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Um jardim suspenso no abismo

por Wagner Schadeck (03/04/2016)

A poesia é o contrário da ideologia. Ela apresenta a contemplação da experiência profunda da vida, em toda a sua complexidade e ambiguidade.

Paulo Leminski (1944-1989)

Paulo Leminski (1944-1989)

A poesia curitibana é um jardim suspenso no abismo. Embora as gerações se revezem em seu tempo de cultivo, a repetição dos erros é fatídica. Os poetas curitibanos formam grupos; criam revistas efêmeras; inventam a realidade por meio do idealismo ou da ideologia; são bajuladores e ressentidos, apresentando um enorme fascínio pelo poder, com estreita relação com políticas totalitárias, populistas e ditatoriais.

A emancipação do Paraná (1853) coincide com o desenvolvimento econômico do ciclo da erva-mate e a formação do Simbolismo. O mapa ideal e o tipo paranaense, no entanto, já haviam sido criados, antes mesmo na delimitação geográfica que só ocorreria após a nefasta Guerra do Contestado (1916). Em Curitiba, os primeiros grupos intelectuais tinham afinidades política e filosófica. Para angariar prestígio político e intelectual, homens como Silveira Neto (1872-1942), Dario Veloso (1869-1937), Romário Martins (1893-1944) e Júlio (1869-1921) e Emiliano Perneta (1866 -1921) eram positivistas e republicanos.

Em edição especial comemorando o aniversário da emancipação, o intelectual e político de renome Agostinho Ermelino de Leão (1834-1901) reproduziu um discurso positivista, segundo o qual:

O presente é uma projeção do passado…

Mortas, as tribos indígenas, mortos – os heróis da conquista, extintos os oprimidos africanos, desaparecida a audaciosa raça dos bandeirantes mamelucos; existe, contudo, o povo paranaense, fusão deste e de novos elementos e herdeiro de seus heroicos feitos. Estudemos o passado para desvendar o futuro. (…)

Unidos pela consanguidade, irmanados pela eucaristia de ideais nascidos à sombra do amor pátrio, fortalecidos pelo exemplo, cheios de responsabilidades, que nos legou o passado, marchemos para a conquista de novos e incruentos troféus, desfraldando aos ventos o lábaro da cruzada patriótica; e quando, nas altas torres da nova Jerusalém, dominadores nos acharmos, possamos repetir com ufania: O Paraná marcha na vanguarda dos povos e do progresso! (LEÃO, 1903. p. 2)

O positivismo era a filosofia de vida dos republicanos. A filosofia de Augusto Comte disseminou-se entre os intelectuais curitibanos. Ninguém se salvou do ridículo. Com a República, homens como Ermelino de Leão e Romário Martins iniciaram a criação de uma imagem do Paraná próspero. A moral, a história, a arte e a política eram estudadas cientificamente pelos grupos curitibanos. O historicismo de Comte propunha o “progresso” histórico: a Era Teológica, a Metafísica e a Científica. Colocando-se como arautos da era científica ou positiva, quando o homem deixaria a teologia e a metafísica, como já abandonara os mitos de outrora, nossos literatos acreditavam construir uma sociedade mais justa e esclarecida, tendo como princípio o Amor, como meio a Ordem e como fim o Progresso. Embora nem todos comungassem da Religião da Humanidade, todos pregavam o altruísmo, espécie de caricatura racionalista da caridade cristã.

Como o positivismo era a filosofia oficiosa da República, a inteligência curitibana aderiu e praticou plenamente esses dogmas. Com base na teoria da raça, Romário Martins encontrara na mistura da bondade indígena e na inteligência dos portugueses o tipo ideal paranista, com um pé voltado para o progresso, como no monumento do Homem nu (1953), de Erbo Stenzel, obra plagiada que, além de ser de mau gosto, ainda guarda o mesmo espírito progressista da suástica nazista.

Com a imigração, italianos, alemães e poloneses foram hostilizados pelos intelectuais curitibanos. O choque cultural foi inevitável. Acreditando-se na era científica, a intelectualidade positivista curitibana via no cristianismo dos imigrantes um “atraso espiritual” e na “eficiência” alemã uma ameaça à ordem social. Em 1892, num discurso intitulado “Do futuro do Brasil”, proferido para os membros do Clube Curitibano, para enxotar os “invasores”, Dario Veloso disse que

… o Brasil sentirá o derrocar do monumento de seus labores, – porque o solo amesquinhar-se-á sob os milhões de concorrentes!…

E a raça nacional desaparecerá, – porque esses mesmos concorrentes, em limitadíssimo número de anos, seja pelo cruzamento estabelecido para com os nacionais, seja pela superioridade numérica, farão predominar o tipo de sua raça, conquanto mais decadente, – menos apta à soberanidade [sic] dos povos e da nova pátria! […]

… como as tribos aborígenes da América e da Oceania, espezinhadas pela concorrência estrangeira, cedem palmo a palmo seus territórios e somem-se e desaparecem: – também as nações americanas perderão a robustez toda, desmembrado-se completa e eternamente, vendo seus filhos cederem, palmo a palmo, o idolatrado solo, e sumirem-se e desaparecerem para sempre na interminável noite do passado e do túmulo! (VELOSO, 1892, pp. 2 – 4.)

Essas críticas hoje absurdas deveriam na época demover os governantes para ações práticas. A revista O Cenáculo trazia na capa elementos satanistas pintados por Silveira Neto, como a Cruz e a Caveira. Não se tratava do satanismo de Baudelaire. Para o poeta francês, embora buscasse a bondade, o Homem estava condenado ao mundo do Mal, o mundo secular. No satanismo de nossos simbolistas, o diabo é uma figura escarnecedora, servindo para escandalizar os religiosos. Os positivistas não acreditavam no Mal. Para eles, o diabo não passava da representação de uma era teológica, já superada. Baudelaire, pelo contrário, acreditava no diabo. No esboço do prefácio para As Flores do Mal, ele dizia:

É mais difícil amar a Deus do que acreditar nele. Ao contrário, é mais difícil para as pessoas deste século [os seculares] acreditar no Diabo do que amá-lo. Todo mundo o serve e ninguém acredita nele. Sublime sutileza do Diabo. (BAUDELAIRE, 2009, p 239.)

Contudo, Dario Veloso, Euclides Bandeira (187-1947) e Emiliano Perneta, entre outros, achavam-se bons, altruístas, modernos, esclarecidos e, portanto, lutavam na promoção do progresso republicano, censurando “superstições” populares. Em seu livro de poemas, Heréticos (1901), Euclides Bandeira apresentava um soneto panfletário atacando o cristianismo. Emiliano Perneta publica no Diário da Tarde e posteriormente coligido em seu livro Ilusão (1911) o longo poema “A punição do herege”. Neste poema, o poeta narra uma história sobre o desejo adúltero de um sacerdote. Tomado pelo desejo, o clérigo pune o marido da mulher desejada como herege. Embora de um primor estilístico, trata-se também de um poema que pretende angariar prestígio entre os pares, o mesmo recurso pode ser detectado quando, em Minas Gerais, Perneta remetia poemas para publicação nas revistas curitibanas com o subscrito Num país de bárbaros.

Além disso, Dario Veloso também propalou um soneto que, embora estilisticamente inferior, ideologicamente é bem mais interessante para se entender o fascínio pelo poder e o pacto fáustico desejado por esses intelectuais.

