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Marx quis fazer ciência, mas deixou totalitarismo

por Orlando Tambosi (25/04/2020)

Assumindo a realidade como contraditória, Marx transfere as contradições lógicas do pensamento para o real.

Diferentemente do que pensam os economistas e sociólogos em geral, o projeto de Marx (1818-1883) não fracassou por razões meramente econômicas, nas ditaduras comunistas onde foi aplicado (a começar pela falecida URSS de Lênin). O fracasso estava inscrito na própria teoria marxiana, herdeira do método dialético idealista, que não funciona em relação às ciências. Ciência e dialética são incompatíveis. Em vez de ciência, portanto, Marx deixou como “legado” apenas uma ideologia totalitária.

Neste pequeno ensaio vou tentar explicar esse problema, pedindo paciência ao leitor porque se trata de um tema intrincado, envolvendo aspectos lógicos e epistemológicos.

Marx e o marxismo tentaram construir uma análise científica da sociedade capitalista. O Capital, de fato, não se apresenta como obra filosófica, mas como descrição científica das “leis do movimento” do modo de produção capitalista, leis que devem ser tratadas com a mesma objetividade com que o físico trata as “leis da natureza”. A obra de Marx pretendeu fazer, no campo da história humana, aquilo que Darwin realizou no campo da história natural (a comparação é de Friedrich Engels [1820-1895], em discurso ante a tumba do amigo).

No entanto, O Capital é, ao mesmo tempo, obra dialética, como já diz seu subtítulo (Crítica da economia política). Isto significa que a luta de classes e os conflitos de interesse são ali interpretados não como oposições, mas como contradições do capitalismo. A contradição, portanto, é objetiva, real, isto é, a realidade é autocontraditória.

O fato é que o método dialético, pelo menos na acepção moderna, só funciona dentro do sistema idealista de Hegel (1770-1831), para o qual o Real é o Racional, já que tudo se resolve na Ideia. Em poucas palavras, a assunção da dialética pelo marxismo revelou-se uma herança fatal para seu projeto científico. Assumir a dialética implica assumir também uma visão finalística da História, que teria um fim predeterminado, uma meta fixada a priori.

O problema é que o marxismo fala continuamente em contradições tanto na natureza quanto na sociedade. Ora, a afirmação de que a realidade é intrinsecamente contraditória implica: 1) a rejeição do princípio clássico-aristotélico de não-contradição, fundamental ao conhecimento científico e ao realismo; 2) a suposição de que somente a dialética, isto é, a lógica da contradição, é adequada ao entendimento dessa realidade contraditória.

Rompendo com o marxismo, o filósofo italiano Lúcio Colletti (1924-2001) desmontaria essa “lógica” a partir dos anos 70. Em favor de sua tese de que não existem contradições reais, ou seja, de que a realidade não é autocontraditória, Colletti nomeia, além do fundamental Immanuel Kant (1724-1804), Nikolai Hartmann (1882-1950) e alguns lógicos contemporâneos, como Kazimierz Ajdukiewicz (1890-1963) e Irving Copi (1917-2002), além do filósofo Karl Popper (1902-1994).

Hartmann:

A contradição pertence, essencialmente, à esfera dos pensamentos e dos conceitos. Para ‘contradizer’ é preciso ‘dizer’. Conceitos e juízos podem contradizer-se (….). Mas as coisas, os acontecimentos, as relações reais – em rigor – não o podem. (….) O que se chama, muito impropriamente, contradição na vida e na realidade, não é absolutamente uma contradição, mas (…) um conflito. As forças, as potências, as tendências, as leis heterogêneas chocam-se violentamente em muitos, senão em todos os campos da realidade. (…). Mas isso não se parece em nada com a contradição, porque o conflito não opõe jamais A e não-A, isto é, um termo positivo a um termo negativo: opõe, isto sim, sempre um positivo a outro positivo. Em termos de lógica, esta relação é uma relação de contrários, em vez de contraditórios.

Copi, por sua vez, em sua conhecida Introdução à Lógica, cita alguns exemplos: “O proprietário privado de uma grande fábrica, que requer milhares de operários que trabalham em conjunto para o seu funcionamento, pode opor-se ao sindicato e ser, por seu turno, combatido por este; (…) mas nem o proprietário nem o sindicato são a negação ou o contraditório do outro.” Assim como Kant e Hartmann, portanto, também Copi considera a contradição somente lógica. Na realidade (natural ou social) só existem conflitos, oposições.

