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A lírica do precário

por Wagner Schadeck (02/08/2016)

Sobre a poesia de Armando Freitas Filho e de Alice Sant'Anna.

"Rol", de Armando Freitas Filho (Companhia das Letras, 2016, 144 páginas)

“Rol”, de Armando Freitas Filho (Companhia das Letras, 2016, 144 páginas)

"Ao pé do ouvido", de Alice Sant'Anna (Companhia das Letras, 2016, 64 páginas)

“Ao pé do ouvido”, de Alice Sant’Anna (Companhia das Letras, 2016, 64 páginas)

1.

Otto Maria Carpeaux via três vertentes da poesia moderna: a arte pela arte: evasionista, cerebral e técnica, com Mallarmé; a intimista, requintada e confessional, com Verlaine; e a rebelde e visionária, com Rimbaud. Embora esses aspectos misturem-se (a afasia rimbaudiana é o evasionismo radicalizado), podemos notar, em linhas gerais, essa herança em poetas diversos, como Armando Freitas Filho e Alice Sant’Anna.

O que predomina em Rol é o requinte. Embora não menos confessional e evazionista, para o próprio título, Armando Freitas Filho parece se apropriar das duas acepções do termo: uma, para a seleta de poemas, de 2009 a 2015; e, outra, para orvalho, relento, rocio noturno.

Além do título, notamos o mesmo requinte nos poemas. Dos mais simples, como em: “Veloz e voraz”, “Parto, de novo”, “O mar amarrotado…”, ao mais complexo, como: “…a quem atarraxado na cadeira / dura / de pregos, de faquir, dura / curvado, cruz de quatro pés / escreve, crava, incrível / dura – a alegria, a raiva”, em que o sentido depende do arranjo sintático.

A divisão do livro também parece apontar para isso. São treze sessões mais o “Poema-Prefácio”: “Escritor, escritório”, “Tempo fechado”, “Quarto-forte”, “Na origem do mundo”, “Ao ar livre”, “Canetas emprestadas”, “Suíte para o Rio”, “Intimidade”, “Octeto para Cri”, “Transmissões”, “O caso Ana C.”, “De roldão” e “Numeral”.

A relação com Ana Cristina Cesar abre a sessão confessional. Além da epígrafe, o mais evidente é o encômio “O caso Ana C.”. Nele Armando apresenta a experiência de resgate da poesia de Cesar, bem como a afinidade poética entre ambos. Da geração de poesia alternativa, como sugeria Paulo Leminski, Armando Freitas Filho mantém alguns traços. Outra presença é a de João Cabral de Melo Neto, como num dos poemas de Tempo Fechado:

A casa por dentro
é a minha roupa
pelo avesso, a nudez
dos meus segredos
desabotoados depois
de um dia inteiro
[…]
para esquecer-me
do que oculto:
embrulho de medo
e morte que aperta
e só me desafogo
à noite, desnudo, após
a oração e a bronha.
(FILHO, 2016, pp. 32, 33)

Enquanto as rimas toantes enfaixam o corpo do poema, a técnica analógica, aspecto importante na poética cabralina, possibilitam ao poeta uma ampliação das imagens. Para Armando, internamente a casa é a roupa do avesso. Não é a casa abandonada usada como metáfora íntima por Augusto dos Anjos; é um objeto comparado analogicamente a outro, sendo que a sensação de vestir uma roupa pelo avesso é a mesma de habitar a casa desse poema. É preciso notar também que a tensão do poema se desfaz ao final, com a alusão à célebre prática de Onã, mais ao gosto da geração de Paulo Leminski e Ana Cristina Cesar.

O livro parece ser organizado também por temas predominantes, embora, muitas vezes, eles se misturem. Em Escritório, escritor, há predomínio de metapoemas (poemas que falam sobre o fazer poético); em Tempo fechado, de poesia intimista; a “mais indesejada das gentes” surge em Quarto-forte; o erotismo, em Na origem do mundo, e também em Octeto para Cri; o cotidiano, em Ao ar livre, e também em Transmissões; a cidade, no longo poema Suíte para o Rio; os relacionamentos afetivos, em Intimidade; o encômio, em O caso Ana C.; e o  ser no mundo, no belo De roldão, talvez influenciado pelo filme “À bout de souffle” (Acossado, em português), de Godard, de 1960; retornando ao requinte e à metapoesia, em Numeral (sessão que aparece desde o livro Máquina de escrever (2003), verdadeira “invenção diabólica” do poeta, segundo Heloisa Buarque de Hollanda).