A IRONIA DO CORVO

Soturno, velho, trêmulo, abatido,
Sob as bátegas de água que ressoam,
Medita o Corvo… e seus pesares voam
Da humanidade ao berço… Compungido

Recorda as fases de ouro e de baunilha,
E Éden formoso, o corpo inimitável
Da mulher mais soberba e admirável,
– de Eva – a divina e pecadora filha…

Lembra, encantado, a astúcia do Demônio,
Alma de haxixe, de rosa e de estramônio,
Voz aflautada, meiga e sedutora…

E o Corvo grasna e ri canalhamente,
Qual se osculasse a carne rubra e quente
Da soberba e divina pecadora…
(VELOSO, 1996, p. 195.)

Talvez o leitor lembre-se do famoso poema de Edgar Allan Poe, que já havia sido traduzido por Machado de Assis, por meio de uma versão em prosa de Baudelaire; trata-se, entretanto, de um ataque ao clero católico. O corvo assediado pelo desejo é uma representação da vestimenta clerical da época, com o capelão e o hábito pretos. Além disso, no soneto, à maneira de Voltaire, Veloso moraliza o celibato como esconderijo do desejo.

De qualquer forma, o anticlericalismo de Dario Veloso, Euclides Bandeira, Julio e Emiliano Perneta antes pretendia estabelecer um novo clero positivista, um clero intelectual. Fundada a Universidade do Paraná, em 1912, sendo federalizada em 1950, no entanto, Emiliano Perneta não poderia prever que contemporaneamente cursos de humanas estariam tomados por sindicatos e militantes de religiões políticas.

A esfinge sem segredo

Há um elemento comum compartilhado por Silveira Neto e Dario Veloso. Além de lojas maçônicas e da epígrafe do famoso verso de Arvers, ambos recorrem ao tópos do poeta como sacerdote do Belo. Contudo, enquanto em Silveira Neto é mais claro em poemas como “Os Astros e “Missa Negra, em Dario Veloso este lugar é um elemento mais recorrente. “Aetermum vate!”, “Estranho Filtro”, “Esperança”, “Ângelus”, “Abyssus abyssum invocat” são poemas onde o poeta é retratado como monge. Em geral, nesses poemas de Veloso o monge é o celebrante que cria um novo rito:

Todo o poeta que sofre a tristeza do monge
Sente, e sente do monge os longos desalentos:
É que a ambos o Amor fita-os de muito longe,
E sem amor não há nem céu nem firmamentos…
(VELOSO, 1996. p. 132.)

Uma leitura desse lugar, tanto na espécie de nostalgia cósmica de Silveira Neto, quanto no rigor sugerido por Dario Veloso, poderia levar a uma interpretação meramente formal, metalinguística. Mas os elementos cósmicos e a posição do poeta demonstram o fascínio que esses poetas tinham pelo poder, como ainda a construção de um missal para a Religião da Humanidade positivista.

A Paixão tudo abarca em seu rubro exagero!
A Paixão nos deforma e, um crescendo vário,
Do Monge que ama faz Poeta do desespero,
E do Poeta que sofre um Monge solitário!
(NETO, 1996. p. 121.)

De qualquer forma, o sentimento – “a Paixão” ou o “sofrimento” – nasce do Ideal inalcançável, que pode bem ser o ressentimento em relação ao prestígio que tanto Silveira quanto Dario acreditava merecer.

Essa relação de pacto com o poder nem sempre está bem claro na poesia de ambos. Enquanto Silveira Neto pinta paisagens noturnas hibernais, a maior parte dos poemas de Veloso é esoterismo metrificado. A poesia de Dario Veloso é como As Ruínas de São Francisco (1809). Ainda que protegido, não passa de um projeto derruído e falho.

Frequentar essa poesia é ainda como visitar uma estante de coleções esotéricas. Papus e Fabre D’Olivet (belo tradutor dos “Versos Áureos” pitagóricos de quem Veloso fez uma versão quase ininteligível) são gnósticos presentes em seus versos, como no poema “Abismos”, que reconta o mito do filósofo pré-socrático Empédocles.

Porém, o ponto alto dessa poesia é o longo poema “Ruínas”. Trata-se de um momento ímpar numa poética que quer aparentar sapiencial, mas é apenas abstrusa.

Poeta, vou conduzir-te aos torreões desertos
Dos castelos azuis de minhas esperanças,
Hoje espectros senis, de lianas cobertos,
Sem louras castelãs e pálidas crianças.
[…]

É um instante de abertura da memória do poeta, algo como uma confissão, livre das máscaras:

[…]
Um madeiro verás sobre as pontes alçado,
Negro emblema da dor triste marco da vida,
Beija-o, beija-o, poeta, é meu louro passado
Interrogando à noite a minha fé perdida.
[…]

Trata-se de uma confissão de como o jovem Veloso deixou o cristianismo pelo gnosticismo.

[…]
De então, quis perlustrar os arcanos do Eterno,
Quis devassar o céu, quis conhecer o abismo;
E não mais encontrei meu sorriso superno,
Nem mais soube vibrar a esperança e o lirismo.
[…]
Eis porque já não tenho o sorriso de outrora
E já não sei cantar e já não posso crer:
É um a mesma visão, que hoje a mágoa desflora,
Foi quem me fez amar, é quem me faz sofrer.
(VELOSO, 1996, pp. 89 – 91.)

Esse poema revela a cegueira trágica de Dario Veloso e o pacto fáustico que fizera pelo Ideal e pela Utopia. Como no final da segunda parte da tragédia metafísica de Goethe, ao acreditar que estava trabalhando na reconstrução do Jardim do Éden na terra, Fausto já cego não consegue notar que Mefistófeles constrói-lhe um túmulo. Nesse poema é um dos únicos momentos em que Dario Veloso volta-se para o abismo interior, cavado pela separação que fizera entre o Belo, o Bom e o Verdadeiro, como atesta o soneto “Éden.

Paulo Leminski (1944-1989) tinha certa afinidade com Dario Veloso que não encontrou nem no simbolismo imagético de Silveira Neto, nem no esteticismo elegante de Emiliano Perneta, tampouco na grande poesia satírica de Emilio de Meneses. Trata-se da visão utópica. O carioca Dario Veloso provavelmente entrou em contato com o socialismo por meio da revista O Socialista, editada no Rio de Janeiro (1845-1847) por Eugene Tarbonnet, discípulo de Saint-Simon, socialista utópico francês e mestre de Augusto Comte, criador do Positivismo, enquanto residira no Brasil. É provável também que Veloso tenha sido o primeiro poeta a professar o socialismo no Brasil, provando que, no circo teratológico dos intelectuais, Positivismo e Socialismo são gêmeos siameses ligados pela cabeça de uma mesma ideia.

A prova disto está no soneto panfletário “Novo Pendão, que Dario publicou em 1892, onde antes do longo poema utópico “Atlântida”, o poeta já defendia as ideias novas que fermentava o ressentimento dos intelectuais:

Por terra o despotismo!… Trompas soem!…
Soem de guerras bélicas fanfarras!…
Saltem da morte envenenadas garras,
Monstros de pedra à bala esboroem!…

Férreos tinidos másculos reboem,
Gritos cruzem o ar, surjam lamentos;
Choquem-se o ódio, a raiva, os sentimentos;
Troem clarins e os bombardeios troem!

