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Fake news e o novo velho normal

por Renata Ramos (21/08/2021)

A despeito da falsidade de uma teoria, uma pessoa pode estar plenamente convencida de sua veracidade.

O correspondente do New York Times em Moscou, Walter Duranty, recebeu o Prêmio Pulitzer, a despeito de sua cumplicidade com o regime assassino de Stálin. Duranty escondeu – deliberadamente – o genocídio (Holodomor) que dizimou a Ucrânia, a Bacia do Volga, e as regiões de Cubã e o Cazaquistão, no inverno de 1932-1933.

As mentiras produzidas pelos devotos do Poder e do dinheiro, ou pelos inocentes úteis por eles arregimentados, consistem no velho normal. Se o Górgias fosse escrito neste século, é bem provável que Platão empreendesse uma luta contra as fake news, que não passam do novo velho normal viralizado. Também não existe qualquer novidade nas práticas autoritárias, e de censura, dos monopolistas da verdade. Como a liberdade depende da verdade para existir, não espanta que autoritários lutem com unhas e dentes pela perpetuação de um ambiente de mentiras generalizadas.

Antes de qualquer coisa é preciso conceituar fake news, porquanto o termo foi instrumentalizado em benefício das narrativas hegemônicas. Os novos sofistas vendem, sob a confeitaria retórica de fake news, tudo aquilo que está em desacordo com o progressismo, e que não faz avançar a sua agenda. Para esses amantes da retórica, democracia nada mais é do que a imposição de intervencionismo ou de socialismo, e discurso de ódio significa qualquer crítica mais contundente ao círculo dos sacerdotes da nova humanidade.

De acordo com as narrativas alucinadas do atual Fake World, corroboradas pelas Big Tech, a censura praticada contra Donald Trump, ex-Presidente da maior democracia do mundo, foi empreendida em favor da democracia contra fake news. Por sua vez, certas fake news produzidas pela “onda conservadora”, a exemplo de visões alternativas sobre política intervencionista, identitarismo, Black Lives Matter, mudanças climáticas, Brexit e Covid-19, merecem o recrudescimento da censura também “em defesa da democracia”.

O palavrório pomposo dos sacerdotes da nova humanidade é mais do mesmo em termos de novilíngua e de duplipensar. George Orwell percebeu que o primeiro objetivo da revolução é sempre a linguagem. Nesse rumo, uma novilíngua é criada para substituir o lugar previamente ocupado pela verdade e, com a conclusão do trabalho, descreve-se o resultado como “política da verdade”. F. A. Hayek também nutria profunda preocupação “pelo fim da verdade”, e pela servidão como corolário lógico da morte da verdade.

O economista José Hamilton dos Santos Batista, versado também no racionalismo pancrítico de Karl Popper, adverte que, ao divulgar a teoria da Terra plana, um indivíduo não deve ser censurado em nome de fake news. Isso porque, como explica Batista, há uma confusão bastante comum entre uma mentira, manejada com intenção de enganar, e uma proposição falsa. Com efeito, verdade e falsidade são propriedades de um teoria. Nesse rumo, se alguém acredita que a terra é plana e divulga essa teoria falsa, esse alguém pode ser considerado um idiota; todavia, não pode ser acusado de mentir deliberadamente.  De mais a mais, uma mentira pode vir a se revelar uma verdade, já que todos os mentirosos são seres humanos e seres humanos são falíveis. Mentirosos também cometem erros, e o mero ato de mentir não torna uma proposição mentirosa.

A despeito da falsidade de uma teoria, uma pessoa pode estar plenamente convencida de sua veracidade. Nesse caso, conquanto a teoria seja falsa, ela não foi produzida com a intenção de enganar. Por conseguinte, o único critério válido para categorizar algo como fake news é a má-fé, o que exclui, por óbvio, as teorias falsas.

A parafernália dos Comitês, Fact-Checkers e censura privada ou estatal é somente histeria dos poderosos de ocasião, que louvam a democracia apenas quando esta não é “populista”. No fim das contas, a verdade dependerá do grupo que detém o Poder, uma vez que os critérios para que algo seja entendido como fake news, a exceção da má-fé no ato de mentir, são puramente arbitrários.

Do momento em que os sacerdotes da nova humanidade defendem “a liberdade, a democracia, e a abertura da comunidade global contra o autoritarismo, isolacionismo e nacionalismo”, não consigo deixar de pensar que praticam, na verdade, fake news, porquanto suas atitudes autoritárias e anti-concorrenciais somente fomentam mais autoritarismo, isolacionismo e nacionalismo.

Renata Ramos

Doutora em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina.

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