Mas a mão na manivela da máquina de moer
É a minha, contra mim, e continua matigando
O que de meu já foi consumido e consumado
Na casa grande aberta aos gritos da família
Dizimada pela cizânia, não pelo dito…
(FILHO, 2016, p. 110)

Além de possivelmente ter sido inspirado no filme de Godard e do fôlego algo futurista, contrastando com os demais, o que impressiona neste poema é o tom confessional e a contemplação da memória.

Armando Freitas Filhos revisita os lugares-comuns do modernismo, do erotismo à metapoesia, da memória familiar ao encômio, alcançando belos momentos, sobretudo, por meio do recurso da ecfrásis:

DOIS BRINCOS
Para Laura Liuzzi e Alice Sant’Anna

O calor das pérolas
E a cor se distanciam
Do marfim da faca
De abrir folhas de livro
Do frio da lua sujeita a nuvens
Da luz gentil e educada
Da taça, que ainda assim fere
Com seu cristal faiscante.
As belas pérolas de brilhos
Diferentes, bem perto
Da lâmpada, em cima
Da mesa de cabeceira
No halo da luz que aquece
O róseo mármore imóvel
Onde os brincos se deixam estar
Depois da noite, antes do dia.
(FILHO, 2016, p. 91)

E se um poema como este consegue, a um só tempo, dialogar com as poesias das duas poetas, às quais se destina, pintando com as palavras um belo quadro, em determinados momentos, por outro lado, o lirismo diminui à medida que o prosaísmo, gratuito ou desejado, aumenta, como neste poema sobre a secretária eletrônica:

CINCO

Dorme com um olho aberto:
Vermelho, vigia, desconfiada
No escuro do silêncio
À espera dos telefonemas.
Não pisca se ninguém falou.
Mas quando a vejo piscando
Grávida de recados
Alguém que eu espero falou
Ou foi o inesperado
Com sua carga perigosa?
(FILHO, 2016, pp. 99, 110)

Essa poesia, com algo de marginal, assim como o erotismo mais requintado, destoam com os melhores poemas do conjunto, como quando o poeta reflete sobre a morte, em:

Um cigarro letal por dia.
De noite. Trancado
No banheiro, escondido
De mim mesmo: sessenta
Anos antes escondido
Dos pais. Agora me escondo
De um castigo mais forte.
(FILHO, 2016, p. 56)

Intimista, requintado, erótico e pictural, com este Rol, Armando Freita Filho, poeta há muito conhecido e prestigiado, afora a rimbaudiana, reafirma as principais vertentes da modernidade de que nos falava Otto Maria Carpeaux.

2.

Armando Freitas Filho integrou as vanguardas na poesia brasileira. Participou da “instauração práxis”. Tal proposta exigia muito da recepção. Se o texto é uma máquina preguiçosa, como diria Umberto Eco, dentro dessa proposta, o leitor deveria recompor o poema, não apenas o sentido. O poema torna-se, desta forma, um jogo aberto.

A presença mentora de Armando Freitas Filho na poesia de Alice Sant’Anna é notória e, como ela, também essa herança metodológica da poética vanguardista.

Em Pé do ouvido (2016), terceiro livro da poeta, Alice apresenta um projeto ousado.

estou escrevendo um poema
você aparece bastante
tudo o que disser pode entra
é um poema tagarela
(SANT’ANNA, pp. 34, 35)

Como naqueles exercícios de recortes dadaístas, neste poema (ou poemas), a poeta fragmenta – ou ainda “desconstrói”, no jargão metodológico de acadêmicos autointitulados marginais – a poesia.