Por terra o despotismo!… Caos e morte
Rolem do Sul às regiões do Norte,
Sacudindo os ermos de espantoso abismo!…

Quebrem-se os cetros que a tormenta arranca!…
Flutue após longa bandeira branca,
O alto estandarte do Socialismo!…
(VELOSO, 1996. p. 193.)

A admoestação de Proudhon a Marx, em carta de 17 de maio de 1846, caberia a Dario Veloso: “Numa palavra, seria na minha opinião uma má política para nós falarmos como exterminadores; a violência virá por si só; o povo não tem necessidade, para isso, de nenhuma exortação.” (SANTOS, 1953. p. 71).

Proudhon estava certo – triste ironia! E embora Veloso não pudesse saber que o marxismo mataria mais de oitenta milhões, quando Olavo Bilac veio a Curitiba em campanha pelo alistamento, o famoso discurso pacifista de Dario torna-se um ótimo exemplo de como um intelectual consegue dissimular por meio do esteticismo os ideais mais nefastos e ainda ser aplaudido como humanista.

Como Lênin disse, porém, na véspera da Grande Fome na Ucrânia, sobre o confisco de cereais, que condenava à morte os agricultores: “Morram milhares, a revolução, o Estado, serão salvos” (KOEBEB, 2009, p. 103.)

O grande historiador da Revolução Francesa, Edmund Burke, costumava dizer que Rousseau era o filósofo da vaidade.  O mesmo vale para o poeta simbolista. A poesia sibilina de Dario Veloso esconde um homem dissimulado.

A ilha utópica

Sem fundação mítica, Curitiba é uma ilha utópica. É a própria Ilha da Ilusão do Passeio Público, onde, em 1911, Emiliano Perneta fora coroado “príncipe dos poetas paranaenses”. Com a República, artistas, intelectuais e políticos iniciaram a descoberta dessa ilha de ideias. Ruas e praças passaram a ter nomes que lembrassem a coisa de todos. A Rua Imperatriz passou a se chamar Rua 15 de Novembro; o Largo D. Pedro II passou a se chamar Praça Tiradentes. Artistas também cooperaram para esse projeto de recriação ideológica. João Turin, por exemplo, foi o responsável pela estátua do mártir republicano Tiradentes, cujos traços, não por acaso, lembram os de Cristo. Essa espécie de conversão de valores religiosos em seculares aparecerá também na poesia, sobretudo no talento entre os poetas curitibanos, Emiliano Perneta.

Mimetizando a deficiência herdada tanto no nome quanto fisicamente, espécie de mancada na repetição no início de alguns versos, a poesia emiliana destaca-se pelo primor estilístico. Ele foi o primeiro poeta a estetizar até o limite seus vícios. Seu livro Ilusão (1911) apresenta os melhores exemplos dessa conversão de valores republicanos feitas por um esteta da palavra.

No soneto “O meu Orgulho levantou-me”, o poeta converte o episódio da Tentação de Cristo numa Tentação secular. Neste poema, no entanto, em vez de Satã, é o Orgulho que tenta o poeta. Mas ao receber ofertas da Vaidade e da Glória, o poeta entrega-se à fé secular. Em outro momento, Satã retorna com seu nome clássico. Em “Canção do Diabo, Perneta firma o pacto demoníaco. Como naquele outro exemplo, nesse pacto o poeta se deixa seduzir em troca do Belo.

Diz o príncipe deste mundo ao poeta:

“E eu, o flagelo, eu, o açoite,
Eu, o morcego, o diabo, cruz!
Estranho príncipe da noite,
Hei de inundá-lo só de luz!

“Hei de lhe dar uma tão rara
Virtude, que baste ele olhar,
Basta querer somente, para
Que o vento acalme a voz do mar.

“E hei de fazê-lo de tal modo,
De tal fluidez, que ele por fim,
O ser humano, o limo, o lodo,
Se torne bem igual a mim.

“E tudo só para ofuscá-lo,
Pra encantá-lo, tenho, e lhe dou:
A minha espada e o meu cavalo,
A minha glória… E aqui estou.”

Olhei. Brilhava-lhe na fronte
A estrela d’ouro da manhã,
Como num límpido horizonte:
– Eu serei teu irmão, Satã!
(PERNETA, 1996, pp. 113-117.)

A poesia de Emiliano representa o exato momento de pacto entre o Poder e os Intelectuais e a Beleza, mas ao mesmo tempo, como em Dario Veloso, a dissociação entre o Bom, o Belo e o Verdadeiro.

O Belo que é Bom e Verdadeiro (καλοκαγαθία), de Platão até Kierkegaard, foram universais presentes nas grandes obras do espírito humano. Com a modernidade, aconteceu um conflito entre esses “três transcendentais” [1]. Meditando sobre a apologética de Kierkegaard, Mário Vieira de Mello explica que para o filósofo

ou o homem se esquece do fato de que o Bem desfigurado, o Bem impotente é o Bem apesar de tudo e não um simples elemento dinamizador que introduz movimento na lógica, confere valor ao momento negativo e torna, em resumo, possível a construção de um sistema metafísico objetivo de significação histórica universal – e nesse caso será a sua própria existência humana que estará sendo esquecida, será o seu próprio Ser que estará sendo renegado numa procura cômica de parecer outra coisa do que aquilo que verdadeiramente é – será enfim sua vida que passará a manifestar um caráter totalmente irreal; ou então ele não perde de vista o fato de que o Bem desfigurado ou íntegro, poderoso ou impotente representa de qualquer maneira o destino inelutável da humanidade e deverá, por conseguinte, constituir a preocupação fundamental de sua existência – e nesse caso a realidade de sua vida estará sendo preservada, será do seu próprio Ser que ele estará se ocupando, vivendo e pensando então existencialmente, o centro do seu Ser se referindo irresistivelmente ao elemento ético que é o único a conferir à alma humana profundidade e seriedade. (MELLO, 2009. pp. 154-155.)

O poeta de Ilusão apresenta o momento desse conflito. Com o esteticismo, Perneta mergulha no niilismo, representados tanto na concepção do mundo como sonho e da beleza como ilusão, como no soneto “Prólogo”, como no sentimento de evasão e aniquilamento, somente amainados com a conversão do poeta no fim da vida.

Aquele pacto simbólico é também a cisão entre esses elementos, representados, tanto na paráfrase artística de símbolos religiosos para republicanos, quanto no esteticismo. É o que apresenta nos tercetos do soneto “Donzelas”.

Lírios do campo com figura de mulher,
A minha decadência é um fruto caprichoso
Desta época sem luz que não sabe o que quer,

Não sabe nada; mas, ó candidez ideal,
Eu não posso querer senão o Monstruoso,
E o bem Maravilhoso, e o bem Fenomenal!
(PERNETA, 1996, p. 18)

Talvez inconscientemente, Perneta converte o Belo em Monstruoso, o Bom em Maravilhoso e o Verdadeiro em Fenomenal. Esta troca não é mero artifício estético. Embora publicado em janeiro de 1904, este poema representa o pacto que havia sido firmado entre intelectuais positivistas e a República da Espada (1889 a 1894), nome dado à ditadura militar republicana de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. A consequência desse pacto é o niilismo que estetiza a realidade, presente na poesia de Perneta.

O niilismo é a prisão da consciência. Ela é o entorpecimento dos sentidos que anula a capacidade humana de compaixão. É essa doença moderna que nos impele a uma busca incessante, levando-nos ao suicídio ou à loucura, como acontecera com Nietzsche.

