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Cotas raciais e o racismo do movimento de negros

por Éder Souza (10/07/2014)

As cotas interessam a grupos políticos que querem manter os negros sob domínio ideológico

cotas-usp

Um dos debates sociais mais importantes da contemporaneidade brasileira é a questão do acesso à universidade por parte das populações menos favorecidas, em sua maioria compostas de negros, que estão em situação de clara desvantagem em relação a outras etnias, principalmente os brancos, quando se trata de educação universitária. Necessário é garantir a oportunidade das diversas etnias de terem acesso à universidade, de forma democrática e republicana no sentido de res publica, que significa “cuidado com a coisa pública”.

O movimento negro, desde o fim dos anos 1980, vendo a disparidade de negros na universidade, pede por cotas raciais para permitir o ingresso dos negros no ensino superior, aos seus olhos um local elitista, racista, com uma “meritocracia injusta” que impedia o acesso do negro. As cotas reparariam a opressão que o negro sofreu durante séculos de escravização e marginalização na sociedade brasileira. Políticas públicas artificiais solucionariam o problema.

Cabe matizarmos a argumentação acima. Primeiramente, devemos pensar no papel da universidade na sociedade. Ela, primeiramente, tem o papel de desenvolver a pesquisa científica em diversos ramos do conhecimento, para o desenvolvimento de toda uma comunidade. Para que essa tarefa se realize, é necessário que a universidade recrute para seus quadros pessoas que possuem pré-requisito educacional e intelectual para desenvolver tais pesquisas. Por isso ela necessariamente tem que possuir um caráter meritocrático em suas admissões, que devem passar ao largo de questões étnico-raciais. A universidade não deve ser local de compensações de supostas “dividas históricas”. Nesse quadro, a universidade não reconhece qualquer outro critério que não seja o conhecimento adquirido pelos pleiteantes às vagas disponíveis; o pleito é impessoal e não questiona a etnia ou procedência da pessoa que a ele se submete.

Isso não significa que a universidade está descolada do que ocorre ao seu redor, como um ser que paira acima da sociedade. Ao contrário, ela etá completamente integrada na questão social, o que fica óbvio quando olhamos o quem está dentro da universidade pública: pessoas cujas famílias, em sua maior parte, tiveram a possibilidade de pagar por uma educação de qualidade. Isso mostra que o Estado não cumpre o seu papel na educação de base, pois, mesmo pagando impostos altíssimos, quem deseja ter uma educação de qualidade tem que pagar uma escola particular.

Percebe-se que o problema fundamental está na relação que o Estado e a sociedade têm com a educação de base. Em um país onde mais de 70% dos alunos concluem o ensino médio sendo analfabetos funcionais, e por volta de 50% dos universitários também o são, ranqueado entre os últimos em qualidade educacional no mundo, está muito claro que a questão maior não é a universidade, mas sim o ensino básico deficiente ofertado pelo governo para a maior parte da população.

Como o governo é especialista em quebrar a perna do cidadão e depois oferecer muletas argumentando que “sem mim você não andaria”, para ele é interessante não resolver uma questão espinhosa como a educação de base e, ao invés, dizer que solucionará o problema do acesso desigual à universidade fornecendo cotas, o que sem dúvida é uma medida de impacto imediatista, marqueteira e eleitoreira. Por isso, para o governo é mais lucrativo incentivar as pautas do movimento negro, que tem em suas lideranças pessoas ávidas por estarem dentro da estrutura do Estado para poder influenciar políticas públicas. Então, estamos diante de um problema maior do que cotas ou não cotas. A questão que deve realmente nortear o debate é, de um lado, o desemprenho das políticas estatais de formação educacional dos cidadãos e, de outro, as ações de grupos do movimento negro que se utilizam da política de cotas como instrumento para alcançar influência dentro do Estado.

Neste último aspecto, temos que analisar uma questão fundamental: quem são os maiores financiadores das ONGs de ativistas negros? Essas ONGs, em sua grande parte, têm forte financiamento estatal. Agora se perguntem: o Estado daria dinheiro para esses grupos se suas políticas não interessasse a ele? Claro que não.

