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O espanhol PODEMOS como alegoria do medo petista de perder o poder

por Raphael Tsavkko Garcia (11/08/2014)

O nascimento de novas forças políticas de esquerda é parte da democracia

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Um dos não-argumentos usados algumas vezes pela militância petista para buscar tomar votos da esquerda que poderiam ir para PSOL, PSTU ou PCB é comparar a situação do Brasil com o panorama eleitoral espanhol. Como muitos sabem, PP e PSOE são partidos que se alternam em um bipartidarismo de facto na Espanha desde a chamada redemocratização e, no fim, ambos representam interesses muito semelhantes, assim como PT e PSDB no Brasil. A única diferença, talvez, é que o PSOE, diferentemente do PT, ainda se diferencia um pouco de seu adversário imediato em temas ligados a direitos das mulheres e LGBTs. Mas, fora isso, os projetos e modos de governar são os mesmos.

O não-argumento é que votar na esquerda prejudicaria o PSOE/PT (que seus membros e apoiadores ainda insistem ser também de esquerda, mas “presos” em uma correlação de forças cruel); logo, a “culpa” pelo PP ter vencido as eleições gerais espanholas de 2011 teria sido da esquerda que se recusou a votar no PSOE, ou mais especificamente dos milhões de espanhóis (além de galegos, catalães, bascos etc.) que tomaram às ruas formando o movimento dos Indignados ou 15M.

Vejam o não-argumento em ação:

Alguns militantes inexperientes, de boa-fé, acreditam que o jogo eleitoral é uma farsa, que não representa mais ninguém, é o mesmo raciocínio que levou os “Indignados”, da Espanha, ao boicote das eleições em 2011, que redundou na maior vitória da Direita espanhola, Rajoy, da ala mais radical e religiosa do PP, venceu com ampla vantagem, agora aplica o mais duro ajuste econômico da história da Espanha, ou seja, piorou em muito a situação dos trabalhadores e do povo. O simples boicote ou desacreditar a Democracia em nenhum lugar levou a avanço, ao contrário, a descrença, leva ao retrocesso.

De forma clara, diz-se que o PP venceu por culpa de quem se recusou a votar no PSOE, buscando, das ruas, criar novas alternativas políticas.

Primeiro, não querer votar numa força política que cada vez menos se diferencia do adversário é uma opção política válida; e, segundo, buscar nas ruas uma alternativa é legítimo e cada vez mais, até, necessário. Mas, mesmo assim, a ideia de que “as ruas” derrotaram o PSOE e deram ao PP a vitória é simplesmente falsa.

No caso da Espanha a alternativa política se configurou em torno do projeto do PODEMOS, que se tornou a quarta força no país durante as eleições europeias de 2014. O medo destes petistas é que a história se repita por aqui – que a esquerda se recuse a apoiar o PT e o PSDB ganhe. Mas vai além: é o medo de que as ruas possam também no Brasil criar uma alternativa eleitoral viável ao PT.

A grande questão que coloco é que as premissas dos petistas estão, em geral, equivocadas.

Em primeiro lugar é preciso analisar o que levou o PSOE ao poder na Espanha nas eleições gerais de 2004: a mentira contada pelo então premier José Maria Aznar às vésperas da eleição, de que a ETA teria sido responsável pelas bombas nos trens em Madrid. Esta mentira custou ao PP uma eleição certa. O PSOE, com Zapatero, acabou eleito não porque fosse melhor ou o preferido, mas como uma punição ao PP por sua mentira descarada e eleitoreira. O PSOE conseguiu se sustentar na eleição seguinte (2008), mas com uma pequena margem, até ser derrotado em 2011.

Uma rápida olhada na participação de eleitores e na votação dos principais partidos deixa claro que o “efeito Indignados” não foi responsável pela derrota do PSOE, que fez um governo péssimo na visão de milhões de espanhóis.

Na eleição de 2004, aquele em que Aznar mentiu e fez seu sucessor, Mariano Rajoy, perder, houve um aumento de 10% na participação (75,66% do total). Na eleição seguinte, onde Zapatero foi reeleito, a participação se manteve estável, apenas 0,4% a menos. Porém, na vitória de Rajoy, em 2011, sobre o candidato “socialista” Alfredo Rubalcaba, a participação caiu 4,8%. Mas esta queda é ínfima se comparada à queda de 38% (trinta e oito por cento) dos votos do PSOE. Isso sem contar o crescimento em 30% dos votos da conservadora e nacionalista catalã CiU (Convergència i Unió), os 74% a mais de votos da Izquierda Plural (nome então da Esquerda Unida) ou os 273% (!) a mais dos neofascistas da UPyD, apenas para citar os partidos com mais de um milhão de votos naquela eleição.