“Poemas como “Embarque para Citera”, “Brigue” ou “Versos para embarcar”, que transmitem um sentimento que Tasso da Silveira chamou de “evasão”, são representações do niilismo.

Esse anseio pela aniquilação é evidente num soneto como “Corre mais que uma vela”.

Corre mais que uma vela, mais depressa,
Ainda mais depressa do que o vento,
Corre como se fosse a treva espessa
Do tenebroso véu do esquecimento.

Eu não sei de corrida igual a essa:
São anos e parece que é um momento;
Corre, não cessa de correr, não cessa,
Corre mais do que a luz e o pensamento…

É uma corrida doida essa corrida,
Mais furiosa do que a própria vida,
Mais veloz que as notícias infernais…

Corre mais fatalmente do que a sorte,
Corre para a desgraça e para a morte…
Mas eu queria que corresse mais!
(PERNETA, 1996, p. 32)

Essa fome pela aniquilação do Ser aparece com várias máscaras nos poemas de Perneta. O niilismo do poeta só se acalma com sua suposta conversão, presente nos últimos poemas como “Creio!”, “De como vim cair aos pés de Deus”, “Louvado sejas tu”, e pungentes “Oração da manhã” e “Oração da Noite”, do livro póstumo Setembro. A tragédia espiritual de Emiliano Perneta é semelhante à de Euclides da Cunha.

Em Os Sertões, Euclides inicia como republicano e positivista, vendo o vilarejo de Canudos como resistência monárquica, mas por meio da arte consegue, ao fim da narrativa, retomar a consciência da realidade. Hedonista, embora com uma obra sem unidade, nem visão de mundo bem definida, Emiliano Perneta também parece apaziguar seu anseio pela autodestruição por meio da poesia; ao contrário de Euclides, no entanto, sua poesia esteve alheia à Guerra do Contestado (1912 – 1916). Foi em prosa que o poeta comentou de passagem o prélio fatídico. Governantes e intelectuais, republicanos e positivistas, precisavam de um herói-mártir, que simbolizasse o estado (FERRARA, 2007). Quando o corpo de João Gualberto chega a Curitiba, Emiliano Perneta escreve um discurso elegíaco ao herói, condenando os “facínoras” do Contestado.

Neste sentido, foi o talento de Perneta que iniciou a criação da Curitiba utópica. Se os missais republicano-positivistas de Silveira Neto e Dario Veloso apontavam para celebração do Belo, sem necessariamente ser Bom ou Verdadeiro, o Ilusão de Perneta apresentava as consequências das práticas seculares: o prazer leva ao tédio; o culto à beleza ao niilismo; sem o verdadeiro, o mundo torna-se sonho. Por isso, acredita-se que a ética e a política racionalista podem aperfeiçoar o homem e a sociedade. Considera-se que o sujeito possibilita a estrutura da realidade, não o contrário. A falha tanto na razão quanto na estrutura mesma da realidade passa a ser vista como passível de aperfeiçoamento, quando não passa de uma limitação humana.

Como aconteceu em Canudos, ideologicamente nossos positivistas republicanos acreditavam que o Contestado não era só uma resistência monarquista, mas um índice de atraso mental e um exemplo de superstição fetichista nociva ao progresso do país. Por mais alheio que possa ter sido, o que os intelectuais chamavam de nefelibata, mas que o povo chama cabeça de vento, Emiliano Perneta é o melhor representante dessa estetização (falsificação) da realidade.

Apesar das deficiências, Ilusão é o melhor exemplo do gosto artificial que se desenvolveu em Curitiba. Nesse ecletismo confluem as florações do Art Nouveau, estética do simbolismo e do decadentismo, segundo PAES (1985), o Art Déco, na expressão apolínea e na simplicidade helênica dos versos, e por fim nos ornatos regionais. Neste sentido, a poesia de Emiliano Perneta é como a Coluna Paranista de João Turin, saldada em 1929 pelo fascismo na Revista Ilustração Paranaense [2].

O retorno do filho enjeitado

A maior poesia satírica brasileira é de Gregório de Matos (1636 – 1696) e de Emílio de Meneses (1866 – 1918). Embora as sátiras do poeta curitibano sejam direcionadas a figuras célebres da época, como políticos, militares e eruditos, o que leva o leitor a recorrer a notas, Meneses sempre esteve em conflito com os grupos de intelectuais. Vejamos o soneto:

O PLENIPOTENCIÁRIO DA FACÚNDIA

De carne mole e pele bambalhona,
Ante a própria figura se extasia.
Como oliveira — ele não dá azeitona,
Sendo lima — parece melancia.

Atravancando a porta que ambiciona,
Não deixa entrar nem entra. É uma mania!
Dão-lhe por isso a alcunha brincalhona
De paravento da diplomacia.

Não existe exemplar na atualidade
De corpo tal e de ambição tamanha,
Nem para a intriga igual habilidade.

Eis, em resumo, essa figura estranha:
Tem mil léguas quadradas de vaidade
Por milímetro cúbico de banha.
(MENESES, 1980. p. 87.)

A personalidade alvejada é Manuel de Oliveira Lima, diplomata e historiador, membro fundador da ABL. Quando Emilio candidatou-se para a Academia Brasileira de Letras, tal animosidade, gerada pelo soneto, fez com que Lima publicasse um artigo em O Estado de S. Paulo, em 14 de julho de 1914, manifestando a “opinião desfavorável à entrada de um boêmio na casa de Machado de Assis.” (MENESES, 1980, p. 425)

Graças à sua verve, Meneses é um daqueles típicos poetas cuja obra confunde-se com a lenda. Foi uma dessas histórias incríveis que motivou o poeta Glauco Matoso no seguinte soneto:

SONETO 328 GORDO

Emílio de Meneses aproveita
a lenda de seu porte arredondado:
Com brilho, trocadilhos tem bolado,
e às vezes os limites não respeita.

De bonde viajando, certa feita,
sentou no mesmo banco, lado a lado
com outro tipo gordo avantajado,
mas tanto peso o assento não aceita.

“Primeira vez que vejo”, disse, “um banco
quebrando, não por falta, por excesso
de fundos!”, no seu tom jucundo e franco.

Sem dúvida, o segredo do sucesso
do gordo é não deixar passar em branco
a chance de gozar seu próprio sesso…
(MATTOSO, 2015. s. p.)

A boemia carioca era o contrário da institucionalização. Fundada a Academia Brasileira de Letras, os conflitos passaram a ser resolvidos como uma ética de boa vizinhança. Segundo Oswald de Andrade, Emilio de Meneses

Destruía paspalhões e mediocridades, mas era até vagamente católico. Em política, por pobres motivos, pertencia à facção do ditador Pinheiro Machado. Suas teorias sobre o verso eram ridículas e, quando declamava a sério os sonetões desengarrafados de seu empolado parnasianismo, tomava a languidez de uma prima-dona de bigodes. E partia a cara de quem piasse contra a sua impoluta versificação. (ANDRADE, 1976. p.76)

No entanto, Oswald não sabia que a ideologia pelo qual militava era apenas outra forma de totalitarismo: o nazismo era socialismo nacionalista; o comunismo, socialismo internacional (OVERY, 2009).  No entanto, o desejo e a repulsa pelo poder, que representam um paradoxo na vida e na poesia do Emilio de Meneses, não teriam acontecido em Curitiba. Como Perneta, Meneses era um hedonista. Entretanto, mesmo sua lírica parnasiana, faceta menor do poeta, poderia frutificar em sua cidade natal; em Curitiba sua sátira nunca teria vingado. As instituições, as auras mística e encomiástica, que nos legaram Dario Veloso e Emiliano Perneta, representam a preservação da aparência do Belo, em detrimento do Bom e do Verdadeiro.

