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Ler Sade é entrar em contato com os limites da imaginação humana, mais especificamente, com os limites da imaginação humana para o mal.

Geoffrey Rush como Sade, em “Quills” (2000)

Em 1955, Simone de Beauvoir perguntava se deveríamos queimar Sade. Apesar de a pergunta ter um quê de retórica, ela ainda é atual. A obra de Donatien Alphonse François de Sade não apenas vem assombrando moralistas e conservadores de várias estirpes há mais de dois séculos — tendo sido, inclusive, confinada aos “infernos” das bibliotecas francesas —, como também tem se revelado indigesta à boa consciência progressista contemporânea, orientada pelos critérios do politicamente correto.

Ao longo do século XX, a obra de Sade encarnou como nenhuma outra o princípio da transgressão na literatura e na cultura, servindo de aríete contra os fundamentos remanescentes da moral vitoriana e suas raízes cristãs. No contexto da “revolução dos costumes”, representou a libertação do indivíduo por meio da afirmação de um desejo soberano contra as limitações de uma ordem social conservadora. Sade foi cooptado pelas vanguardas e pela contracultura; tornou-se assunto dileto entre psicanalistas e pensadores pós-estruturalistas. Até mesmo marxistas dele se utilizaram como símbolo de combate à moral burguesa.

Contudo, em pleno século XXI, quando muitas das reinvindicações dos movimentos de emancipação do indivíduo foram atendidas e o modelo de normatividade comportamental vem sendo continuamente flexibilizado, ainda convém ler Sade, mesmo que suas ideias afrontem os valores que constituem nossa compreensão da dignidade humana? Faz sentido ler Sade no contexto da luta pelos direitos humanos? Se a resposta for positiva, resta outra questão: por quê?

Sempre há a resposta literária: a obra sadeana mereceria ser lida por suas qualidades estéticas. Contudo, nem todos — mesmo entre aqueles que se dedicaram a estudá-la — parecem estar de acordo em relação a isso. O escritor francês Boris Vian chegou a afirmar: “A meu ver as obras de Sade estão no limite de merecerem o nome de literatura. (…). Se é que há alguma literatura, é de má qualidade e por isso me atrevo a dizer que a interdição a Sade pela lei só pode se justificar em nome da literatura; digo-o porque cheguei ao ponto ao qual me referi agora há pouco: não podemos classificar as obras de Sade como literatura erótica porque é impossível classificá-las como literatura. Pessoalmente, me sentiria tentado a classificá-las sob a rubrica ‘filosofia erótica’ (…)”.

Simone de Beauvoir, no ensaio de 1955, diz o seguinte: “Sade estabeleceu sistematicamente, de acordo com as receitas de uma espécie de arte combinatória, um repertório das possibilidades sexuais do homem (…). Não só conta coisas demais, como na maioria das vezes conta mal. Seus relatos se parecem com as gravuras que ilustram Justine e Juliette na edição de 1797: a anatomia e as posições dos personagens são desenhadas com um realismo minucioso, mas a serenidade monótona e desajeitada dos rostos torna perfeitamente irreais suas horríveis bacanais”.

Outros testemunhos não mais abonadores a respeito da técnica literária de Sade poderiam ser arrolados, mas, por ora, deixemos por isso.

Se a obra sadeana ainda mantém algum interesse, não devemos procurá-lo no âmbito puramente formal. Será, então, que devemos atribuir a razão do fascínio exercido por Sade à dimensão filosófica de suas narrativas, em que se destaca um materialismo irredutível contra a voga do idealismo sentimental em certa vertente da literatura e da filosofia iluministas? Também não parece estar aí a origem do interesse que os textos do Divino Marquês lograram despertar entre tantos leitores no século XX. Nenhuma análise sob perspectiva estritamente filosófica seria capaz de justificar o relevo que Sade acabou atingindo; afinal, segundo Beauvoir mais uma vez, “filosoficamente, [sua obra] só escapa à banalidade para afundar na incoerência”. Ao fundo e ao cabo, a filosofia de Sade é pouco mais do que um arranjo incongruente de ideias de seu tempo, afirmadas de maneira tão radical que trespassam, por vezes, o limite do paródico.

