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Um sujeito em conformidade ideológica bloqueia fontes plurais de conhecimento.

Você já ouviu falar de compliance ideológico? Milhões de pessoas ao redor do mundo têm se voltado à conformidade com o pensamento ideológico para evitar o linchamento politico e moral nas redes sociais. Em tempos de boicotes, assassinatos de reputação e enxames digitais, a adoção do compliance poderá evitar os dissabores de um ataque furioso com consequências financeiras e morais desastrosas.

Pra que compliance?

Há um interessante fenômeno comportamental ocorrendo nas redes sociais que merece atenta reflexão de quem acompanha imparcialmente o debate político. Alguns denominam polarização. Outros falam em radicalismo, intolerância ou autoritarismo. Em se tratando de uma questão que se demonstra muito mais ampla do que se imagina, é necessária uma nova definição.

Esse fenômeno se revela, a título de exemplo, na intolerância da esquerda “pra valer” com a deputada Tabata Amaral, eleita por um partido de origens socialistas, mas que tem o bom senso e uma mínima percepção do real para defender a necessidade de uma reforma da previdência. Tabata é considerada uma impostora pela esquerda “certificada” (aquela com diploma universitário ou carteirinha de filiação partidária, sindical ou qualquer outro movimento de justiça social).

No espectro oposto deste mundo bidimensional, figuras até recentemente festejadas pela “nova direita” (seja lá o que isso signifique no Brasil) passaram a ser atingidas em suas reputações. Basta questionar uma decisão do Ministério da Educação ou se recusar a participar de manifestações em favor do Presidente, que passam a ser consideradas párias. Personagens como líderes do MBL ou Janaína Paschoal, centrais no impeachment de Dilma Roussef, são tratados como traidores ou “socialistas fabianos”.

Estas e outras personagens atingidas pelo simples ato de pensar de forma independente, pagam agora o preço pela não conformidade. O compliance ideológico cuida de exigir a observâncias das condutas esperadas de quem integra um dos polos da concorrência por corações e mentes num mundo em que pouco subsiste fora da esfera de atuação do Estado.

O que é compliance ideológico?

Não basta ser liberal, socialista, reacionário, comunista ou anarquista. É preciso demonstrar ser. É preciso vender a imagem de ser. Na era da informação, o compliance ideológico se manifesta em hashtags, em selfies na parada de domingo, em cartazes lacradores nos distúrbios da hora do rush. O sujeito precisa se engajar politicamente em cada pequeno aspecto da vida. Da crítica de séries sobre dragões à análise de filmes de super-herois, do futebol feminino às picardias juvenis nos centros estudantis. Tudo é oportunidade para demonstrar alinhamento ideológico. Aqueles que não se aplicam à adoção do compliance ideológico estão sujeitos a penas que não se resumem a perda de receitas, vendas de discos, livros ou jornais, mas, também, e sobretudo, a danos reputacionais.

Fora do ambiente partidário, e num passado não tão distante, artistas foram cobrados a tomar posições políticas sob ameaça de perda de oportunidades. Algo muito similar ao que se costumou chamar de “patrulhamento ideológico”. A diferença é que o patrulhamento se impunha de cima para baixo (top down) enquanto o compliance é a fiscalização multilateral e ascendente, das camadas de baixo para cima (bottom up).

Engana-se quem imagina que o compliance ideológico seja um dano colateral e não planejado da revolução digital. Ou, que seja um contratempo passageiro. As redes sociais apenas democratizaram e impulsionaram esse fenômeno. A conformidade de pensamento já existia há muito tempo, em especial quando as vozes que formavam o espírito dominante (os formadores de opinião) eram geradas nos meios acadêmicos em que, para que pudessem sobreviver, opiniões dissonantes permaneciam retidas em mentes prudentes. Estas vozes se continham para estar em compliance com o pensamento dominante.

A internet serviu de instrumento de liberação exponencial em todos os sentidos, e não seria diferente com o pensamento ideológico. As vozes dissonantes, até então silenciadas, também puderam ser ouvidas e encontraram reverberação. A reverberação desperta a sensação de pertencimento, de integração. A integração reforça as crenças e desperta o senso de propósito. O propósito é uma razão de viver que repele tudo que o coloque em risco o conforto existencial, incluindo opiniões contrárias, que são rechaçadas ou excluídas. Como o silêncio não é mais tudo o que resta, o aglutinamento é medida de compliance para buscar o predomínio ideológico.

Como ser compliance?

Vê-se que o compliance ideológico é uma nova abordagem de participação sócio-política que se fundamenta em 4 pilares: transparência, reverberação, pertencimento e propósito. Pelos seus fundamentos se conclui resultar da falência moral e cultural da sociedade contemporânea. O indivíduo é tanto mais compliance quanto menos tarefas realmente importantes assume. Família, amigos, trabalho, prazos finais, contas de luz, filas de supermercado, dores de cabeça. Tudo isso afasta o indivíduo do objetivo central do plano de conformidade.

Somam-se aos elementos que amparam o compliance ideológico os princípios da pronta resposta, da automatização de comandos e da hierarquia das colmeias. A abelhas rainhas devem ser protegidas, a qualquer preço, mesmo ao sacrifício da própria consciência. Na dúvida, ouça o comando que vem dos líderes incontestáveis de suas bolhas.

A conformidade com o pensamento ideológico demanda muita ação impulsiva (“histeria automatizada”). Para que o córtex frontal não prejudique as instintivas posturas de compliance ideológico com besteiras como racionalidade e prudência, convém adotar medidas de prevenção. Um sujeito em conformidade ideológica bloqueia fontes plurais de conhecimento, deixa de seguir oponentes e terceiros isentos (ainda que estes últimos possam se tornar futuros e pontuais aliados) e concentra toda sua atenção nos fatos e versões que confirmem suas crenças (atenção seletiva). Desta forma, os riscos de não conformidade são evitados ou mitigados.

A adoção de um programa de compliance ideológico é altamente indicado para indivíduos que não suportam o peso e a responsabilidade de pensar por si mesmos, pois evita o custo emocional e psicológico da não conformidade e da livre consciência. Bastar-se, afinal, é pra poucos.

Norival Silva Júnior

Advogado especialista em Direito Digital.