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Como se vê, as eleições de 2011 foram um primeiro passo, tímido, contra o bipartidarismo espanhol, que as eleições europeias deste ano comprovaram (ou ao menos deram um indicativo de longo prazo), e de forma alguma apenas reflexo dos Indignados, ainda que, sem dúvida, estes tenham tido algum papel. Os votos do PSOE foram pulverizados – alguns foram para a abstenção enquanto outros foram espalhados à esquerda e à direita.

É preciso ainda lembrar que os Indignados, representados em boa parte hoje pelo PODEMOS, orbitam à esquerda do espectro político, mas não apenas o PP teve um crescimento de apenas 5%, como partidos claramente de direita ou extrema-direita também tiveram um crescimento consistente (CiU e UPyD).

O PSOE perdeu votos, muitos votos, mas em geral o PP manteve seu antigo patamar eleitoral, na casa dos 9-10 milhões de votos – ao passo que o PSOE voltou ao patamar das eleições de 2000, quando perdeu para Aznar. Não é desprezível, ainda, as movimentações eleitorais na Catalunha, por exemplo, durante esse período histórico.

Para além de todos esses números, duas coisas saltam aos olhos: aparentemente, o bipartidarismo espanhol perde fôlego; e o PSOE foi punido não porque surgiu uma nova opção de esquerda ou porque as ruas se recusaram a votar no partido, mas porque havia feito um governo ruim – apenas por isso. O PP não teve um crescimento considerável, o PSOE que despencou. E outras forças políticas também cresceram.

O resultado das eleições europeias deste ano, aliás, deixam clara a tendência contrária à manutenção do bipartidarismo e também de queda do PSOE e mesmo do PP, assim como as encuestas para as próximas eleições gerais espanholas, em 2015.

Algo, ainda, que surge no horizonte é a possibilidade de uma coalizão entre PODEMOS e Izquierda Unida superar o PSOE em votos e em presença parlamentar e superar mesmo o PP, forçando dois cenários. No mais provável, haveria uma união entre PP e PSOE, baseado em agendas mínimas (pró-capital e pró-troika, deixando temas sociais em banho-maria). No cenário menos provável, nasceria um governo de minoria do PODEMOS+IU, com o PSOE e PP na oposição, sendo a primeira mais light e a segunda mais dura – enfim, um governo sem estabilidade e sujeito e crises permanentes.

Pode-se conceber uma terceira opção, mas dificílima de se concretizar, que seria uma coalizão PODEMOS+IU+PSOE. Difícil tanto pela possível negativa do PSOE em ceder a liderança, quanto pelo programa ideológico não combinar, afinal o PSOE é esquerda em grande parte apenas no papel e as práticas contradizem a teoria o tempo todo.

Sem dúvida o panorama eleitoral espanhol pode ainda mudar, faltam ainda meses para as eleições e é visível a oscilação das intenções de voto da população. Pelo caminho ainda teremos o referendo pela independência da Catalunya – que pode alterar completamente o panorama político espanhol – e muitas manobras e jogadas políticas. A certeza, porém, é que há uma tendência ao fim do bipartidarismo espanhol, e que a “culpa” não é de um ou outro partido, mas resultado de um conjunto de ações e mobilizações que não vêm de hoje.

Outra certeza, esta final e inconteste, é que o uso político e mesmo eleitoreiro por parte de militantes do PT do “exemplo PODEMOS” ou do “exemplo Indignados” não apenas não cola, como não procede. Beira a pura canalhice política, na tentativa de impedir que novas alternativas políticas nasçam das ruas e possam desafiar a soberania do PT que, como o PSOE, é mais de esquerda no papel do que nas práticas – algumas francamente de extrema-direita.

O nascimento de novas forças políticas de esquerda é parte da democracia; no caso da Espanha como no do Brasil, é algo positivo, vindo para oxigenar estruturas viciadas e mesmo cooptadas, dando nova força a movimentos de rua e sociais que não se submeteram ou sucumbiram. A tese de que o “boicote” às eleições espanhola foi decisivo para a vitória da ala mais radical de direita do PP é falso e não se sustenta a uma simples olhada nos números totais de votantes, e se sustenta menos ainda quando analisamos não apenas o governo anterior do PSOE à luz da crise, mas seu processo irreversível de direitização.

O problema para estes petistas fanatizados é que sentem o medo que hoje muitos no PSOE sentem: o da obsolescência, de perder espaço e poder, de serem atropelados em seu próprio jogo.

Raphael Tsavkko Garcia

Formado em Relações Internacionais (PUC-SP), mestre em Comunicação (Cásper Líbero) e doutorando em Direitos Humanos (Universidad de Deusto).