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Os paradoxos da poesia concreta

por Emmanuel Santiago (28/08/2017)

Não só a modernidade diluiu os limites entre verso e prosa, como o concretismo declara “encerrado o ciclo histórico do verso”.

Augusto de Campos

Para a orelha de Parsona, de Adriano Scandolara (um dos livros de poemas mais instigantes de 2017, ano particularmente bom para a poesia brasileira), escrevi:

Nestes tempos em que os procedimentos concretistas integraram-se confortavelmente aos cânones da literatura brasileira, e os epígonos pululam, a poesia experimental tornou-se carne de vaca; ganhou em prestígio o que perdeu de potencial crítico. O verso morreu, pero no mucho; ao menos sobreviveu aos grandes poetas concretos, com exceção de Augusto de Campos, que ainda arrasta, vez ou outra, suas correntes antilíricas pela Casa das Rosas, em São Paulo.

O trecho que fala da morte dos poetas concretos e da presença fantasmagórica de Augusto de Campos em nossas letras sofreu edição, para não dizer que foi suprimido. Não sei se tal edição ocorreu por conta da escassez de espaço ou de razões de ordem mais diplomática, digamos assim. O fato é que ela me poupou do vexame público, pois, pouquíssimo tempo depois, Augusto não apenas publicou um livro novo, Outro, como ainda recebeu um importante prêmio literário, o Prêmio Pablo Neruda, outorgado pela primeira vez a um escritor brasileiro. Não me furto, porém, de compartilhar com vocês esse pequeno fiasco crítico.

No entanto, é mesmo chegada a hora de fazer um balanço sobre a aventura concretista, tentando identificar qual foi o seu legado para nossa literatura. Estará esgotado o experimentalismo da poesia concreta? Fincou raízes?

A poesia concreta representou uma ampliação formidável do horizonte criativo da poesia brasileira, ao passo que lhe impôs severas limitações. Propondo-se a explorar a palavra em todas as suas dimensões: semântica, fonética e gráfica (resultando numa poesia “verbivocovisual” — expressão cunhada por James Joyce e repetida como um mantra pelos seus autores), a poesia concreta desenvolveu uma enorme gama de possibilidades técnicas e formais, incorporando materiais e procedimentos das mais diversas modalidades de comunicação. Nisso consistia sua maior força e, também, a maior fraqueza. Nos melhores casos, o poema concreto consegue integrar o poético e o extrapoético — como elementos do design gráfico —, criando um atrito interessante que gera a fagulha do efeito estético. Assim, os elementos semióticos estranhos à linguagem verbal autonomizam-se de suas funções pragmáticas, isto é, da mera transmissão de uma mensagem (e por isso mesmo se fazem poéticos), enquanto a linguagem verbal ganha novas virtualidades para além de suas balizas como código. Todo mundo sai ganhando. Contudo, um perigo frequente é que tal tensão entre o propriamente poético e o não poético não se sustente, transformando o poema numa peça de comunicação visual (que em nada se distingue de uma peça publicitária, por exemplo) ou submetendo os procedimentos formais a uma ilustração didática do conteúdo semântico, um problema detectado pelos próprios idealizadores do concretismo nos caligramas de Apollinaire.

Já as restrições que o concretismo impôs à poesia diz respeito à equivalência que o movimento estabeleceu entre função poética da linguagem e linguagem poética.

Vamos por partes, sem nenhuma pretensão de obter uma definição de validade universal. O que chamamos de poesia é um subgrupo da literatura (sendo que, até o século XVIII, o termo “poesia” abrangia o que se entende hoje por literatura). Por sua vez, Literatura é uma forma de expressão artística, estética, que se distingue das outras formas de arte por seu material específico: a linguagem verbal. Fiquemos assim, então: literatura é o uso da linguagem verbal num ato comunicativo que tem como principal finalidade produzir efeito estético. Não cabe aqui uma discussão sobre a natureza do estético; prefiro remeter o leitor à Crítica da faculdade de julgar de meu xará Kant. Basta dizer que um texto literário não pretende apenas transmitir uma mensagem da maneira mais eficiente possível, mas também — e sobretudo — atuar sobre a sensibilidade do leitor, despertando-lhe sensações, emoções e sentimentos.