Emilio de Meneses costuma ser arrolado como poeta curitibano, contudo, tivesse participado assiduamente dos grupos intelectuais da cidade, teria sido tão ferino com seus conterrâneos? Essa intelectualidade, que o tem idolatrado meramente como esteta, teria levado a sério sua crítica moral?

A sátira amoral causa graça, mas não fere. Domesticada, enrolando-se no ventre da conveniência, é uma serpente sem veneno. Em vida, Emilio de Meneses fora incômodo; morto em 1918, a despeito dos acadêmicos curitibanos, somente em 1927, graças à parte dos intelectuais modernistas que aproveitaram a verba arrecadada no evento da Primeira Semana Paranaense do Livro, seus ossos foram transladados para Curitiba. Por causa dessa situação ridícula, criticando a Academia Paranaense de Letras, fora publicado o seguinte poema com pseudônimo, provavelmente escrito por Rodrigo Júnior:

[…]
Perdoe, pois, o instituto
Dos sábios desta cidade,
Se indago, deste reduto
– Qual é a sua utilidade?
Foi lastimosa a evasiva
Da preclara academia
A honra da iniciativa
Só mesmo a ela cabia.
Aguardar de outros, a “deixa”,
No que lhe cabe fazer,
É prova que se desleixa
Desculpas não pode ter;
Volte atrás, que isto está torto,
Promova sem mais tardar,
Que os ossos do grande morto,
Venham aqui repousar!
(IORIO, 2004. p. 5)

O poço

Assim como Emilio de Meneses, Tasso da Silveira (1895-1968) participou da intelectualidade curitibana mais política do que poeticamente, embora ocupante de uma das cadeiras da Academia Paranaense de Letras, ao lado de seu pai, Silveira Neto, e do mestre dos moços, Dario Veloso.

LEIA MAIS  Nenhum mistério

Tasso da Silveira liderou o Grupo Festa, no Rio de Janeiro, ao lado de Cecília Meireles e Andrade Murici, fundamentando um modernismo espiritual e universalista, contrariando as demais correntes modernistas. Nas palavras do próprio poeta:

Os do “Grupo de Festa”, em verdade, criaram, em face das duas correntes modernistas então em atuação, a dos primitivistas de São Paulo, e a dos dinamistas do Rio, uma terceira corrente, de caráter espiritualista, a qual recebeu da crítica a qualificação de “tradicionalismo dinâmico” e mostrou corresponder melhor do que as duas primeiras ao verdadeiro sentido do espírito criador em terras do Brasil. (SILVEIRA, 1953. p. 19-27.)

Inimigos do grupo formando na Academia Paranaense de Letras, a ausência de atuação poética de Tasso da Silveira na cidade era criticada pelo grupo modernista/futurista curitibano. Segundo Alceu Chichorro:

Só mesmo tendo arranjado uma deputação, o Sr. Tasso se lembraria do Paraná, pois a não ser para elogiar, e ser elogiado pelo mesmo círculo vicioso e viciado, o jovem homem de letras só se tem preocupado, até aqui, com a mentalidade de seu pai Silveira Neto, Andrade Muricy e Nestor Victor, falando muito vagamente de Rocha Pombo ou de Emiliano Perneta, aliás todos compadres do bicudo Tasso, ou do Sr. Vieira Neto.

O que é fato é que o Sr Tasso nunca se dignou de falar do Paraná, quanto mais dos nossos artistas. (IORIO, 2004, p. 217)

As críticas eram um misto de combatividade e ressentimento, que ambos os grupos nutriam mutuamente. Enquanto em São Paulo, os modernistas davam andamento à Semana de Arte Moderna, com a fundação da Academia de Letras do Paraná (dissolvida em 1930 e recriada 1936), em Curitiba iniciava-se o embate entre acadêmicos e futuristas/modernistas, tão logo a é recriada, os modernistas empossam-se. Desta disputa podemos retirar alguns apontamentos. Os jovens futuristas tinham razão em criticar o conluio de políticos e intelectuais, acusando os acadêmicos de defender apenas uma imagem de tradição. Os acadêmicos, por outro lado, tinham razão em apontar os excessos daqueles vanguardistas que idolatravam Lênin e Mussolini.

Afora a inveja, em parte Chichorro estava certo. Pouco afeito a essas disputas, embora a cidade também fizesse parte de sua lírica, não como ideologia paranista, mas como memória afetiva, havia duas preocupações maiores para Tasso da Silveira: o posicionamento católico em relação ao avanço do secularismo [3] e o indivíduo diante do Mistério.

FRONTEIRA

Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa…
Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição…
(GOMES, s. d.  p. 11.)

Nesse sentido, embora admirado, Mario de Andrade estava certo em criticar o poeta por querer ser “bem comportado” para “acertar no certo.” (ANDRADE, s. d. p. 194) Poeta de tradição metafísica, como Jorge de Lima (1893 – 1953) e Alphonsus de Guimaraens Filho (1918 – 2008), Tasso da Silveira tinha uma concepção de tradição semelhante à de T. S. Eliot (“a conversação dos mortos”), a qual veio a influenciar grandes pensadores como Russell Kirk (KIRK, 2011). No livro Puro Canto (1956), no X dos “Sonetos antigos”, o poeta diz:

Velho Mestres: Camões, Petrarca, Dante,
Ronsard, Verlaine, Cruz e Sousa, Antero:
Por ser, em sonho e dor, dos vossos, quero
Vosso rumo seguir, daqui por diante.

Dai-me o fúlgido e claro reverbero,
De vossa arte à minha arte bruxuleante,
Para que a mágoa em que me dilacero
Alta, serena, imortalmente eu cante.

Que importa o filão novo da beleza?
O que vale é a corrente viva, acesa,
Da tremenda amargura milenar.

É o soluço de tudo quanto existe,
A ânsia sem fim, cuja lembrança triste
Coube aos pobres poetas perpetuar…
(SILVEIRA, 1956, p. 98.)

Entretanto, se para T. S. Eliot (1888- 1965) a tradição era uma dinâmica entre as coisas permanentes transmitidas entre os mortos, os vivos e os que nascerão, o catolicismo de Tasso cochilou na contemplação do passado, não reconhecendo o ressentimento e os erros do grupo simbolista, do qual seu pai fora fundador, nem combateu o positivismo e as teorias raciais, tampouco conseguiu, em seu tempo, deixar de apoiar o projeto totalitarista de Plínio Salgado (MARTINS, 2003), ou mesmo de envolver-se na estranha troca de favores entre acadêmicos e políticos: o poeta Tasso da Silveira torna-se deputado (GOMES, s. d. p. 13); o político Afonso Camargo é eleito para a Academia Paranaense de Letras.

