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“Brasília é minha obsessão poética” – entrevista com Nicolas Behr

por Viviane C. Moreira (07/02/2014)

"O humor é o lubrificante da vida e da poesia. Quando o poema pesa ele afunda."

O que pode o poeta? O que pode vir a ser uma cidade para o poeta? Escrever poemas de amor é um desafio? A poesia chama o poeta?

Nicolas Behr, poeta da geração mimeógrafo, fala sobre estes e outros temas e da aproximação entre autor e leitor. Nicolas estreou com o livro mimeografado Iogurte com farinha nos anos 1970. É autor, entre outros, de Laranja seleta (2007), Brasiliada (2010) e Meio seio (2012), todos pela editora Língua Geral. É casado com Alcina Ramalho e pai de Erik, Klaus e Max.

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Amálgama: Como você descobriu a linguagem poética?
Nicolas Behr: Descobri no ginásio, quando eu notava um texto diferente, e a professora dizia: “ah, isso pode, é licença poética”. Pensei: ah, então isso pode, poesia pode tudo. E pode mesmo. O poeta é um trabalhador braçal da linguagem, que ao inventar o poema reinventa o mundo.

Algum autor ou alguma obra o inspirou a se tornar poeta? Por que você se tornou poeta?
Muitos me inspiraram. Olha a lista: Oswald de Andrade, Fernando Pessoa, Carlos Drummond, João Cabral, Paulo Leminski, Francisco Alvim, Chacal… e mais uns 238 poetas. Me tornei poeta porque Brasília aconteceu na minha vida. O impacto desta cidade – aos 14 anos – marcou para sempre minha vida e minha poesia, que são a mesma coisa. O impacto dessa cidade árida, artificial, agreste, sem vegetação foi fundamental para que eu começasse a escrever poesia, numa tentativa de sobreviver à Brasília e dialogar com ela. Sobrevivi.

O Nikolaus von Behr, que passou a infância no interior de Mato Grosso, está presente na sua poesia? De que modo?
Muito presente. Esse meu passado rural está em dois livros – Menino Diamantino e A lenda do menino lambari. O poeta alemão Rilke dizia que a infância é a única pátria do poeta, sendo que por isso o poeta é um eterno exilado. A infância é mesmo o grande sítio arqueológico do poeta, onde ele está sempre escavando, escavando, escrevendo, escrevendo.

Você é um dos poetas da geração mimeógrafo, da poesia marginal. Vocês criavam, editavam, produziam, distribuíam e vendiam os próprios livros, sem intermediários. De certa forma, isso aproximava o poeta do leitor e favorecia o contato do leitor com a fala e com o corpo do poeta. O que essa aproximação poeta-leitor trouxe para a sua poesia?
Ah, essa aproximação poeta-leitor foi e continua sendo ótima. Onde eu vou levo meus livros. A escrita de poesia é uma atitude muito solitária e o poeta quer o feedback, o retorno. Esse contato com o público enriquece o poeta, amplia seus horizontes, o que é fundamental para a criação literária.

Na sua obra, há poemas em que você critica governantes e governados sem deixar de lado o humor. A crítica é temperada com humor. Quando um poema pesa e não acontece?
O humor é o lubrificante da vida e da poesia. Quando o poema pesa ele afunda. O humor é importantíssimo, mas não pode abusar, senão o poema-piada acaba caindo no vazio. Sem humor a vida não tem graça.

A cidade de Brasília está bem presente na sua poesia. Ela ainda lhe “deve um poema”, como você diz em “Brasília Enigmática“? E o poeta ainda deve a ela “um olhar terno”?
Brasília é minha obsessão poética. A cidade é uma folha em branco, pois se escreveu pouco sobre essas superquadras e blocos. Acho fácil escrever sobre a cidade, pois ela gera no poeta uma série de conflitos, que resultam em poemas.
Esse totalitarismo da racionalidade que é Brasília leva ao irracionalismo, que se reflete no poema.

No seu livro novo, Meio seio, os poemas falam de amor e erotismo. Há uma conversa interessante entre os desenhos de Evandro Salles e seus poemas. Os corpos desenhados com um leve traço fino – uma linha que demarca no espaço seus contornos – sugerem que o corpo erótico é um outro corpo, para além da forma. O que o levou a escrever poemas que falam do amor que passa pelo corpo erótico?
Escrever poemas de amor é a missão mais difícil para o poeta. Resolvi encarar o desafio e produzir um livro de poemas eróticos, mas sem romantismo, sem idílios, sem clichês e buscando sempre uma visão bem pessoal do erotismo, tão presente no nosso dia a dia. Vivemos todos numa enorme bolha erótica, acredito. “Todo prazer provem do corpo”, diz o poema.

Nos poemas de Meio seio, o amor frustra. É impuro. Imperfeito. Amor que se faz e se refaz em partes do corpo feminino. O amor que reafirma a incompletude é mais gostoso?
A incompletude é completada pela fantasia, pela imaginação. Sem isso certamente enlouqueceríamos. Quis fazer com o Meio seio um livro diferente, falando de desamor, desencontros, de anseios não completados. Um livro pela metade, pelo meio, que o leitor completa na hora da leitura, que o leitor reescreve.

O órgão feminino é poeticamente retratado com delicadeza e beleza. Pode-se dizer que Meio seio é uma declaração de amor ao corpo feminino?
Com certeza. O livro é dedicado a minha companheira Alcina, com a qual vivo já há 28 anos.

Por que você escolheu o título “Meio seio”?
Inicialmente o título do livro era “A miséria do amor”, mas eu não podia dedicar um livro com esse título para Alcina. Mas aí fiz um poema: “levo partes tuas/ os braços / o tronco / meio seio”. E aí, dentro da perspectiva de que poesia é som e sentido, deixei esse último verso como título do livro.

Você anda com poemas no bolso?
No bolso e na cabeça. Os poemas ficam te provocando, ficam se insinuando, te puxando pela camisa. Tenho sempre papel e caneta por perto, pois nunca sabemos quando a poesia vai aparecer. Às vezes você a chama e ela não vem e noutras vezes ela aparece quando você menos espera. Portanto, precisamos estar preparados.

O que tem lido e relido?
Sou um leitor errático. Leio o que me cai na mão. Livros de história, biografias, psicologia… Acabo de reler o belíssimo Cem anos de solidão, do Garcia Márquez. Pura prosa poética. Reli Grande Sertão: Veredas. Os clássicos não cansam.

O poeta que se estranha com a constância da frieza dos blocos e superquadras de Brasília encontrou seu “viveiro”?
Meu viveiro de plantas é o meu fio-terra. O poeta precisa de um contato com a realidade, senão ele pira, ele se mata. Pois a poesia pode salvar e pode matar, empurrar pro buraco. E o melhor de tudo é que não vivo no meio acadêmico, no meio literário, vivo num mundo muito real, que compra, vende, cobra, recebe.
E isso me faz muito bem.

E sua poesia? Em que “viveiro” se refaz?
Minha poesia se refaz no viveiro da vida. Onde plantamos sentimentos e colhemos emoções. Onde se refaz o mistério de estar vivo, e poder falar, tocar, amar, sofrer. E se conformar com a deliciosa e terrível frase do Kafka: “o sentido da vida é que ela acaba”.

Viviane C. Moreira

Advogada, mora em Belo Horizonte.