Em Pé do ouvido, título que sugere intimidade, mas também violência, a poesia é ofertada como um cubo mágico que apenas surge uma ordem possível. Cabe ao leitor girar as peças e recompor os poemas.

da plateia olhávamos os livros
(SANT’ANNA, 2016, p. 20)
[…]
as mãos sobre o livro
continuam repousadas
um dia inteiro se passa (ibidem, p. 18)
[…]
o menino que lê duas mesas à frente
bufa como se estivesse exausto
depois de uma maratona
na terceira vez não consegue prender o riso
especialmente nos lugares muito formais
onde não pode fazer um pio
a risada abafada
ecoando nos corredores da biblioteca (ibidem, p. 45)
[…]
ela tem uma risada aguda (ibidem, p. 52)
entra pela porta giratória
diz que veio só para recomendar
um livro: poemas para comer (ibidem, p. 52)
depois sai misteriosa
sem olhar para trás (ibidem, p. 52)
[…]
é sobre isso a poesia japonesa? (ibidem, p. 40)
[…]
a poesia japonesa é sobre outra coisa (ibidem, p. 26)
[…]
é sobre o que a poesia japonesa? (ibidem, p. 24)
[…]
a poesia japonesa é sobre a natureza (ibidem, p. 24)
sobre a impermanência das coisas (ibidem, p. 25)
a beleza das coisas que não duram
por isso as estações
por isso outono e primavera
ganham tantos poemas
as estações de passagem (ibidem, p. 25)
[…]
não, a poesia japonesa não é
sobre natureza (ibidem, p. 25)
[…]
há um poema japonês que diz
“quão tolo é
é o escuro da noite de primavera –
que pode ocultar o
charme e a cor das flores de ameixa
mas não pode esconder o perfume” (ibidem, p. 18)

Tantas são as possibilidades quantos os elementos sugeridos: sapatos, bola, árvores, biblioteca, lua, poesia japonesa, onda, dentes, maçã, viagem, etc. Por outro lado, vale uma observação, a mesma que coube ao magnífico A Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima: à medida que o poema de Sant’Anna amplia as interpretações, o conjunto da obra diminui.

ao voltar da biblioteca
viu uma lua redonda
e quis apontar
mas pensou um minuto
e preferiu não comentar com ninguém
ninguém mais
parecia prestar atenção na lua
como se a lua estivesse ali só para ela
a câmera não ajustava o foco (ibidem, p. 17)
[…]
na foto da lua o sinal verde
invadiu a moldura e a lua
ficou um pontinho confundido com o poste (ibidem, p. 22)
[…]
muito menor porém muito mais próximo (ibidem, p. 22)
[…]
a lua agora muito distante (ibidem, p. 49)
pequena quase uma estrela (ibidem, p. 50)
[…]
não dá para fotografar a lua
não com a câmera do celular (ibidem, p. 22)
[…]
e escrever que viu uma grande lua
não impressionaria ninguém
então guardou para si
como um segredo: a lua cheia (ibidem, p. 17)
[…]
na poesia japonesa a lua
era um elemento ligado ao outono
ou à primavera
a lua como desejo dos amantes (ibidem, p. 27)
que não podem se encontrar
ou como a verdade absoluta, que guia
mesmo na escuridão
curioso que não se fale em lua
no verão ou no inverno
embora diferentemente das frutas a lua
nasça todos os dias do ano (ibidem, p. 28)

Graças à memória, o leitor treinado consegue identificar a retomada dos elementos vistos, assim como os encontros e diálogos que parecem sugerir as intimidades:

eu te contei de uma lua
que vi grande demais?
redonda, quase artificial? (ibidem, p. 28)
[…]
a palavra lua tem o sopro
de uma lua minguante (ibidem, p. 34)
[…]
a lua cheia parece parecia perto demais (ibidem, p. 44)
a lua japonesa (ibidem, p. 44)

E de mesmo modo conseguimos inferir algo sobre as personagens:

o nome dela em hebraico
quer dizer joia de ouro
o nome dele em alemão quer dizer
quem guarda as chaves da prisão
aquele que controla
quem entra e quem
sai quem fica (ibidem, p. 30)

Ou seja, o nome dela deve ser Ada, ou Adina, que etimologicamente significa apenas “enfeite”, “adorno”. Porém, embora tenhamos encontrado nos dicionários de nomes algo mais preciso, sugerimos que o nome da mulher seja Keila, oriundo de Kelila,: כְּלִילָה, que em hebraico significa “coroa de louros”.