O que atrai tantas pessoas à literatura de Sade é sua natureza transgressora, tanto no que se refere à projeção vertiginosa dos produtos sórdidos da fantasia humana quanto à maneira como seu chicote filosófico pretende fustigar, um século antes de Nietzsche, os valores mais caros à civilização ocidental. Em suma, o que assombra no autor de Justine ou os infortúnios da virtude é sua negatividade crítica, que não encontrava paralelos na literatura de então nem de outrora. Todavia, nestes tempos de relativismos pós-modernistas e nos quais é possível encontrar na internet um repertório infindável de imagens gore e porn, a literatura sadeana perde muito de seu poder de choque, ainda que continue forçando os limites do cânone literário ao introduzir nele temas que, por muito tempo, foram considerados indignos da “alta literatura”.

Enfim, a pergunta que move este ensaio — um tanto pretensioso, confesso — é a seguinte: qual é a atualidade da obra de Sade?

Comecemos pelo aspecto mais óbvio da questão. A literatura sadeana, que se sustenta sobre o “deboche”, pretende-se ultrajante e repugnante. Não há qualquer valor de nossa civilização ou resistência moral que ela não desafie. As narrativas de Sade são um desfile de brutalidades e perversões, costuradas por argumentos tão insólitos quanto provocativos. Devemos ler Sade, então, para aderir à sua visão debochada da existência? Ler Sade é, necessariamente, gozar com Sade? É desfrutar dos prazeres proibidos que sua literatura oferece?

Susan Sontag, defendendo a dignidade literária da pornografia e sua legitimidade como forma de conhecimento acerca da experiência humana — é bom frisar que ela não se refere aos produtos da indústria do “entretenimento adulto”  —, lega-nos o conceito de imaginação pornográfica, que consiste numa exploração radical dos “estados extremos da consciência e dos sentimentos humanos”. Em defesa do estatuto estético das obras pornográficas, ela diz: “(…) a arte (e fazer arte) é uma forma de consciência; seus materiais são a variedade das formas de consciência. Nenhum princípio estético pode fazer com que essa noção de matéria-prima da arte seja construída excluindo-se mesmo as formas mais extremas de consciência, que transcendem a personalidade social ou a individualidade psicológica” (grifo da autora). Uma vez que uma das tarefas da arte seria “conquistar posições nas fronteiras da consciência”, levando-nos a uma aprendizagem sobre nossas virtualidades psicológicas, o artista pornográfico se vê justificado, pois desvela uma zona sombria e inexplorada da psiquê: “Esse discurso, que se poderia chamar ‘a poesia da transgressão’, é também conhecimento. Aquele que transgride não apenas quebra uma norma. Ele vai a algum lugar onde os outros não vão; e conhece algo que eles não sabem”. Ou seja: as obras pornográficas, aquelas que possuem envergadura estética, são capazes de revelar algo de obscuro e verdadeiro sobre nós, mesmo que esse algo seja desagradável ou mesmo abominável.

Partindo de minha experiência individual, posso dizer que ler Sade é entrar em contato com os limites da imaginação humana, mais especificamente, com os limites da imaginação humana para o mal. E, se alguma lição podemos tirar da história, é que tudo o que o ser humano é capaz de conceber, uma vez disponíveis os meios práticos e materiais para sua realização, concretizar-se-á cedo ou tarde. Como não enxergar nas pavorosas orgias do Castelo de Silling (Os 120 dias de Sodoma) um vislumbre de Auschwitz? Como pode um leitor contemporâneo ler a história do cirurgião Rodin (Os infortúnios da virtude) e não antever a figura de Josef Mengele? Não estou dizendo que houve influência da literatura sadeana sobre os carrascos nazistas, mas, sim, que a obra de Sade revela um lado obscuro da psiquê humana sem o qual o Holocausto, por exemplo, seria inconcebível.

Em outros termos, Sade conseguiu enxergar e exteriorizar em palavras, como ninguém antes dele, uma faceta da humanidade que, merecidamente, foi batizada com seu nome: sadismo. Há algo de sádico na natureza humana, sendo que, por tal conceito (um tanto fora de moda por sua a-historicidade), entendo uma série de inclinações impressas em nós por meio da evolução da espécie, que, embora não determinantes do comportamento dos indivíduos, tendem a se manifestar quando as circunstâncias lhe são favoráveis e podem ser reconfiguradas por meio da formação cultural, pois a experiência social também plasma valores e os inculca nos indivíduos à força de processos educacionais. Contudo, esse conjunto de inclinações mantém-se ao fundo de nossa personalidade, em estado de latência. Aliás, determinadas conjunturas sócio-históricas podem, não apenas oferecer as condições ideais para sua manifestação, como intensificar ou neutralizar alguns componentes seus.