Discutia-se na Academia a escolha de novos acadêmicos. Procurava-se uma fórmula para que se pudesse aproveitar todos os membros do governo atual. […]

Uma das condições essenciais era a de que o escolhido não fosse literato, não tivesse nunca perdido o tempo com essa baboseira de literatura e de arte, que não houvesse nunca castigado uma frase, que não houvesse nunca trabalhado um pensamento. Era preciso, porém, que apesar disso tudo, entre o indicado e a literatura houvesse um traço qualquer de aproximação, principalmente e de algum parentesco com algum intelectual ou acadêmico. […] Não convinha. Era capaz de querer fazer algum dicionário lá dentro. (RITZ, 1928, p.1.)

Não obstante essas faltas do homem, num tempo como o nosso, em que o pensamento coletivista impera, sufocando o indivíduo, relativizando as escolhas e reduzindo à Beleza à mediocridade, a poesia de Tasso da Silveira, embora “bem comportada” e intelectualizada demais, continua sendo como a voz que clama no deserto:

A carne é poeira. A alma é sombra.
Mas, ao fundirem-se, dão
o Homem, ser de luta e sonho,
dor, amor, adoração.

Porque (notai a subida
sandeus, ateus, fariseus)
carne é poeira, mas de vida,
alma é sombra, mas de Deus…
(SILVEIRA, 1956, p. 78.)

Os dispêndios do espólio

Poeta também de concepção essencialista, mais participativo, no entanto, da poesia curitibana foi Rodrigo Júnior (pseudônimo de João Carvalho de Oliveira, 1887 – 1964). Apoiando os grupos de jovens futuristas e modernistas curitibanos, em resenha ao livro de verso de Ada Macaggi, o poeta apresenta sua concepção de poesia:

É bom que a cantora de Vozes Efêmeras leia e estude não só os versistas modernos como também les maitres d”autrefois […]

Se outros, mais velhos, mais apetrechados de cultura, na sofreguidão de “renovarem” a sua arte (haja vista Guilherme de Almeida) naufragaram nos abrolhos do artificialismo pueril, que poderá fazer uma poetisa insipiente, ainda que talentosa, no escarpado cultivo de uma arte de que não é ainda senhora absoluta?

A “renovação estética” tão apregoada por Jurandir Manfredini (que ainda não a exemplificou no terreno literário) é muito boa para os poetas feitos… e assim mesmo deve obedecer ao equilíbrio da lógica e ao claro juízo artístico, sob a pena de caírem os seus adeptos nos domínios das extravagâncias e do ridículo. (JÚNIOR, 1927, p.2.)

Apesar de ter publicado em livro uma produção bem mais modesta do que a de Tasso da Silveira, Rodrigo Júnior, publicando, entre outros, Estrela D’Alva, Torre de Babel, Cânticos e baladas (poesia) e Um caso fatal (prosa), foi talvez o poeta que mais contribuiu em longo prazo para a poesia curitibana.

A herança poética de Tasso termina na melhor poesia religiosa de uma poeta menor como Helena Kolody (1912 – 2004). Neste sentido, o cancioneiro memorialístico, como em “O poço” de Silveira, faz-se sentir em “Reminiscência”; um belíssimo poema como “Cruz”, de uma imagética admirável, encontrará ecos em “As obras de misericórdia”, poema que  transmite a sensação de escrita de olhos fechados.

Gozando de prestígio entre os grupos de intelectuais como Tasso da Silveira e futuramente Paulo Leminski, o carisma de Kolody deu-lhe fama. Talvez por ser professora, ela tenha apostado na poesia didática, gênero difícil, praticado perfeitamente por um Horácio e um Goethe. No entanto, no caso de Helena, esse gênero beira o lugar-comum. Em “Igualdade essencial”, ela reproduz a moral socialista; em “Marumbi”, o discurso falacioso do “bom selvagem” de Rousseau. Nos sonetos, a metrificação parece de principiante, principalmente no manuseio do alexandrino. Não é incomum o uso da adjetivação dupla como mero complemento de rima, fechando a quadra. É como calçar com um tijolo um pé quebrado de sofá.

Não sei se por insciência poética ou devido a grupos de bajuladores que nunca lhe alertaram, mas embora em sua poesia predomine a imagem, os títulos dos livros evocam um maior trato musical, mesmo os momentos mais pessoais e de maior beleza, como no melhor poema que escrevera, “Pêndula”, cujos deca e dodecassílabos são enxutos e finalmente precisos:

Vão demolir o casarão da esquina:
A casa antiga, ornada de volutas,
Folhas de acanto na fachada, em frisos,
A sacada uma renda em ferro azul,
E a cascata de mármore da escada.

Móveis de estilo nos salões, galas de outrora,
grandes espelhos, porcelanas, alabastros.
Pêndula preguiçosa e demorar o tempo.
Gotas de luz do carrilhão cantando as horas.

No casarão vazio, acordam os fantasmas
dos que viveram no aconchego da lareira,
dos que dançaram sob a luz dos candelabros
e usaram linhos e baixelas e cristais
e finos gestos de olvidada cortesia.
(KOLODY, 2015, p. 68.)

Por outro lado, a herança da poesia regional de Rodrigo Júnior foi Dalton Trevisan (1925 -). Extremamente cuidadoso com a escrita, empreendedor literário [4], obstinado reescritor, menos feliz cultor de uma poesia amorosa do que da circunstancial, belo sonetista, Rodrigo Júnior acompanhou a história da poesia curitibana, da coroação de Emiliano Perneta ao surgimento das revistas Tinguí (1940 – 1943), na qual publicou resenha, e a Joaquim (1946 – 1948), do jovem Dalton Trevisan, que em 1941 publicara seu primeiro livro Sonetos tristes, ao gosto do mestre (NETO, 1998). Num dos poemas mais pungentes jamais escritos, não sobre uma cidade ideal, mas sobre o sentimento amoroso do poeta, Rodrigo Júnior pinta um quadro perfeito da vida provinciana:

CENAS DA PROVÍNCIA
A Nestor Vitor

A tarde pela praça a multidão vulgar
Anda flanando ao som da banda militar,
E as árvores, na paz do domingo vadio,
Não deixam escapar sequer um murmurio.
As Julietas ideias, em pressurosos bandos,
Aos pálidos Romeus deitam olhares brandos,
Com sorrisos gentis de loureiras hipócritas
Sob olheiras sensuais, quase todas cloróticas…
É a hora mais ardente e em que mais movimento.
Parece que a cidade abre o olhar um momento,
Acorda-se e boceja antes de adormecer.
E Curitiba aflui ali com que prazer!
De tudo se entrevê naquela multidão:
O janota simplório, o janota D. João,
E toda a corja vil da alta sociedade
– Graças de cortesã e bandulhos de abade…
Crianças virginais perdem ali o decoro
Enquanto o exemplo salaz do cínico namoro,
Enquanto o velho sol se vai gloriosamente
No smorzando da cor, na apoteose do poente,
Rolando para a extrema-unção crepuscular.
Oh, tarde feita só para a gente sonhar!
Como seria bom ao longe, numa vila,
Envolta em solidão, bucólica e tranquila,
Na agonia da luz, em que há um longo queixume,
Haurir-te a suavidade, aspirar-te o perfume,
E ouvir, como se fosse a voz de harpas eólias,
O vento entre o sutil aroma das magnólias!

