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"Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa" apresenta-nos um excelente roteiro, não somente da constituição da estética, como também de aspectos históricos, sociais e políticos da obra pessoana.

“Introdução ao estudo de Fernando Pessoa”, de Fernando Cabral Martins (Ateliê, 2017, 97 páginas)

Quanto mais elevada é a arte, menos se nota o artista. Quanto mais baixa é a arte, mais evidente é o artista. O artista medíocre coloca-se à frente da arte. O grande artista oculta-se para revelar a arte. Durante um solo de violino, o violinista, vestido de penumbra, é parte do instrumento que propaga a melodia. Nas artes plásticas, o pintor dilui-se em seus traços. Na arte dramática, sobretudo a tragédia clássica, atrás das máscaras, as personalidades anulam-se. As ações são determinadas pelos diálogos. O que acalenta as personagens é o sopro do verbo. Como um crepúsculo, apaga-se o autor no anonimato de um outeiro. Caído o pano, remanesce o silêncio.

Depois de alojar-se no topo de uma árvore para colher o canto de um rouxinol, John Keats dizia que o poeta é a criatura menos poética que existe, porque se esvazia para ser transbordado pela natureza. É esse tipo de dissolução artística, por vezes dispersão autoral, da qual Shakespeare talvez seja o melhor exemplo, o fundamento mesmo da poética heterônima de Fernando Pessoa, belamente desenvolvido neste lançamento.

Em Introdução ao estudo de Fernando Pessoa, o especialista Fernando Cabral Martins apresenta-nos um excelente roteiro, não somente da constituição da estética, como também de aspectos históricos, sociais e políticos da obra pessoana.

O primeiro capítulo é dedicado às diferentes concepções de Modernidade e Modernismo, sobretudo no ambiente de aparição de revistas, vanguardas e manifestos, algo que será ainda desenvolvido no seguinte, ainda que mais especificamente em relação aos aspectos poéticos. Em Portugal, ao lado de Sá-Carneiro e Almada Negreiros, Fernando Pessoa é o espírito que move essas matérias.

De poeta inglês a pensador e profícuo escritor, os próximos capítulos iluminam as fontes vanguardistas: o paulismo, o sensacionalismo e o interseccionismo. Em determinando momento, no entanto, penso que o leitor pode ser levado a relacionar precariamente a estética onírica, característica do sensacionalismo, com as ações revolucionárias a desembarcar em utopia. Embora sirva como ótimo estudo introdutório, a poética do sonho deve passar, pelo menos, por Edgar Allan Poe, Baudelaire, Mallarmé e Rollinat. Por outro lado, Martins cruza as linhas biográficas, estéticas e gnosiológicas pessoanas de um modo amplo, a alcançar de estudantes a especialistas.

Dá crédito ainda ao autor a pesquisa atentíssima ao fantástico espólio pessoano. E essa pesquisa não cai no erro de justificar o homem pelo tempo, nem tampouco amplia as ideias do poeta a um todo coeso; antes, mantém as ambiguidades e paradoxos, por vezes até desejados. O caso da invenção do suicídio de Aleister Crowley, pensado pelo ocultista e pelo poeta, não só para chacoalhar a cena, mas também para receber algum aceno, é um bom exemplo disso. Fernando Pessoa, que sonhava ser publicado em inglês, acaba aliciado pelos editores…

Sem deixar de tratar da prosa pessoana, da poética do fingidor, de misticismo e sebastianismo, o autor guarda boa parte do livro para desenvolver e – por que não? – perscrutar a estética heterônima. Além dos textos escritos pelo próprio Pessoa, Martins não deixa de localizar as diferentes intenções do poeta de Mensagem. Da pré-heteronomia – com Alexander Search –, destaca-se o dia triunfal, com o surgimento do Mestre Alberto Caeiro e, por conseguinte, dos discípulos Ricardo Reis e Álvaro de Campos (posteriormente o próprio Fernando Pessoa).

Apesar de muito bem exposto, creio que, no caso do Mestre Caeiro, caberiam ainda a sombra de Goethe, como filósofo da natureza, logo diverso do socratismo, da metafísica e do racionalismo, e também a teoria schilleriana sobre a poesia ingênua e sentimental.

Em relação a Goethe, a descrição de Schweitzer caberia perfeitamente ao Mestre Caeiro:

Nada acrescentando ao que é natural, diz ele, chega-se à verdade, identificando-se com a natureza, mergulhando nela sem ideias preconcebidas e com o ouvido atento a fim de escutar algo dos segredos que ela encerra. Toda a vez que perscrutamos, quer descubramos muita coisa, quer descubramos pouca coisa, oferecemos a todos o que dela recebemos, lançando claridade sobre os caminhos da vida, oferecendo a todos algo de que podemos lançar mão para vivermos espiritualmente. Antes de mais nada, porém, é preciso estarmos de sobreaviso para, nesse modo de agir, não sermos igualmente arrastados a formular uma concepção rígida de vida, imitando aqueles que arquitetam sistemas filosóficos. Ao contrário, perseveremos em morar sempre em uma casa inacabada. (SCHWEITZER, 1950, pp. 98, 99)

Poeta e filósofo da natureza, Alberto Caeiro tem a mesma concepção panteísta goethiana:

[…]
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

Além disso, talvez a teoria de Schiller explicasse a dialética heteronômica. Schiller relacionava o conceito kantiano de gênio (ingenus) como ingênuo (Naïf), cujo exemplo seriam os poetas antigos gregos, para os quais a representação (mímesis) natural seria a própria natureza, a produzir, portanto, uma poesia que não acusaria artifício, algo próprio do Mestre Caeiro. Já nos poetas modernos, em vez de ingênua, a representação seria sensível. Primando pelas idealidades e pela dispersão, esta poesia seria a sentimental, algo próprio dos demais heterônimos e semi-heterônimos, como Bernardo Soares.

De qualquer forma, como anunciado, o leitor tem em mãos uma excelente introdução aos estudos sobre Fernando Pessoa. De uma leitura agradável, o autor consegue apresentar conceitos complexos e mesmo paradoxais, mantendo um diálogo entre poemas, personalidades, escritores e demais textos. É como um libreto que nos auxilia a assistir ao espetáculo dialético desse gênio que se oculta atrás de tantos dramas para revelar a arte intérmina.

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REFERÊNCIAS

SCHILLER, F. Poesia ingênua e sentimental. Trad. Márcio Suzuki. São Paulo. Ed. Iluminuras, 1991.
SCHWITZER, Albert. Goethe: quatro discursos. Coleção goetheana Vol. I. São Paulo: Melhoramentos, 1949.

Wagner Schadeck

Nasceu em Curitiba, onde vive. É tradutor, ensaísta, editor e poeta. Colabora com a Revista Brasileira (ABL), com a Revista Poesia Sempre (BN) e com os periódicos Cândido e Rascunho. Em 2015, organizou a reedição de A peregrinação de Childe Harold, de Lord Byron, pela Editora Anticítera.