Não estou sugerindo que a obra de Sade apresente a verdade integral da natureza humana, pois, com certeza, a capacidade de nossa espécie de sentir empatia e agir colaborativamente está na base de seu sucesso evolutivo. Não somos protótipos de heróis sadeanos, esperando o momento certo para nos revelarmos; nem todos, necessariamente, em determinadas circunstâncias, transformar-se-ão num tiranete sádico — entretanto, alguns de nós, sim. Compondo uma caricatura grotesca, Sade, hiperbolicamente, representa nossa faceta mais bestial, travestida com os modos de uma aristocracia decadente. Em sua obra, nossos instintos mortíferos, desvinculados das necessidades primitivas de sobrevivência e de perpetuação da espécie, tornam-se um fim em si mesmo, pretendendo-se passar, em forma de discurso filosófico, pelo sumo da sofisticação de uma alma em pleno domínio de suas vontades e fazendo coincidir o ápice do Esclarecimento com os extremos da barbárie. É interessante pensar na obra de Sade como um correspondente para a humanidade do retrato de Dorian Gray, mas que, em vez de refletir em sua imagem os crimes já cometidos, reflete também, virtualmente, os vindouros.

O que temos a aprender com tal obra, então? Sade nos mostra que as raízes da humanidade estão mais próximas da alcateia hobbesiana do que do idílio imaginado por Rousseau. Portanto, ele nos ensina que, devido à capacidade quase ilimitada do ser humano em conceber e, sempre que possível, realizar o mal — isto é, satisfazer seus interesses e caprichos a despeito do bem-estar e da integridade do outro —, estão fadados ao fracasso quaisquer projetos de organização política e social que se ancorem no pressuposto de uma concórdia espontânea e universal entre os seres humanos, sejam tais projetos à direita, sejam à esquerda.

O filósofo francês Dany-Robert Dufour, em A cidade perversa, ocupa-se em mostrar como o substrato filosófico da obra de Sade consiste, em muitos sentidos, numa radicalização de princípios que se encontram na corrente de pensamento que desemboca na teoria econômica de Adam Smith, expressa no clássico A riqueza das nações. Smith teria realizado uma leitura “puritana” das ideias contidas n’A fábula das abelhas de Bernard Mandeville, na qual o autor defende que, dos vícios privados, emerge o bem comum. De maneira semelhante, Smith postula que os sujeitos, movidos pelo amor próprio (self-love) e perseguindo seus interesses individuais, geram progresso social. Num trecho de Juliette ou as prosperidades do vício, de Sade, em que se pontifica contra a monogamia e o matrimônio, Dufour identifica ecos das ideias de Mandeville e Smith:

Ó vocês, que se metem a governar os homens, eximam-se de amarrar qualquer criatura! Deixem que ela tome suas providências sozinha, deixem-na buscar ela própria o que lhe convém, e logo haverão de se dar conta de que com isso tudo irá melhor.

Sade nos põe diante da possibilidade de que um mundo de sujeitos movidos exclusivamente por seus interesses e desejos pessoais, sem as limitações impostas por uma força coercitiva externa, resulte na mais brutal e abjeta exploração dos vulneráveis pelos poderosos, mesmo quando a satisfação de um capricho momentâneo possa afetar, a médio ou a longo prazo, a manutenção da ordem social da qual provém os privilégios das classes dominantes. Dito de outra forma, a violência imaginativa da obra sadeana permite colocar sob suspeição a crença na ideia de que, movidos por seus interesses pessoais, os indivíduos necessariamente agirão racional e pragmaticamente, guiados pelo bom senso. A dimensão inelutável do arbítrio humano é um fator desestabilizador para qualquer anseio de previsibilidade quanto ao funcionamento da ordem social. Ademais, a escolha da competição como dinâmica fundamental da sociedade (extrapolando o campo econômico) pode resultar num individualismo intransigente, o que se vê manifesto na cosmovisão sadeana como “isolismo”. Em Juliette:

Todas as criaturas nascem isoladas e sem qualquer necessidade umas das outras: deixem os homens em estado natural, não os civilizem, e cada um encontrará seu sustento, sua subsistência, sem necessitar de seu semelhante. Os fortes proverão suas vidas sem precisar de ajuda; os fracos serão talvez os únicos a sentir tal necessidade; mas esses fracos nos serão submetidos pela mão da natureza; eles nos serão dados por ela, eles nos serão sacrificados: sua condição nos prova; então o mais forte poderá, conforme lhe aprouver, servir-se do fraco.

