas pontuais ao governo. O controle dos meios de comunicação é essencial para prevenir o aparecimento de projetos políticos, sociais e econômicos diferenciados, que poderiam pôr em risco o poder dos grupos que aparelham o Estado.

Dada essa situação de domínio que já dura algum tempo, a questão que se coloca, para a própria sobrevivência da democracia na região, é como conseguir quebrar a hegemonia e aproveitar o atual momento de fragilidade para construir uma oposição de fato.

Se faz urgente construir um discurso alternativo, que combata a reescrita da história feita pela esquerda. Muito importante, para a elaboração de um discurso diferente do dominante e a reconstrução da direita política a longo prazo, é a leitura de autores como Mises, Hayek, Friedman, Burke, Aron, entre outros. Mas não só para pessoas que já tenham inclinação política para a direita e liberais, pois isso é apenas pregar para convertidos. É essencial criar nas universidades grupos que estudem esses autores e que possam, de uma forma ou de outra, serem inseridos nos debates políticos, econômicos e sociais dentro da própria universidade, assim como foi feito com autores de esquerda nos anos 70, para ser criada uma intelectualidade direitista — que, desde a morte de José Guilherme Merquior, não possui um grande expoente nacional. Esse passo é decisivo para a construção de um novo paradigma de pensamento.

Divulgar ideias nas mídias sociais, formar grupos em diversos polos e organizar encontros virtuais e presenciais também é fundamental para que as ideias circulem, ciando-se grupos diversos, com posicionamentos divergentes, o que permite o enriquecimento e refinamento das ideias discutidas e a instrumentalização delas para a ação política, colocando assim em prática na realidade a diretriz intelectual adquirida no estudo dos autores. Fazer as ideias acessíveis à população é bastante importante, para que elas sejam identificadas e assimiladas, garantindo assim a possibilidade de ascensão eleitoral. O campo político para isso, ao menos no Brasil, é bastante propício no momento. Com o desgaste diante do público tanto do PSDB e do PT, e, em última análise, de toda a classe política em geral, é a primeira vez que a maior parte da população se torna apartidária, de acordo com recentes pesquisas. Além disso, a população brasileira tem fortes tendências de identificação com o livre mercado e a liberdade individual, e há um vácuo político grave, pois não há partidos que ofereçam programas consistentes voltados para essa questões. O PSDB, como disse recentemente Fernando Henrique Cardoso, busca recuperar as bandeiras da defesa de ações afirmativas (tais como as cotas raciais) e de uma política econômica mais direcionada pelo governo, mas tais bandeiras já foram apropriadas pelo PT. O que vemos é que não há divergência de ideias considerável entre os dois partidos, apenas uma luta de aparentados ideologicamente pelo poder.

A formação de uma real oposição na América Latina não é algo que seja necessário apenas pela questão da disponibilidade de ideias alternativas, mas fundamental para a própria continuação, consolidação e fortalecimento das jovens democracias do continente, pois o regime democrático se faz com a possibilidade de setores diversos poderem participar e atuar na política, com projetos antagônicos em diversos graus, não com uma falsa unanimidade e um discurso dicotômico de que “ou está conosco (o bem) ou contra nós (o mal)”. A consolidação democrática exige a pluralidade dos discursos e o respeito aos opostos, pois não é somente o ato de votar que garante a liberdade política: a possibilidade de escolher entre programas diferenciados é parte essencial do processo. Se continuarmos a tomar um caminho diverso desse, estará esse continente ainda mais tempo preso a discursos caudilhistas, dos salvadores da pátria, dos reconstrutores ideológicos da história como “nunca antes na história deste país”.

Éder Souza

Formado em História pela Universidade de São Paulo.

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