O Estado financia certas lideranças e grupos, e os favorece para a implementação de pautas como as cotas, porque com isso obterá três vantagens: 1)dará a impressão que está interessado nos negros como agentes políticos; 2)desviará o foco da educação de base; e 3)incentivará a estereotipagem inversa da identidade do “negro”.

A estereotipagem inversa da identidade do negro significa que o negro que quiser ser considerado negro de fato terá que apoiar as pautas dos “movimentos afirmativos”, que dizem lutar por todos os negros e se autointitulam representantes da raça. Mas como qualquer grupo humano é composto de indivíduos diferenciados, com valores e pensamentos diversos, devemos entender que características são necessárias para que se considere alguém um “bom” negro sob a ótica do movimento que diz representá-lo.

Para essa gente, só pode ser bom o negro que está “em luta”, e apenas luta o bom combate aqueles que lutam as guerras que esse movimento decide que devem ser guerreadas; se discorda das pautas do movimento, como as cotas, o indivíduo é chamado de “negro de alma branca”, o que significa estar vendido ao outro lado, um alienado ou mal intencionado. O movimento cumpre o papel de capitão-do-mato do próprio negro, ao tirar sua liberdade de ser um indivíduo autônomo que pensa por si e chega às próprias conclusões.

Por isso que, no fim das contas, é equivocado chamar esse movimento de “movimento negro”, pois o título sugere que suas lideranças representam o pensamento monolítico dos negros. O movimento deve ser chamado de movimento de negros, pois apenas alguns negros compartilham de suas ideias e a ele se associam voluntariamente. A partir de agora, é assim que o chamarei.

O movimento de negros tem uma pauta de poder. As camisetas 4P (Poder Para o Povo Preto) não são mero acaso. Iludidos com o poder do Leviatã, do Estado onipotente que tudo pode com apenas uma canetada, ele sonha em dirigir a sociedade, achando-se capaz de comandar através de suas estruturas todo o corpo social, apostando na tática de dividir para dominar, apostando em um confronto racial, uma versão racialista da luta de classes marxista, pregando muitas vezes o ódio racial inverso ou a punição a “negros dissidentes”, versão repaginada dos “negros fujões” das plantations da era colonial.

Exemplo disso foi quando a ex-ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, disse em uma entrevista à BBC que considera natural a discriminação de negros contra brancos, afirmando que “a reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural, embora eu não esteja incitando isso. Não acho que seja uma coisa boa. Mas é natural que aconteça, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou.”

A ministra esqueceu que a esmagadora maioria dos brancos de hoje não têm nada a ver com a escravização de negros. Grande parcela da população branca descende de famílias de imigrantes que chegaram aqui em uma situação de penúria e estavam quase tão mal socialmente quanto os negros. O que dizer dos japoneses, que chegaram extremamente discriminados e conseguiram se tornar um grupo bastante forte na sociedade, constituindo 30% dos estudantes das melhores universidades do país enquanto são apenas 5% da população geral? E dos judeus, que são 3% da população mundial e menos 1% da população brasileira? Esses brancos açoitaram quem? Será que também, como os negros, não foram açoitados, mas se sobressaíram através de seus próprios esforços?

Além da fala racista da ministra, há demonstrações de que o movimento de negros em sua maioria busca um revanchismo contra os brancos, tendo um discurso de incentivo à vingança e ao ódio. Exemplo é o vídeo “Cotas, essa conversa não é sobre você”, que discrimina os brancos ao querer impedi-los de participar do debate público de um assunto que os afeta diretamente, além de estereotipá-los todos como playboys ricos.

As perseguições racistas a Joaquim Barbosa, aliado de longa data de diversos movimentos de negros (mas que contrariou interesses do PT), mostram bem como o negro que tem posições políticas diferentes das do movimento é tratado com desprezo. Quando, durante o julgamento do mensalão, o ministro do STF começou a sofrer ataques racistas sistemáticos, tendo sido chamado de “capitão do mato”, “negro traidor”, “negro ingrato”, não se viu defesa sua por parte do movimento de negros. Ao contrário, vimos um deputado negro do PT dizer o seguinte: “Negros que usam o chicote para bater em outros negros não são meus irmãos. O Joaquim Barbosa não é meu irmão”. Na lógica distorcida do deputado petista, o negro que Joaquim Barbosa chicoteou é nada mais nada menos do que… José Dirceu.