Por outro lado, se a prodigiosa e diabólica imaginação de Sade expressa algo de verdadeiro sobre a condição humana, ela também coloca em xeque as crenças utópicas de que, dissolvido o véu da ideologia e abolida a “exploração do homem pelo homem” — isto é, os mecanismos sociais que sustentam uma ordem econômica fundamentada na expropriação da classe trabalhadora dos produtos de seu trabalho —, ingressaríamos numa etapa histórica de pleno desenvolvimento pessoal e de ampla harmonia social, num mundo em que a liberdade e a justiça seriam exercidas em sua integralidade. O que tais utopias ignoram é que talvez a perversidade humana não seja apenas o resultado de condições materiais externas ao sujeito, mas também um dado constitutivo da conformação psíquica de nossa espécie. Por isso, não é raro que movimentos emancipatórios resultem em massacres tão ou mais sangrentos do que aqueles motivados pela manutenção do status quo.

Em Sade, o indivíduo soberano procura submeter toda a realidade ao exercício ilimitado de sua liberdade, transformando os outros em meros objetos de seus desejos, sendo que o exercício ilimitado da liberdade é uma prerrogativa do poder absoluto. Portanto, tão importante quanto instituir mecanismos de controle do poder (ideia que, possivelmente, é a maior conquista política do Iluminismo), é ter em vista que a propensão à tirania é uma tendência natural dos vínculos sociais estabelecidos pelos seres humanos, tanto no nível interpessoal quanto no institucional. Assim, o sonho de um mundo sem qualquer tipo de interdição à vontade individual — um mundo sem “repressão”, em sentido freudiano, dos impulsos psicológicos, inclusive os sexuais — pode facilmente converter-se no pesadelo da literatura sadeana. Com isso, não estou sugerindo, de forma alguma, uma sociedade mais opressiva e castradora, mas apenas ressaltando o papel da cultura como instância de introdução do indivíduo ao universo da ética, possibilitando-lhe atingir o nível de autodomínio subjetivo que chamamos de autonomia moral (muito mais eficiente do que qualquer medida objetiva de coerção).

Os heróis sadeanos não são um retrato fiel do que somos, mas um lembrete do que podemos vir a ser. Ler Sade, portanto, é acessar uma zona obscura da mente humana, tornando-a palpável por meio da imaginação, que nos oferece uma imagem mais vívida do que aquela que encontraríamos nas palavras de qualquer filósofo ou psicólogo. Tal leitura, inclusive, funciona como um exercício de autoconhecimento, ainda que desagradável, quando nos vemos esboçando um sorriso de cumplicidade com os carrascos sadeanos ou embarcando no gozo perverso dessas personagens. Nestes momentos, damo-nos conta que, sob o verniz da civilidade, ocultam-se em nós desejos e impulsos inconfessáveis. Sade, a despeito de todo seu exagero, dá-nos uma amarga lição de realismo, seja existencial, seja político. Ensina-nos que, quando se trata da imaginação humana, o inferno é o limite.

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REFERÊNCIAS

BEAUVOIR, Simone. “Deve-se queimar Sade?”. In: SADE, Marquês de. Novelas do Marquês de Sade. Tradução Augusto de Souza. São Paulo: DEL, 1961.

BORGES, Contador. “A revolução da palavra libertina”. In: SADE, Marquês de. A filosofia na alcova. Tradução Contador Borges. São Paulo: Iluminuras, 1999.

DUFOUR, Dany-Robert. A cidade perversa: liberalismo e pornografia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

SADE, Marquês de. Os 120 dias de Sodoma ou a escola da libertinagem. Tradução Alain François. São Paulo: Iluminuras, 2013.

————— . Justine ou os infortúnios da virtude. Tradução Celso Mauro Paciornik. São Paulo: Iluminuras, 2008.

————— . Histoire de Juliette ou les prospérités du vice. Paris: 10/18, 1998.

SONTAG, Susan. “A imaginação pornográfica”. In: A vontade radical: estilos. Tradução João Roberto Martins Filho. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, pp. 44-83.

VIAN, Boris. “Utilidade de uma literatura erótica”. In: Escritos pornográficos. Tradução Heloísa Jahn. São Paulo: Brasiliense, 1985.

Emmanuel Santiago

Doutor em Literatura Brasileira pela USP. Autor de Pavão bizarro (poesia) e A narração dificultosa (crítica).