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Entre fariseus e filisteus

por Fabrício de Moraes (12/09/2017)

Nossos liberais acabam fazendo o trabalho da esquerda: destruir qualquer ideia de cânone e considerar panfletarismo como arte.

“David” de Michelangelo (1504)

No seu recente livro The New Philistines (Provocations), Sohrab Ahmari analisa detidamente a obsessão da arte contemporânea pelas questões de identidade e representatividade; no mais das vezes, diz o autor, o artista em si é o foco, e não sua arte, numa espécie de retomada da crítica biográfica – para não dizer determinismo – que faria inveja a qualquer Saint-Beuve. Como já disse Karl Kraus num aforismo, “quando o sol da cultura está baixo, os anões também projetam longas sombras”. O nanismo do debate público evidentemente é resultado desse novo ideal artístico movido pelo desejo de “justiça poética”, conforme já escrevemos em outro local.

No Brasil, o nanismo não raro vem acompanhado da indiferenciação entre categorias e do uso equivocado e confusão de conceitos políticos e artísticos. Sucintamente, temos por um lado uma nova direita, por aí alcunhada de “lombrosiana”, precipitada em todos os seus atos, despreparada para a análise cultural. Ressentimento é a palavra de ordem. Então, num primeiro momento, as ações de invasão, depredação, cerceamento são sempre condenáveis. Se houve, como dizem, ameaças contra os “artistas” (e as aspas aqui são de fato irônicas) da exposição “Queermuseu” do Santander Cultural, então esses direitistas em nada diferem da esquerda nos métodos. E de nada adianta a afirmação de que algumas coisas são tão imorais que merecem a destruição organizada – essa tentativa de redenção da iconoclastia esbarra num velho dilema: Quis custodiet ipsos custodes?, quem vigia os vigilantes?, quem julga a imoralidade e responsabiliza-se pelo ímpeto iconoclasta?

Daí a imperiosa distinção entre direitistas e conservadores: o repúdio moral e o combate no âmbito simbólico são o equivalente social ao gentlement agreement, a resposta ponderada ao mórbido, grotesco e moralmente execrável, como é o caso de algumas “obras” expostas no espaço cultural. Porém, é realmente curioso que as mesmas pessoas (os direitistas, e não os conservadores) que estavam afirmando a liberdade de expressão quando dos eventos em Charlottesville estejam agora indignados com a exposição Queermuseu. Evidentemente creio na liberdade de expressão, ao menos do modo como a compreendo, embora hoje em dia muitos considerem cada um de seus disparates e imbecilidades como epifanias. Mas, de igual modo, defendo que, como contraparte necessária, temos que aceitar sempre a possibilidade (e efetividade) do repúdio moral.

Nesse sentido, não adentrando em terminologias, há uma diferença entre censura e boicote; e os esquerdistas deveriam ser os últimos a condenar quaisquer boicotes (no caso, pessoas fechando suas contas no banco e negativando as páginas virtuais da instituição mantenedora, embora as caixas de comentários sejam ainda um critério quase absoluto para distinguir os bárbaros). Lembremos do episódio da mostra de cinema (contra “filmes golpistas”) em Pernambuco, que, à época, foi para a esquerda um exemplo de boicote exitoso.

A questão de profanação ou vilipêndio de símbolos sagrados é outro ponto que permanece obscuro para aqueles que ainda teimam nas suas análises puramente sociais. Uma pesquisa superficial por jornais europeus revela que o sentimento anti-islâmico cresce vertiginosamente e manifesta-se por meio de assaltantes que, curiosamente, rasgam as burcas e os véus de mulheres nas ruas das grandes cidades. O símbolo é não somente uma matriz de intelecções (S. Langer), mas também o modo como determinada comunidade se reconhece, conforme a própria etimologia da palavra nos revela (syn + bolys = lançar conjuntamente). E talvez neste ponto as análises liberais se distanciam das queixas dos conservadores, pois estes, mais do que outros, reconhecem a importância de símbolos e narrativas na formação do ideário social e na percepção da própria identidade.