Cito também Ajdukiewicz, para o qual

o princípio de contradição exclui que duas proposições contraditórias-opostas possam ser verdadeiras simultaneamente. Com isso, o princípio exclui que na realidade possam subsistir estados-de-coisas contraditórios, e que, portanto, algo seja assim e ao mesmo tempo não seja assim.

Exemplos:

A relação de ação e reação, de efeito e contra-efeito, não é igual à relação entre ser e não-ser de uma situação de fato, entre ser e não-ser de alguma coisa; a reação não é a mesma coisa que o não-ser da ação, e o contra-efeito não é a mesma coisa que o não-ser do efeito; ao contrário: se a ação ou o efeito é uma força, também a reação ou o contra-efeito é uma força e não simplesmente o não-ser dessa força.

Por fim, Karl Popper: “Dizer que a eletricidade positiva é contraditória em relação à negativa é uma forma de falar vaga e metafórica. Haveria verdadeira contradição se, declarando que este corpo estava aqui, no dia 1º de novembro de 1938, entre as 9 e as 10 da manhã, carregado de eletricidade positiva”, fizéssemos “uma afirmativa análoga sobre o mesmo corpo, dizendo que não estava carregado de eletricidade positiva naquele momento”. Para Popper – também na esteira de Kant -, somente as teorias podem contradizer-se; mas, tão logo uma delas se contradiga, prontamente é eliminada como falsa.

Oposição real vs contradição dialética

Compreende-se, assim, a árdua tarefa que o marxismo se impôs: a vã tentativa de unir realismo e dialética, dois princípios incomponíveis e inconciliáveis. Dito de outro modo, Marx e o marxismo se pretendem realistas, mas seguem o método idealista de Hegel, para quem todas as coisas são contraditórias em si mesmas. Daí a necessidade dessa nova lógica, que Hegel tanto se orgulha de haver criado ao se desvencilhar da lógica clássica, refém do princípio de não-contradição.

Não é o caso, aqui, de entrar profundamente na lógica hegeliana. Para o nosso tema, é suficiente observar que a posição de Hegel significa um retrocesso em relação a Kant, que já havia percebido a diferença entre oposição real e oposição lógica. A diferença entre os dois tipos de oposição reside exatamente na presença ou não da contradição: a oposição lógica é por contradição, a oposição real é sem contradição. Há negação em ambas as oposições, mas de gênero inteiramente diverso. Na contradição, os opostos são negativos em si mesmos (um é o não do outro), ao passo que nos opostos reais um não nega o que é afirmado pelo outro: são positivos ambos os predicados, A e B (ou seja, um não é o contraditório do outro).

Exemplos de oposição real: A-B, Preto-Branco, Subir-Descer, Avançar-Recuar, Dia-Noite etc. Ambos os pólos da oposição são positivos. Não é violado o princípio de não-contradição, que reza: “é impossível que o mesmo atributo, ao mesmo tempo, pertença e não pertença ao mesmo objeto e na mesma relação”; ou, ainda: “é impossível supor que a mesma coisa seja e não seja”.

No caso da oposição lógica (ou dialética), cujo par é A-não-A, um oposto não pode estar sem o outro. Não-A é apenas o negativo de A: em si e por si, não é nada. Para se atribuir algum significado a não-A, é necessário antes saber o que é A, o oposto que é negado; mas este, por sua vez, é a negação de não-A. Assim, os dois pólos da oposição contraditória, por si, não são nada: são ambos negativos, e um implica a relação com o outro, assim como um nega o outro no interior da relação (unidade dos opostos).

O movimento dialético, portanto, é sempre guiado pela negação. No caso de Hegel, o ponto de partida é a Ideia, que é a afirmação ou unidade originária, que depois se cinde, se separa, gerando a sua própria negação. É assim que surge a contradição: afirmação e negação se confrontam e a contradição é, enfim, resolvida (“superada”) através de “negação da negação”, isto é, pelo surgimento de um terceiro (um novo conceito), que restabelece, num nível mais alto, a unidade de que se partiu. E assim sucessivamente, posto que o processo se reinicia tão logo concluído.

