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Karl Ove Knausgård vence uma batalha

por Cassionei Petry (07/02/2018)

Em "A Descoberta da Escrita", a angústia é elevada.

“A descoberta da escrita”, de Karl Ove Knausgård (Companhia das Letras, 2017, 624 páginas)

Apesar de ainda não ter lido o volume de 6, acredito que o volume 5 é o clímax de Minha Luta, do norueguês Karl Ove Knausgård. Com o título A descoberta da escrita, a edição brasileira, com tradução de Guilherme da Silva Braga, tem como tema principal os fracassos e o acertos de um aspirante a escritor em busca de se firmar no meio literário, bem como publicar seu primeiro livro por uma editora relevante, alcançando o reconhecimento desejado. O primeiro volume, A morte do pai, dava indícios de que a luta do protagonista fosse a sua vida pessoal, principalmente a relação conflituosa com seu genitor, e há várias passagens nos outros volumes que nos leva a crer nisso. Este penúltimo livro, no entanto, mostra que a luta era na verdade com a escrita, sendo que a batalha, de certa forma, foi vencida. As outras lutas tornam-se até irrelevantes.

Como os leitores deste espaço de resenhas na Amálgama não são mal informados, já sabem que Minha Luta é quase que uma autobiografia romanceada de Karl Ove, em que ele, familiares, amigos e outras pessoas que passam por sua vida são citados com os nomes reais e nada (ou quase nada) é escondido do leitor. O próprio escritor não escamoteia, por exemplo, seus problemas com a bebida e suas relações sexuais frustradas, principalmente relacionadas à ejaculação precoce. E claro, teve problemas judiciais por conta de narrar também a vida de outros. Soma-se a isso o fato de o título da série ser o mesmo do livro maldito de Hitler. Polêmicas e mais polêmicas que catapultaram a venda dos livros.

Engana-se, porém, que pensa estar diante de um típico best-seller. Temos aqui alta literatura que foge de qualquer fórmula exitosa. Inclusive é curioso o fato de um narrativa tão densa alcançar expressiva vendagem mundial. É que o cara escreve bem, muito bem, desenvolve a narrativa de uma forma envolvente sem, no entanto, facilitar a vida do leitor. Em determinados momentos, parece cansativa as descrições e detalhes esmiuçados da vida do protagonista, mas de repente uma memória puxa outra e o leitor se vê transportado para um outro período, com adjuvantes e antagonistas diferentes e continuamos a ler a história, quase sem pausa, apesare dos capítulos longos.

Karl Ove, escritor e personagem, mostra os bastidores do mercado editorial, notadamente os dos países nórdicos, onde os autores tornam-se facilmente (pelo menos em relação a nossa realidade) profissionais.  Relata também a aprendizagem na oficina de escrita criativa, bem como os egos inflados e os conflitos entre os novatos. As novas leituras ganham destaque, entre elas a descoberta de Julio Cortázar, que o faz refletir sobre sua escrita realista: “(…) não poderia escrever daquele jeito, eu não tinha a fantasia necessária. Na verdade, eu não tinha fantasia nenhuma, todos os meus escritos relacionavam-se com a realidade e com as minha próprias experiências”.

Quando não tem bolsa de estudos, no entanto, precisa trabalhar. Entre outras coisas, foi cuidador em uma instituição psiquiátrica. Para mim, são as páginas mais impactantes do romance, em que Knausgård descreve os doentes de forma tocante e ao mesmo tempo sarcástica, causando ora comoção ora repugnância por aqueles seres desprezados pelo mundo “normal”. Certamente uma experiência e tanto para um escritor.

Knausgård também narra seu trabalho como crítico literário (em outro volume conta a experiência como crítico musical), sendo reconhecido por essa atividade antes de o ser como escritor. Crítico ferrenho, diga-se, que não poupa, por exemplo, nem a obra de Haruki Murakami (objeto da minha última resenha): “(…) o livro era sobre um jovem que caçava cordeiros especiais, e eu escrevi uma crítica arrasadora, acima de tudo porque o livro era ocidental demais”.

Tenho uma queda pela metaficção, e este quinto livro da séria Minha luta é onde esse gênero se acentua. Por isso é o meu preferido, lembrando que ainda falta ler o volume 6. Há ainda o papel da angústia na vida do escritor, tema que estudei no mestrado que fiz em Letras. Em A descoberta da escrita, a angústia é elevada. Pode até afastar leitores que não gostam de gente que se deprecia. Karl Ove Knausgård às vezes se coloca lá embaixo, nas esferas mais baixas do “eu-não-sou-nada”. Talvez seja o motivo de agora estar lá em cima, no topo dos maiores escritores da atualidade.

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Cassionei Petry

Professor e escritor. Seu novo livro é Cacos e outros pedaços.