Tomemos um exemplo literário: George Steiner, num de seus livros, fez um apanhado de imagens do antissemitismo europeu anteriores ao nazismo. Daí literalmente culpa desde as cartas de Paulo (!) até obras como O Judeu de Malta, de Marlowe, como lenientes, quando não catalisadoras, ao sentimento antissemita. Ironicamente Marlowe foi também repudiado por islâmicos, quando de uma representação de seu Tumberlaine, The Great, já que o protagonista, ao final da segunda parte da peça, queima um Alcorão.

Os nazistas, antes do Holocausto, fizeram exposições e mais exposições “denunciando” a arte degenerada (sic) dos artistas modernos, dentre eles artistas judeus. O teórico nazista Paul Schultze-Naumburg, por meio da fundação Defesa da Cultura Alemã, usava os quadros, ao lado de fotos de patologias, para obviamente desumanizar os conteúdos retratados nas fotos. (Não esqueçamos ainda os rolos de Torah queimados na Kristallnacht alemã, e os kipás arrancados das cabeças de judeus durante essa mesma época.) Liberais podem defender a exposição de obras como sinal de liberdade (e particularmente creio que toda proibição moralista, à esquerda ou à direita, é sempre prejudicial, visto que é farisaica), porém serão morbidamente ingênuos se não tiverem em mente que a arte, embora deva ser livre de moralismos, pode muito bem, quando deliberadamente utilizada por certos grupos, ser também um instrumento de desumanização de comunidades específicas. Aos apressados, a analogia não relaciona nazismo e a exposição em debate, mas sim o poder efetivo das imagens na formação (ou deformação) do ideário de uma sociedade.

Ora, o “Queermuseu” é efetivamente digno da designação de ramerrão: é o lugar-comum do épater la bourgeoisie e a crítica, já desgastada, contra a família tradicional cristã brasileira etc. E neste ponto há espaço para críticas aos liberais: há uma frigidez, quando não afetação, de alguns liberais, que seguem o raciocínio da esquerda (como veremos adiante), além de um esteticismo à la Lord Henry (do Dorian Gray) que aparentemente crê que a arte não possa ser instrumentalmente usada – ainda quando não é a intenção do artista – para a engenharia do “imaginário social” (Charles Taylor).

Alguns quadros do período do Yellow Terror nos EUA, quando certos intelectuais e líderes acreditavam na grande conspiração mundial dos chineses para o domínio do globo, foram de fato expostas em museus e galerias. Certamente o melhor caminho não é a proibição, nem o fechamento à força – novamente, os moralismos, de esquerda ou de direita, são prejudiciais, visto que não brota da personalidade e vontade individual. Evidentemente, zombar de alguns moralismos exaltados contra a arte é, até certo ponto, compulsório. Porém equiparar o episódio, nem que seja em relação à temática da exposição, com a efetiva censura de Nabokov, Kubrick e Mann é fazer o mesmo papel da esquerda acadêmica: nivelar, para não dizer acachapar, obras esteticamente desiguais de acordo com seu “tema”. Decerto Lolita trata do problema da pedofilia, mas transfigurando-o, e jamais de maneira grosseira. Tecendo tais comparações, nossos liberais, ainda que inconscientemente, acabam fazendo o trabalho da esquerda: destruir qualquer ideia de cânone e considerar panfletarismo como arte.

Há aqui uma imprecisão conceitual: embora, grosso modo, Lolita e a “Criança Viada” exposta no Santander tratem de um mesmo fenômeno (mais especificamente, uma patologia e um crime, igualmente), é fato que o modo de tratamento e o “enquadramento” moral últimos são quase opostos. O panfletarismo – em qualquer âmbito – é sempre pernicioso, já que se trata de um reducionismo que elimina os dramas da condição humana. Quanto mais cru o tratamento de um problema, menor é seu impacto. Por exemplo, hoje em dia, só alguém eivado de boa vontade é capaz de ler, por prazer estético e não por curiosidade lasciva, As onze mil varas, de Apollinaire. Parafraseando Shaw, há obras que se esgotam no simples choque moral projetado e obras, atualmente clássicas, que exploram mais profundamente as reverberações morais.