Colletti demonstrou, a partir de uma profunda análise dos textos marxianos, que na obra de Marx os pares trabalho concreto/trabalho abstrato, trabalho privado/trabalho social, valor de uso/valor de troca, mercadoria/dinheiro, trabalho assalariado/capital, não eram simples oposições reais (sem contradição), mas oposições contraditórias. Todas as contradições capitalistas eram de fato para Marx o desenvolvimento da contradição interna à mercadoria entre valor de uso e valor, entre trabalho útil ou individual e trabalho abstrato. A contradição interna à mercadoria se exterioriza na contradição entre mercadoria e dinheiro; a contradição entre mercadoria e dinheiro se desenvolve, por sua vez, na contradição entre capital e trabalho assalariado etc.

Assumindo a realidade como contraditória, Marx introjeta o lógico no ontológico, isto é, seguindo as premissas lógico-filosóficas de Hegel, transfere as contradições lógicas do pensamento para o real. Assim, forças da natureza ou da sociedade são interpretadas como contradições lógicas, como já percebera Kelsen. A conclusão a que chega Colletti, de modo autônomo e original, é a mesma indicada pelo jurista alemão. Também para Colletti o marxismo cometia um “trágico sincretismo metodológico”, uma confusão entre realismo (fundado no princípio de não-contradição) e dialética hegeliana (fundada na objetividade real da contradição). Neste quadro, o filósofo italiano explicava a tese da polarização da sociedade em duas classes, a extinção do Estado etc.

Todos esses elementos assegurariam a realização do Fim ou Valor da História (uma vez superadas as contradições, que tendiam inevitavelmente à sua resolução), o salto do reino da necessidade ao  reino da liberdade – e, portanto, não somente de uma formação social a outra, mas de uma inferior a uma superior, segundo o bem conhecido desígnio da filosofia da história de Hegel.

Este desfecho não implica negar a existência de lutas, conflitos, confrontos – até violentos – na realidade, tanto histórica quanto natural. Mas estas são, efetivamente, oposições objetivas, reais – que dispensam o recurso à dialética.

A esta altura, algum marxista empedernido poderia, talvez, objetar que Marx e o marxismo teriam cometido apenas uma impropriedade lógica, designando como contradições o que deveria ser chamado, mais precisamente, de oposições reais. Não seria isso tudo um simples jogo de palavras? Ocorre que o erro não é apenas de forma: não se trata de algo meramente lógico. Quando Marx fala de “contradições do capitalismo”, ele constrói essas antíteses (quanto ao seu conteúdo e à sua estrutura) de modo que possam ser tratadas dialeticamente. Exemplo típico é a oposição entre trabalho assalariado e capital, em que este último é concebido como a objetivação alienada do trabalho humano, de maneira tal que se torna independente ou estranho em relação ao seu criador.

O tratamento dialético dado por Marx à sua obra “implica que – sob a aparência da explicação causal-científica – o curso real proceda como um desenvolvimento finalístico […], como é necessário que seja o processo dialético”. Rompe-se assim a separação de fatos e valores estabelecida pelas ciências modernas. A História é chamada a realizar um Valor: o dever-ser já está inscrito no “ser”. Tanto quanto Hegel, Marx concebe o processo histórico como contínuo devir, impulsionado constantemente pela negação ou contradição dialética, progredindo, como vimos, de um estado inferior a um estado superior, até a realização de um valor absoluto, que é a meta do processo histórico: a sociedade sem classes, a emancipação completa da humanidade, o comunismo.

Diante disso, vale concluir com a metáfora construída por Norberto Bobbio, outro filósofo italiano, que compara a História a um labirinto. É o contrário do que pensavam Hegel e Marx. É o desfecho, também, da longa pesquisa de Lúcio Colletti, severo crítico do finalismo marxista:

A história é um labirinto. Acreditamos saber que existe uma saída, mas não sabemos onde está. Não havendo ninguém de lado de fora que nos possa indicá-la, devemos procurá-la nós mesmos. O que o labirinto ensina não é onde está a saída, mas quais são os caminhos que não levam a lugar algum.

Orlando Tambosi

Professor aposentado da UFSC, doutor em Filosofia e jornalista.