A princípio, o que distingue a poesia de outras manifestações literárias é que estas seriam concebidas em prosa e aquela, em verso. Seguindo a lição de Octavio Paz em O arco e a lira, podemos dizer que, no verso, o ritmo predomina sobre o significado, já na prosa, o contrário. Em suma: poesia corresponde às formas literárias em que o aspecto rítmico predomina sobre o semântico, mas sem anulá-lo; trata-se de uma ênfase. Porém, não só a modernidade diluiu os limites entre verso e prosa, como o concretismo declara “encerrado o ciclo histórico do verso”, tornando as diferenças entre esses dois modos de configuração textual irrelevantes para o presente debate.

Na poesia concreta, portanto, o ritmo não é um fator determinante na produção do efeito estético, embora possa vir a ser empregado. Talvez o termo “linguagem verbal” seja, também, excessivamente genérico se pensarmos que a sintaxe, um de seus elementos constitutivos, é dispensável num poema concreto. Uma descrição sucinta de poesia que, sem excluir as demais variantes poéticas, pode ser aplicada ao concretismo é a seguinte: produção de efeito estético por meio da exploração do signo linguístico. Como obtê-lo, entretanto? É aí que entra a função poética da linguagem.

Segundo o linguista Roman Jakobson, a função poética da linguagem é aquela na qual a mensagem transmitida chama a atenção sobre si mesma, sobre seus elementos constitutivos, como os aspectos fonéticos. Estamos falando de recursos estilísticos como a rima, a métrica, aliterações, assonâncias, paronomásias, cacófatos etc. Ou seja: na função poética da linguagem, o interesse recai sobre o significante (conjunto de sons articulados convencionalmente relacionados a um conteúdo ideal específico), deslocando-se o significado (conteúdo ideal) para um segundo plano, complementar. É por isso que se pode dizer que, nesse caso, trabalha-se com a dimensão “material” das palavras. O concretismo, que explora os aspectos gráficos do código escrito, estende a função poética às letras, com suas formas e combinações. Isso resulta num emprego lúdico da linguagem, que está na origem do efeito estético obtido pela poesia. Para Jakobson, o que distingue a poesia das demais modalidades de comunicação verbal é o predomínio da função poética.

A dívida da poesia concreta com o formalismo russo, do qual Jakobson é uma das figuras proeminentes, é visível em alguns de seus textos teóricos. Em “Evolução de formas: poesia concreta”, Haroldo de Campos afirma: “Os formalistas rejeitam o conceito idealista de imagem como conteúdo da obra de arte, substituindo-o radicalmente pela palavra como único e exclusivo material da poesia”. Num manifesto de 1956, assinado por Décio Pignatari, lemos: “com a revolução industrial, a palavra começou a descolar-se do objeto a que se referia, alienou-se, tornou-se objeto qualitativamente diferente, quis ser a palavra /flor/ sem a flor”. Isso revela a intenção de tomar o significante como vetor do trabalho poético, o que não significa ignorar o significado, mas tratá-lo como um substrato a ser dissolvido na solução do poema, o que que Haroldo de Campos, por exemplo, chama de “rastros de conteúdo” ou de “lastro imediato de significado” (um mínimo de função referencial, portanto). Afinal, como repetido em diversas ocasiões pelos concretistas, “o conteúdo do poema concreto é sua própria estrutura”. Isso nos revela a tendência de a poesia concreta fazer coincidir o poético com a elaboração dos aspectos materiais da palavra. Não é por acaso que, em O sequestro do barroco na Formação da Literatura Brasileira, Haroldo de Campos acusa Antonio Candido de priorizar, em sua obra maior, as funções referencial e emotiva da linguagem em detrimento da poética.

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Contudo, o próprio Jakobson já havia alertado em “Linguística e poética” (tradução minha de uma versão em espanhol): “Qualquer tentativa de reduzir a esfera da função poética à poesia ou de confinar a poesia à função poética seria uma enorme e enganosa simplificação. A função poética não é a única função da arte verbal, mas apenas sua função dominante, determinante, enquanto que em todas as demais atividades verbais ela atua como elemento subsidiário, acessório”. Ou seja: nem o discurso poético se confunde com o emprego da função poética, nem esta se restringe àquela, já que a encontramos com frequência na publicidade e no humor. O concretismo, por sua vez, eliminando o caráter discursivo da linguagem em seu projeto de criar uma poesia “ideogramática”, acaba por confundir os dois termos.