Mas a vaga mundana, esse povo basbaque
Em que há velhas de cuia e sujeitos de fraque,
Belezas de carmim e seios de encomenda,
E em que os pais como expõem os mascates à venda
O diamante de um brinco ou um corte de vestido,
As filhas vêm expor para pescar marido;
A enxurrada de toda essa gente banal
Rola sempre, ao clamor de dobrado marcial,
Com um ar de quem está a se divertir bastante,
Mas no íntimo a achar tudo aquilo maçante,
De um extremo da praça a outro extremo da praça.
De vez em quando, ao soar do guizo, um bonde passa…
Uma tristeza atroz cai sobre as coisas. Tudo
Sente descer do espaço impassível e mudo
O asfixiante horror do tédio provinciano.
Numa casa afastada ergue-se a voz de um piano
A gemer numa valsa art-nouveau, muito piegas,
Que uma jovem mulher vai estropiando às cegas
Sem saber o que faz, assassina frenética…
De súbito, porém, fulgura a luz elétrica
Espancando a penumbra em que a praça jazia,
E a multidão dispersa aos poucos, erradia.
A campainha febril dos cinemas então
Começa a retinir, chamando a multidão,
O burguês que com a esposa e as filhas lá vai, sério,
Ver sem corar, alegre, as fitas de adultério,
As cenas imorais de exemplo edificante,
E a cantora que, ao som de uma ária saltitante,
Já rouca, uma canção canalha garganteia
E atira a perna ao ar com aplausos de plateia.
Àquela hora, no entanto, ao longe, pelos campos,
Entre fosforecência áurea dos pirilampos,
Sob o ideal misticismo e a vasta claridade
Do céu que sonha envolto em sua tranquilidade,
Inda o grito do peão de quebrada em quebrada
Ecoa, recolhendo a morosa boiada…
E enquanto o azul na sombra aos poucos se estreleja,
Na rede embala o filho a voz da sertaneja,
Num tom sentimental repassado de mágoa,
Cantando uma canção tão simples e tão pura,
Que cheia de encanto tal, cheia de tal doçura,
Que só da gente a ouvir se enchem os olhos d’água.
[1912]

Não se pode saber por que Trevisan abandonara os versos, embora não a poesia; é certo que sua poética do arremedo deve-se muito à poesia circunstancial de Júnior. Talvez a fuga do Vampiro tenha tido uma razão mais plausível: por conhecer muito cedo os grupos e agremiações (chamadas pejorativamente de “igrejinhas”), onde aconteciam saraus de “mútua bajulação” (TERÊNCIO, 1922, p. 2.), a invenção da realidade e do homem, a criação de revistas e jornais, o fascínio pelo poder e o ressentimento, as transações entre potentados e intelectuais, como na condecoração de Getúlio Vargas, feita pela intelectualidade curitibana, em 1930, a criação de leis de incentivo que nivelavam a arte pela mediocridade, tudo isto que desde os simbolistas contribuíra para uma espécie de peste poética que assola a cidade.

O demônio no meio do redemoinho

Paulo Leminski (1944 -1989) realizou seu desejo post mortem: tornou-se linguagem. Quem estiver comprando no Mercado Municipal em Curitiba pode se deparar com um verso gratuito do poeta. A edição da sua obra lírica, Toda a Poesia, tornou-se um fenômeno de vendas, principalmente se tratando de poesia. Talvez porque sua lírica seja divertimento, mas não reflexão. O mais certo é que esse fenômeno tenha se dado pela moda “hipster”. Depois de declarações (AMARANTE, 2009) do cantor e compositor Rodrigo Amarante, do grupo Los Hermanos, os jovens têm deixado a barba crescer, bebido Bloody Mary e lido Paulo Leminski. Portanto, sem descrédito, é um produto da cultura de massa.

As traduções de Leminski ainda carecem de reedição. As biografias que escreveu são eivadas de anacronismos, por vezes – como dizer? – licenças poéticas. Leminski queria fazer com Cruz e Sousa o que o teórico do formalismo russo Roman Jakobson fez com Edgar Allan Poe. O Jesus leminskiano é uma personagem encomendada pela Teologia da Libertação, espécie de resgate ideológico de um Jesus comunista. Em sua ensaística não há nada sob o sol; tudo são vaidades das vanguardas. Embora apresente engenhosidade e um talento inato para os jogos de palavras, o que só gerou epígonos, nunca herdeiros, o conjunto lírico de Paulo Leminski é poesia de brinquedo; nunca acenaria a uma pergunta existencial como a de Heidegger: “Warum ist überhaupt Seiendes und nicht vielmehr Nichts?” Por que existe algo em vez de nada?

Entre concretistas, cultores da poesia “alternativa”, como ele acertadamente chamava a poesia “marginal”, e músicos baianos, a necessidade de sentir-se parte dos grupos foi um empecilho à maturação lírica de Leminski. Na carta 8, remetida a Régis Bonvicino, Leminski sempre esperou maior reconhecimento em relação aos concretos, principalmente Augusto de Campos.

passei muitos anos de olhos voltados para S. Paulo
para o grupo Noigandres
para Augusto, principalmente
escrevendo para eles
preocupados em saber O QUE ELES IAM ACHAR
nessa época eu era “concretista”
[…]
Augusto nunca foi muito claro comigo acerca do q[ue] ele achou do
Catatau produto final
[…]
décio se refere ao Catatau falando em “monolito”, “é uma boa”,
coisa assim
haroldo, de haroldo nunca ouvi nem uma palavra
mas eu seu sei tenho certeza que era O MEU MELHOR […].
(LEMINSKI, 1999, p. 44)

Ao considerar-se como um neófito puro, uma vez que nascera concretista, Paulo Leminski confessa seu ressentimento. A importância do Concretismo para a poesia brasileira está sobretudo nas traduções. Os concretos foram os únicos que conseguiram traduzir para o vernáculo a poesia de Sousândrade!

Embora a edição da sua obra lírica, Toda a Poesia (LEMINSKI, 2013), tenha se tornado um fenômeno de vendas, o ponto mais alto da poética de Paulo Leminski (1944 -1989) está no “romance experimental” Catatau (1975), dedicado aos concretos, onde o poeta apresenta a origem do pensamento utópico no Brasil e o conflito ideológico na poesia.

O romance é na verdade um desenvolvimento do conto “Descartes sem lentes” (1966). Tendo como fonte o livro de Gaspar Barléu (1584-1648), segundo o qual a língua latina (língua da civilização) marcava a confiabilidade das relações entre portugueses e holandeses durante as invasões holandesas, Leminski imaginou a vinda do filósofo racionalista francês René Descartes (1596-1650) para o Brasil.

Assim como o demônio surge no redemoinho, no Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (1908 -1967), no texto de Leminski, Occam (alegorização da lógica de Guilherme de Ockham) atormenta a linguagem. Renatus Cartesius (nome latino do filósofo) inala cannabis e passa a enxergar a realidade brasileira ampliada. A alegoria das “lentes” e do “binóculo” é, ao mesmo tempo, o cachimbo e o método cartesiano. A perplexidade do filósofo francês está em não conseguir reduzir a realidade complexa em seu método.

O racionalismo cartesiano embasa o pensamento revolucionário. O método ideológico separa o “eu” da estrutura da realidade, simplificando a complexidade do mundo. Ao contrário de Santo Agostinho, para quem a estrutura da realidade e o “eu” só existem por graça de Deus, René Descartes cria um “eu pensante” (“Cogito ego sum”: Penso logo existo, ou no trocadilho de Leminski “ergo”: logo). A partir disso, através da redução da estrutura da realidade (a Navalha de Occam) ao método científico, muitos filósofos acreditarão poder aperfeiçoar o mundo.