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Convém lembrar que a coroa de louros era concedida aos grandes poetas, símbolo da glória e da imortalidade. O provençal, Arnaut Daniel, e posteriormente o italiano, Francesco Petrarca, utilizam o nome “Laura”, e suas derivações: “aura”, “ouro”, “louro”, o loureiro, a árvore consagrada a Apolo, consequentemente à poesia, etc., como símbolo da arte e da beleza, embora, no caso deste último, a personagem Laura tenha existido realmente.

Quanto ao nome do homem, trata-se de Schließer, sobrenome comum que em alemão é carcereiro, o que nos mostra as características da personagem.

Estruturado em duas partes, o leitor encontrará de cartografia a catálogo de cores, além da sensibilidade da poeta. Destaco o belo momento, de uma plasticidade impressionante. A cena que lembra o trágico desastre do maremoto do Japão, em 2011, vulgarizado como Tsunami:

de repente uma onda
se ergue cada vez maior
o que assusta na onda não é o modo
como ela se ergue
feito uma aranha armadeira
o ponto mais alto que alcança
da altura de um prédio
de trinta e cinco, de oitenta e sete
andares, um muro
impossível de escalar
a aranha na posição de ataque
o que faz temer a onda
é a maneira como vai despencar
lá de cima o choque
o barulho a espuma (ibidem, pp. 18, 19)
[…]
a espuma de sal
da onda que despencou
de repente vira noite
debaixo d’água
o corpo sem sentido
mole jogado de um lado
para o outro (ibidem, pp. 21, 22)

Assim como Armando Freitas Filho utiliza a técnica analógica tipicamente cabralina, Alice Sant’Anna consegue aproximar esse recurso da sensibilidade da poesia japonesa. No trecho acima, por ex., a onda é comparada primeiramente a uma aranha armadeira. A característica do animal é transferida para a onda. Logo em seguida, segunda analogia é uma ampliação: a onda se arma da altura de um prédio que, de trinta e cinco, sobre para oitenta e sete andares, depois é como um muro…

Esse amurado da água recorda aquele “gouffres amers”, que Baudelaire imortalizou em seu O Albatroz, traduzido tão diversamente por nossos poetas, como: vórtices amargos” (Teófilo Dias), “abismos salgados” (Félix Pacheco), “abismos amargos” (Jamil Almansur Haddad), “glaucos palamares” (Ivan Junqueira), que são visões do poder temível das águas, ora como um vórtice redemoinhando tudo ao redor, ora como um amurado marítimo, tal como a onda pintada por Alice Sant’Anna.

A lírica marítima se mistura com a consolidação da nossa língua. É sabido que a palavra “saudade”, tão presente nas canções de amigo do trovadorismo português, surge de um evento específico: a espera pelo retorno dos navegantes, com um duplo sentimento – a necessidade da presença de quem se ausentou e a expectativa de reencontro.

Desta forma, somando-se o legado das vanguardas, Armando Freitas Filho e Alice Sant’Anna reafirmam as vertentes de que falava Carpeaux. E embora sem a rebeldia visionária de Rimbaud, a qual só seria possível pela afasia, algo que seus epígonos jamais se deram conta, os poetas cariocas compartilham os mesmos recursos técnicos: a poesia intimista, confessional, requintada e “arte pela arte”, no caso de Armando; e a poesia intimista, aproximando-se de um lirismo doméstico, de uma sensibilidade sui generis e de um poder pictórico notável, no caso de Alice Sant’Anna.

Como falamos em legado das vanguardas, podemos constatar que Oscar Wilde estava certo ao dizer que só o que é moderno pode ficar fora da moda.

Wagner Schadeck

Nasceu em Curitiba, onde vive. É tradutor, ensaísta, editor e poeta. Colabora com a Revista Brasileira (ABL), com a Revista Poesia Sempre (BN) e com os periódicos Cândido e Rascunho. Em 2015, organizou a reedição de A peregrinação de Childe Harold, de Lord Byron, pela Editora Anticítera.