Dessa maneira, podemos considerar a centralidade da paronomásia na poesia marginal como parte do legado da poesia concreta, ainda que os marginais, tornando o poema permeável à vivência pessoal, enxergassem sua produção como um contraponto à “consciência rigorosamente organizadora” do concretismo. O poema reduzido a um chiste baseado no puro jogo de palavras é um dos desdobramentos possíveis de uma compreensão da poesia como domínio exclusivo da função poética. Com a diferença de que, no poema marginal, muitas vezes o humor opera como uma tentativa de subtrair os signos à sua reificação no poema concreto.

Eis o grande paradoxo do concretismo: ao mesmo tempo em que amplia enormemente os materiais e os procedimentos à disposição do poeta, restringe drasticamente as possibilidades expressivas da linguagem. Aumenta o repertório do poema para além da poesia, mas o mantém enclausurado nos limites estreitos de uma performance linguística exclusivamente poética.

Talvez aí esteja a razão do erro de diagnóstico dos teóricos do concretismo. Embora tenha sido decretado morto na década de 1950, o verso nunca esteve tão vivo quanto hoje. Tenho a impressão de que, dentre os poetas que começaram a publicar nos anos 2000, diminuiu consideravelmente o número dos continuadores do experimentalismo concreto. Um dos motivos é aquilo o que Iumna Simon, num ensaio chamado “Situação de sítio”, define como “retradicionalização da poesia”: o concretismo e seus desdobramentos converteram-se em rotina estética e agora operam no campo da previsibilidade, tendo perdido o potencial crítico e a capacidade de expressar as contradições de nosso tempo. Outro motivo é que a poesia concreta, ao menosprezar as funções da linguagem que não a poética, desconsidera que grande parte do interesse humano pela poesia vem de suas ressonâncias psicológicas, descartadas pelos concretistas como “desvio subjetivista”, “demanda de catarse” e “papel de tornassol de sensibilismos irresolvidos e vagas disponibilidades”.

Se julgarmos a importância da poesia concreta para a literatura brasileira apenas por sua sobrevivência na obra de seus continuadores, podemos pensar que sua influência está em declínio e que, talvez, ela não tenha passado de um longo modismo. Mas estaríamos enganados. Parece-me que o concretismo deixou duas importantes contribuições à poesia brasileira, incorporadas definitivamente ao repertório técnico dos poetas contemporâneos. A primeira é a exploração do espaço em branco da página como elemento constitutivo do poema — fator de ritmo e de estruturação do poema — em tensão permanente com a parte escrita. Certamente, essa não é uma invenção da poesia concreta, mas foram seus autores que sistematizaram tal procedimento, emprestando-lhe um alto grau de consciência compositiva.

A segunda é que, mesmo não tendo abolido de vez o verso, o concretismo conseguiu destruí-lo como unidade rítmica e semântica, abrindo caminho para uma fragmentação do discurso poético e uma sintaxe elíptica. O verso livre ainda era visto como uma reprodução do ritmo natural da elocução verbal, encerrando uma ideia completa, o que desaconselhava o uso de enjambements. Após o concretismo estraçalhar o verso e reduzir o signo à condição de átomo, um mundo de possibilidades se abriu ao poema, fenômeno comparável, na música, ao advento da atonalidade.

O verso sobreviveu ao atentado concretista, mas este lhe alterou drasticamente a substância. O legado do concretismo, portanto, não deve ser avaliado como a sobrevivência de um conjunto de fórmulas e procedimentos, mas como uma lição radical de liberdade criativa, que deve ser modulada por cada novo poeta conforme seu próprio estilo. Mesmo a integração do espaço em branco ao poema e a fragmentação discursiva tornaram-se possibilidades entre outras à disposição do autor, não tendo se cristalizado numa poética prescritiva. Por outro lado, a poesia contemporânea vem ganhando muito em timbres, interesse humano e amplitude de temas ao se libertar de uma visão estreita da linguagem poética como função poética da linguagem, difundida pelos poetas concretos. Sim, o concretismo marcou profundamente o desenvolvimento da poesia brasileira, mas seu legado foi ambivalente: desbravou o campo das possibilidades estéticas, ao mesmo tempo em que submeteu o poema à camisa de força do exclusivismo da função poética.

Emmanuel Santiago

Doutor em Literatura Brasileira pela USP. Autor de Pavão bizarro (poesia) e A narração dificultosa (crítica).