Occam deixou uma história de mistérios peripérsicos onde aconstrece isso monstro. Occam, acaba lá com isso, não consigo entender o que digo, por mais que persigo. (LEMINSKI, 2004, p. 24.)

Embora Leminski negue-lhe existência “real”, esse monstro é a própria confusão racional. Em nível simbólico, o Descartes leminskiano diz que Occam (a ideologia) está na linguagem, enquanto Artyczwsky (Arte, artifício, artimanha) só surge quando embriagado. É a origem mesma do pensamento revolucionário. Esta lógica reducionista embasou o fascismo, o nazismo e o marxismo. Talvez esta sombra que perturbara Descartes fosse a mesma que incomodava Leminski, de estudante beneditino a marxista, ansioso em compactuar do prestígio do grupo concretista. Talvez o fantasma que passou a perturbar a poesia brasileira, sob os nomes de poesia participativa, social, engajada e alternativa.

Seja como for, a poesia é o contrário da ideologia. Na lógica de Occam, a complexa estrutura é reduzida ao método, seja sociológico, histórico ou político. A poesia apresenta a contemplação da experiência profunda da vida, em toda a sua complexidade e ambiguidade, por meio de uma linguagem sensível, transmitindo, portanto, a sensação de algo experimentado ou imaginado. Como diria um ideólogo, embora belo poeta, como Octavio Paz, na poesia: “As plumas são pedras, sem deixar de ser plumas.”

A contemplação do abismo

Os intelectuais curitibanos são mitificadores e mitificados. Foi o caso do afastamento do professor Dario Veloso do cargo em 1909, fato noticiado pelos jornais curitibanos, mas que a história acabou consagrando como uma espécie de heroísmo – como no fatídico filme com a imagem do mestre sendo carregado nos ombros dos pupilos, mas neste o mestre teria sido recebido com uma “chuva de pétalas de rosa” – quando, na verdade, Dario Veloso, redator da Assembleia Legislativa e professor de História, atormentado pelas teorias gnósticas, propunha, consoante ao pensamento ocultista, uma concepção histórica com base na analogia, espécie de recriação sensitiva dos fatos ocultos. A intervenção dos alunos deu-se mais em relação à simpatia do poeta do que por causa da verdade professada. A intelectualidade curitibana só aproveita o que é agradável. Só bebem a sátira de Emílio de Meneses depois de complemente esterilizada do veneno moral. Segundo Dalton Trevisan:

Bem dizia Emílio de Meneses que só depois de morto podiam enterrá-lo no Centro de Letras do Paraná. É o divertimento das nossas viúvas alegres. À sombra de alguns mortos dignos de respeito, querem fazer a sua vida em literatura… (Vida Literária, 8 de junho de 1951).

Quebrada a imagem de Emiliano Perneta, outros simulacros passaram a ser modelados. É o processo de mitificação pelo qual passa Paulo Leminski cuja imagem está sendo incensada como gênio incompreendido, polivalente etc. A verdade é que Leminski sempre foi fascinado pelo sentimento de grupo e pelo pensamento coletivista. Ressentido com o silêncio concretista, depois de enviar o Catatau como carta de recomendação, Leminski buscou nas parcerias musicais um novo grupo, abandonando, ainda em gérmen, uma obra abatumada. Aliás, mesmo se Catatau tivesse sido escrito antes do Finnegans Wake, de Joyce, seria somente mais um romance macarrônico. Como foi publicado depois, pode até passar por “experimental”, “alternativo”.

Embora seja o melhor feitio de Leminski, Catatau é um pacote de biscoitos da sorte. Mas quem confia nos valores da embalagem morre de fome, a não ser que idolatre efeitos de letra. Uma vez que Artyczwsky e Occam não são Ariel e Caliban, a validade textual deve advir de uma leitura simbólica, rigorosamente justificada. E como ninguém é uma cabeça alada de anjo, como dizia Arthur Schopenhauer, o contexto histórico e filosófico, a cosmovisão do autor e o espelho do texto, são as balizas mais precisas para uma interpretação minimamente honesta.

A despeito disso tudo, nas entrevistas os intelectuais conterrâneos continuam engrolando a mesma fala ideológica e utópica, coisas como: o que caracteriza a literatura curitibana é o “clima”, a “atmosfera”, a descontinuidade do “estilo”, a “formação étnica”, no vislumbre marxista de Leminski, e a chamada “cena curitibana”, eis o transbordamento da superficialidade. Embora compartilhem em maior ou menor grau de poéticas, de formas fixas ao poema em prosa, da lírica à anedota, do verso livre à ironia, embora mais versados em línguas estrangeiras do que no vernáculo pátrio, avultados tradutores, os poetas contemporâneos acabam caindo na mesma armadilha. Longe da sedução dos grupos, da promiscuidade dos potentados, de bolsas e propinas partidárias, cargos catedráticos e leis de incentivo, do esteticismo estéril e do niilismo insano, da vaidade das vanguardas e do ressentimento dos dissidentes; fiéis à sua liberdade interior, sem apetrechos pedantes e lentes ideológicas, a poesia curitibana será tão maior quando os poetas contemplarem amorosamente além do abismo da existência.

——

nota do editor: a última parte deste ensaio sofreu uma mudança substancial. o texto original pode ser lido aqui.

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[1] Cf. CUNHA, Martim Vasques. Três princípios em conflito. In CUNHA, Martin Vasques. A poeira da glória. Uma (inesperada) história da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Record, 2015, pp. 89-99.

[2] “Como o Duce [Mussolini] concebeu uma novíssima coluna para a Arquitetura da Potência Fascista, assim João Turin soube encerrar a majestade e a significação do pinheiro de sua terra em coluna e motivos arquitetônicos verdadeiramente originais. (…) A característica principal na nova coluna é o capitel concebido como uma coroa de Pinhas, sobrepondo-se a um ricomotivo sobre pinhões estilizados à maneira dos óvulos do estilo Jônico.” MAMMALLELA, 1929, p. 2)

[3] “O secularismo é a visão segundo a qual toda a realidade é de natureza física e consiste em alguma configuração da matéria e da energia, e que a ciência é a chave para compreender essa realidade (às vezes, essa visão também é chamada de naturalismo pelos filósofos).” (SWEETMAN, 2013, p. 15.)

[4] Como o projeto de publicação de literatura regional A novela Mensal, posteriormente A novela Paranaense, com o jovem modernista Sá Barreto e o paranista Raul Gomes, em 1925.

[5] POZZO, Ricardo. Alvéolos de Petit Pavê. São Paulo: Patuá, 2015, p. 34.

[6] GOMES, Homero. Solidão de Caronte. São Paulo: Patuá, 2013.  p. 51.

[7] MADEIRA, Rodrigo. pássaro ruim. Curitiba: Medusa, 2009, p. 15.

[8] SANTANA, Ivan Justen. 64 peças. Dezoito zero um: Curitiba, 2015, p. 50.

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Wagner Schadeck

Nasceu em Curitiba, onde vive. É tradutor, ensaísta, editor e poeta. Colabora com a Revista Brasileira (ABL), com a Revista Poesia Sempre (BN) e com os periódicos Cândido e Rascunho. Em 2015, organizou a reedição de A peregrinação de Childe Harold, de Lord Byron, pela Editora Anticítera.