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Em um breve relato, Tolstói narra seu retorno, embora conturbado, ao seio da Igreja Ortodoxa.

“Uma confissão”, de Liev Tolstói (Mundo Cristão, 2017, 128 páginas)

No livro Crítica e profecia, Luiz Felipe Pondé revela a mística ortodoxa na obra de Dostoiévski. Para mística cristã ortodoxa, a conversão é o caminho da alma agônica pelo deserto. Esse percurso não é mero retorno; é uma transfiguração humana (deificação). A conversão (metanóia) se dá com a transformação do intelecto pela Graça. Segundo Pondé, na mística ortodoxa, a metanoia é uma experiência mística que, independente de códigos morais, “dispara uma dinâmica que continuamente transforma, ou transfigura, ou converte o ser do indivíduo em todas as suas dimensões e definitivamente, causando um transtorno ontológico à economia meramente natural.”

É esse processo, fundamental na literatura e vida de Dostoiévski, que vislumbramos em Uma confissão, de Tolstói.

Neste livro, o famoso autor de Guerra e Paz narra o desenvolvimento de sua personalidade, da juvenil afirmação de si mesmo até seu retorno, embora conturbado, ao seio da Igreja Ortodoxa. Mas ao contrário da confissão de S. Agostinho, que testemunha o milagre da vida por meio do diálogo da alma com Deus, o relato de Tolstói é o de um descrente. Mais próxima à de Rousseau e à de Musset, esta é uma confissão secular. Ao caminhar por um mundo sem Deus, a alma é árida como o deserto.

Como em Nietzsche, a agonia tolstoniana se dá pelo niilismo, que resseca a seiva da vida. Mas ao contrário do filósofo de Zaratustra, Tolstói não chega a se cobrir com a loucura; é tentado, no entanto, pelo suicídio.

Em sua busca por Deus, arrolando a sabedoria do Salomão e Schopenhauer, Tolstói cava o Infinito, como no soneto de Cruz o Sousa:

CAVADOR DO INFINITO

Com a lâmpada do Sonho desce aflito
E sobe aos mundos mais imponderáveis,
Vai abafando as queixas implacáveis,
Da alma o profundo e soluçado grito.

Ânsias, Desejos, tudo a fogo, escrito
Sente, em redor, nos astros inefáveis.
Cava nas fundas eras insondáveis
O cavador do trágico Infinito.

E quanto mais pelo Infinito cava
mais o Infinito se transforma em lava
E o cavador se perde nas distâncias…

Alto levanta a lâmpada do Sonho.
E como seu vulto pálido e tristonho
Cava os abismos das eternas ânsias!

Entre as inúmeras alegorias, entretanto, convém destacar aquela que também chamou atenção de William James, em seu As variedades da experiência religiosa: acoçado por uma fera, um homem cai num buraco, ficando, contudo, suspenso por raízes. Seu horror aumenta ao ver que ao fundo havia um monstro e que as raízes eram devoradas por um rato branco e um preto (o dia e a noite), tendo como consolo apenas poder sugar o mel delas. Eis o cerne agônico de uma existência sem fé. Retirado o fundamento da vida, resta-nos abraçar o abismo ou a adaga. Essa é a tentação de Tolstói.

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Depois de estudar as diversas ciências, das matemáticas às especulativas, a meditação angustiada do autor envolve a necessidade de ligação entre o infinito e o finito. É o salto na fé de que nos fala Kierkegaard. É a terceira margem que nos desenha Guimarães Rosa.

Após seu retorno conflituoso e aflitivo à Igreja, Tolstói confessa descobrir nas pessoas mais humildes e ignorantes uma ventura que não vira nos intelectuais: fazer o que deve ser feito; agir consoante às expectativas e de acordo com o que se espera; segurar na guia da fé sem cortar o fio da esperança.

Com a interrupção confessional, numa bela alegoria onírica, o silêncio interior de Tolstói veta o nosso acesso. E embora saibamos que o autor se manteve em atrito com a Igreja a ponto de ser excomungado, essa obra permanece como um momento de superação de si mesmo.

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Wagner Schadeck

Nasceu em Curitiba, onde vive. É tradutor, ensaísta, editor e poeta. Colabora com a Revista Brasileira (ABL), com a Revista Poesia Sempre (BN) e com os periódicos Cândido e Rascunho. Em 2015, organizou a reedição de A peregrinação de Childe Harold, de Lord Byron, pela Editora Anticítera.