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Livros de autor clássico da FC têm novas edições no Brasil

"A Cidade Inteira Dorme e outros contos", de Ray Bradbury. (Biblioteca Azul, 2013, 192 páginas)

“A Cidade Inteira Dorme e outros contos”, de Ray Bradbury. (Biblioteca Azul, 2013, 192 páginas)

“As crônicas marcianas”, de Ray Bradbury. (Biblioteca Azul, 2013, 296 páginas)

 
 
Criada no século XIX por escritores pioneiros como Mary Shelley, Jules Verne e H. G. Wells, a ficção científica teve seu auge cem anos depois. E na chamada Era de Ouro da primeira metade do século XX, uma trinca de autores forma o chamado ABC do gênero: o russo radicado nos EUA Isaac Asimov, o americano interiorano Ray Bradbury e o britânico Arthur Clarke. Dos três, Bradbury (1920 -2012) era o único que não ostentava uma formação científica universitária (Asimov era bioquímico e Clarke foi presidente da Sociedade Interplanetária Britânica). Muito ao contrário: filho de um instalador de linhas telefônicas, estudou apenas até os 18 anos e dali em frente se tornou um autodidata. Sendo assim, ele compensou a ausência de conhecimentos técnicos encontrados nas obras de seus colegas por uma prosa de acabamento mais literário, alcançando em seus livros um lirismo poucas vezes igualado dentro do gênero em que se consagrou.

Os brasileiros vão ter uma nova chance de conferir a FC incomum de Ray Bradbury em uma coleção de livros que o selo Biblioteca Azul, da Editora Globo, está reeditando em nosso mercado. Além do romance mais conhecido do autor americano, Fahrenheit 451 – uma distopia escrita em 1953 que disputa com 1984, de George Orwell, e Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, o título de melhor exemplar dentro do gênero -, chegam às livrarias também outros dois livros, estes tendo narrativas curtas como matéria prima. A Cidade Inteira Dorme e outros contos é uma coleção mais eclética, reunindo textos escritos entre 1947 e 1981, de várias temáticas, indo da FC ao suspense. Já As crônicas marcianas, de 1950, é aquilo que pode ser chamado de romance fix up: vários contos relativamente independentes que formam um todo maior e mais completo quando lidos em conjunto.

Vamos falar um pouco sobre estes dois lançamentos, que servem perfeitamente como obras de iniciação para novos leitores de um dos escritores mais importantes das últimas décadas. O primeiro deles contou com organização brasileira de Ana Helena Souza e tradução de Deisa Chamahum Chaves. Nos 13 contos selecionados para a versão nacional, podemos encontrar rápidas brincadeiras teológicas, como “Uma pequena viagem”, sobre uma excursão interplanetária que promete levar velhas senhoras para mais próximo de Deus, ou “O messias”, com uma inusitada experiência religiosa em uma igreja localizada em Marte. Há ainda contos com ambientações distópicas, como “O lixeiro” e “O pedestre”, e alguns profundamente divertidos, caso de “A autêntica múmia egípcia feita em casa”. Outros contos flertam com o terror, como “O alçapão”, no qual uma senhora em sua casa passa por momentos assustadores desde que ela descobre, depois de dez anos, uma pequena passagem para seu sótão. “As frutas no fundo da fruteira”, com seu título aliterativo, não tem um elemento fantástico como a maioria dos demais, mas é um suspense angustiante.

No conto que empresta o título para a edição brasileira, é possível perceber melhor a excelência narrativa do autor. Na área rural de Illinois, a diversão dos jovens é ir ao cinema no fim de semana, mesmo quando mulheres aparecem mortas misteriosamente por um maníaco apelidado de O Solitário. Lavinia Nebbs é a protagonista que desafia o perigo da noite dispensando a companhia das amigas para ir sozinha até sua casa. O texto é de um suspense crescente finalizado bruscamente. Um trecho:

Ela disse às próprias pernas o que fazer, seus braços, seu corpo, seu terror; avisou a todas as partes de si mesma naquele momento branco e terrível; sobre as águas turbulentas do córrego, nas tábuas da ponte, ocas, trepidantes, flexíveis, quase vivas, ela correu, seguida pelos passos desordenados atrás, atrás dela, com a música a seguindo também, a música estridente e ininteligível.

As crônicas marcianas consegue igualar a diversidade de abordagens do livro anterior, ainda que tenha um mesmo pano de fundo para todas as suas breves histórias. Os contos são acompanhados das datas em que ocorreriam os fatos, todas elas futurísticas em relação à época em que foram escritas, mas que para um leitor atual já são quase todas passado recente, começando em janeiro de 1999, e apenas os três últimos fazendo parte do futuro nada distante de 2026.

No momento em que cada narrativa era escrita, porém, Ray Bradbury mirava mais de meio século no tempo, imaginando no final da década de 1940 como seria a conquista e colonização de nosso planeta vizinho quando finalmente chegasse a virada do século XXI. O ponto de vista fica bastante óbvio quando vemos o escritor se referir à Terra avistada da atmosfera marciana como sendo uma bola esverdeada, ao contrário do que sabemos desde os anos 60 ser a verdade sobre o pálido ponto azul que habitamos.

Bradbury não foi um pioneiro nesse exercício de imaginação. Bem antes dele, seu conterrâneo Edgar Rice Burroughs (1875-1950), mais conhecido como sendo o criador de Tarzan, já havia escrito diversos livros sobre Jack Carter, um ex-soldado da Guerra Civil americana que de modo bastante fantasioso se via transportado para Marte para lutar em um conflito milenar de duas raças alienígenas. Também não foi o último: Kim Stanley Robinson, outro americano, este nascido em 1952, criou a chamada Trilogia de Marte, na qual, usando as técnicas da ficção científica hard (o estilo que mais se aproxima dos conhecimentos científicos de fato), ele descreveu pormenorizadamente os métodos para se chegar até o planeta vizinho e aos poucos torná-lo um ambiente habitável para nós, humanos. Infelizmente os três livros que formam esta coleção, como boa parte da FC escrita nos últimos anos pelo mundo, ainda se encontram inéditos em nosso país.

As crônicas agora reeditadas no Brasil estão no meio termo entre a fantasia de Burroughs e a ciência de Robinson. Bradbury leva os terrestres àquele planeta a bordo de foguetes, alguns praticamente caseiros, onde eles se deparam com marcianos de pele marrom e olhos dourados (o capista do livro parece não ter se dado conta disso, pois na ilustração minimalista surge uma mão alienígena esverdeada). Chegando lá, não existe grande dificuldade para se respirar, nem faltam mananciais de água, e a vegetação terrestre se adapta perfeitamente bem ao solo vermelho.

Tais liberdades não foram tomadas por ingenuidade do escritor que cirou sua obra em tempos pré-viagens espaciais. O grande objetivo do autor não foi o de promover uma diversão escapista como nos folhetins de Burroughs, nem o de antecipar o futuro como na trilogia de Robinson. Bradbury estava falando sobre questões de seu tempo, como o medo de uma guerra nuclear, o racismo sem disfarces contra negros, o morticínio de populações nativas por conquistadores, os perigos que rondam a liberdade de expressão. O trunfo de Ray Bradbury é que ele fez isso tão bem que seu texto permanece atual e à prova dos anos que transformaram em passado o futuro imaginado por ele.

Romeu Martins

Jornalista formado pela UFSC. Desde 2009, tem publicado contos de ficção científica, fantasia e terror, tendo participado da primeira coletânea nacional dedicada a Sherlock Holmes.