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Selvagens no meio de lugar nenhum

por Sérgio Tavares (01/06/2017)

Ana Paula Maia volta a retratar homens embrutecidos, agora largados numa colônia penal.

“Assim na terra como embaixo da terra”, de Ana Paula Maia (Record, 2017, 144 páginas)

O universo ficcional de Ana Paula Maia cresce para dentro em Assim na terra como embaixo da terra.

O novo romance (que pela dimensão e estrutura narrativa, tem mais o aspecto de novela) ocorre num tempo pregresso ao livro anterior da escritora carioca, e expande o passado de Bronco Gil, o capataz do matadouro Touro do Milo, cenário principal do ótimo De gados e homens.

Do mesmo modo que fez com os personagens Edgar Wilson e Erasmo Wagner, em Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos e Carvão animal, Maia recorre ao comportamento do mestiço de branco com índio, implacável caçador de javalis, para retratar uma realidade sórdida, definida pelo asselvajamento humano.

Depois de abatedouros, carvoarias, crematórios e aterros sanitários, o epicentro da trama é uma colônia penal em vias de ser desativada.

Dirigido por Melquíades, um sujeito transtornado pelo isolamento e pelos anos em que lida com homens ruins (que, em certos momentos, chega a lembrar o personagem de Marlon Brando, em Apocalypse Now), e supervisionado pelo agente penitenciário (e empalhador) Taborda, o lugar conta somente com quatro apenados.

Além de Bronco Gil, o velho Valdênio, o renitente Pablo e o acamado Jota pagam por assassinato. Todos têm, presa a seus calcanhares, uma tornozeleira eletrônica que explodirá, caso ultrapassem os muros da detenção. A comida é escassa e não há comunicação com o mundo exterior. “Estão no meio de lugar nenhum e não sabem nem em que região está localizada a Colônia. Do lado de fora, além da vastidão e dos espaços vazios, existe o silêncio empurrando-os para o nada”.

Os dias então se reproduzem, em toda aridez e nulidade, enquanto aguardam a chegada de um oficial de justiça que irá determinar seus destinos. Um vira-lata morre, um javali é caçado; a violência é também um animal que os ronda, em movimentos silenciosos que espreita essa noção febril de normalidade.

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Contudo, como descreve a certa altura, “o confinamento de homens assemelha-se a um curral”. A mercê da retaliação de crime e castigo, todos são corroídos por uma ambição escusa, uma tensão que, da mesma maneira que os mantém controlados feito animais, caça-os como.

Maia entrega o seu livro mais contemplativo, porém não menos vigoroso e elaborado. Apesar de se concentrar em afogos da monotonia e num certo solipsismo, o estilo próprio, construído nos livros anteriores, permanece à flor da pele: a habilidade de extrair de frases secas uma feracidade imagética.

Isso se mostra, com mais agudeza, nas cenas de ação cuja plasticidade (ainda que ache péssimo esse termo) tem a densidão cinematográfica.

Outro ponto forte são os diálogos, por vezes despretensiosos e interrompidos, mas que ajudam a moldar a personalidade dos atores da trama. Aqui, homens com histórias canceladas, rebaixados à animália de onde enxergam o adiante na altura da terra ou embaixo dela.

Não por menos, a escolha de Bronco Gil, o filho de uma relação de estupro, que convive desde cedo com a morte, em meio ao sangue e aos restos de animais. Trazê-lo para o centro desse palco de insídias é reforçar a ferocidade que carrega na condição de um legado. “Não se engane”, diz um personagem, “Aquilo que uma pessoa foi fica gravado na pele, no cheiro, no rosto. Se a vida que você levou foi de maldade e sujeira, isso fica estampado na cara. Não sai com nada”.

Prova é que seu destino foi parar num matadouro de gado, e a história se fecha. Resta saber, agora, para que lado irá crescer esse rico universo.

Sérgio Tavares

Jornalista e escritor, autor de Queda da própria altura (2012), finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e Cavala (2010), vencedor do Prêmio Sesc.