E onde estava o movimento de negros quando Heraldo Pereira, o primeiro negro a estar na bancada do Jornal Nacional, processou por uma injúria racista o jornalista Paulo Henrique Amorim, que o chamou de “negro de alma branca”? Vou dizer onde ele estava: defendendo Amorim, com o argumento de que este era um oprimido, não um racista, o racista verdadeiro sendo Heraldo Pereira, pois trabalhava na Rede Globo. Para o movimento, então, o negro que trabalha na Globo não é negro, é apenas um ser que não vale nada e deve ser ofendido até mesmo com ataques racistas.

Prova maior que o movimento de negros existe apenas para defender suas pautas estreitas foi quando acusaram um comerciante carioca de racismo por vender a boneca negra mais barata que a boneca branca. Como se o comerciante tivesse culpa de haver maior procura pelas bonecas brancas. Percebe-se que o movimento de negros está mais preocupado em defender bonecas do racismo que gente de carne e osso, se isso interessar suas políticas racialistas.

Sobre as cotas raciais, onde foram implementadas, não deram certo. Fracassaram na Índia, Nigéria e EUA. Fracassaram por um simples motivo, já explicado por Mises: políticas públicas que buscam moldar uma sociedade frequentemente alcançam resultados inversamente proporcionais ao que desejam. Thomas Sowel completou, com o brilhantismo que lhe é habitual, que a ideia de que a cota é temporária e perdurará até a igualdade racial ser alcançada é absurda, visto que, como em nenhuma sociedade isso foi alcançado, portanto a cota tende a ser uma política eterna.

Política eterna que interessa a grupos políticos que querem manter os negros sob domínio ideológico, através da política de estratificação social e da conquista de “feudos” e reservas de mercado.

Como escapar dessa tentativa de dominação e dar ao negro uma verdadeira liberdade? A única forma é construir uma sociedade meritocrática, onde o que vale é a capacidade individual de cada um, não quaisquer outros atributos, seja a etnia, orientação sexual etc. Os negro e outras minorias oprimidas não têm que exigir que o Estado os tutele com reservas de mercado ou leis específicas, mas sim que o Estado cumpra bem o seu papel mínimo. A meritocracia social absoluta é impossível, pois há diversos fatores sociais e de nascimento que beneficiam uns e prejudicam outros; porém, possibilitar e incentivar a ascensão social pelo mérito individual é a base da construção de uma sociedade saudável.

Para tanto, é indispensável uma educação de qualidade a todos, permitindo igualdade de oportunidades. Tornar o negro igual ao branco socialmente é fazê-lo ver além da cor da pele, é fazê-lo ver que somente se posicionando como cidadão que exige igualdade perante à lei, e um Estado competente que o deixe livre para perseguir seus objetivos, é que haverá real emancipação. Quando, como Morgan Freeman, nos recusamos a comemorar dias de “consciência negra” ou aceitar coisas abjetas como “hinos à negritude”, é que nos vemos como iguais.

A ciência provou que o conceito de raça, criado no século XIX, é um fato superado. Neguinho da Beija Flor, por exemplo, tem 70% de DNA branco, e um nazista declarado norte-americano possui 40% de DNA negro. Essa descoberta é um alívio, pois os maiores crimes do século XX se deram em nome de ideologias políticas, do Estado e em defesa de uma raça — esses três elementos são os eixos basilares do movimento de negros.

O sonho do Martin Luther King, que deseja que um dia seus filhos sejam vistos não pela cor da pele, mas pelo caráter, é o ideal a ser buscado em uma sociedade democrática, que não faz de especificidades étnicas fronteiras a serem solidificadas, mas riquezas a serem agregadas a uma comunidade de cidadãos.

Éder Souza

Formado em História pela Universidade de São Paulo.

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