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No excelente artigo de Rodrigo de Lemos aqui na Amálgama, percebemos que parte da nova direita realmente adolesceu, o que não necessariamente significa que tenha amadurecido. Saturados apenas de ciência e filosofia políticas (basta uma rápida olhadela nos livros que indicam), alguns deles partem para uma guerra que ironicamente reconhecem como cultural, porém sem a devida equipagem da literatura imaginativa e literária. Incapazes do repúdio e escárnio no âmbito simbólico – e sendo claro: a arte do Queermuseu é doentia e horrível –, recorrem a meios não muito delicados que infelizmente darão força à narrativa da esquerda, que percebe e retrata todos à direita como truculentos e autoritários.

Porém, uma ressalva ao artigo de Rodrigo. Em certo momento, ele indaga:

Quanto ao cristianismo, como esse regime de verdade universal, e mais, regime de verdade universal visceralmente expansionista, pode se adequar à cité de hoje, liberal no sentido de que não há consenso sobre primeiros princípios? Mais ainda, como esse regime de verdade universal expansionista pode conviver com gente que não apenas não reza pela mesma cartilha, mas para quem os seus princípios e os símbolos que os acompanham são vazios, quando não nocivos?

Toda cosmovisão, mesmo a liberal, implica numa verdade universal última, ou ao menos um princípio imprescindível (seja a autonomia e liberdade humanas, seja, no caso do cristianismo, o Deus trinitário pessoal). O cristianismo é capaz de sobreviver na cité, pois, desde seus primórdios, tem sido, nos termos agostianianos, a Cidade de Deus em meio à Cidade dos Homens, e curiosamente um âmbito de universalização. Isto é, o cristianismo, diferentemente de certas religiões, não é étnico – sua transmissibilidade é antes espiritual do que genética. E, diferentemente do islã, por exemplo, não elimina a cultura local ou regional, mas é capaz de absorvê-la e, na sua compreensão, redimi-la. É por isso que há mais de vinte ritos litúrgicos aceitos no catolicismo, cada um deles influenciado por seus costumes regionais. Ademais, o cristianismo é sim expansionista, o que não significa que seja imperialista, isto é, não tecnicamente, visto que o império é sempre estabelecido pela força.

Claro que progressistas, o que não é o caso do artigo em questão, poderão afirmar que o cristianismo foi, em determinado momento, agressivo e impositivo. Uma discussão histórica sobre isso está além do escopo de um pequeno ensaio ocasional. Contudo, ao menos desde a Paz de Vestefália, não vemos populações sendo catequizadas à força e contra a própria vontade por parte de alguma instituição cristã. Pelo contrário, conforme dados reunidos a partir dos países da chamada janela 10×40, o cristianismo, em suas várias tradições, permanece sendo a religião mais perseguida no mundo. Além disso, é curioso e digno de nota que o símbolo máximo do cristianismo, a cruz, provém de uma cultura que, a princípio, era-lhe terrivelmente hostil. Para os romanos, a crucificação era um assunto tão indigno, impróprio e mórbido que todas as pessoas minimamente elegantes abstinham-se de mencioná-la ou citá-la nas conversas e reuniões sociais.

Certamente há uma versão – eu diria uma redução – do cristianismo que é impaciente para com o contrapeso secular, como afirma Lemos em seu artigo. Talvez por uma ilusão com relação ao próprio secularismo, o qual, não tendo fundamento transcendental, é presa dos projetos de ordem intramundana, como dizia Voegelin. Em The theological origins of modernity (2008), de Michael Allen Gillespie, vemos que a modernidade é menos secular do que por vezes imaginamos. Segundo o autor, o mundo moderno é uma série de tentativas de novas formulações teológicas, algo que de certo modo se aproxima da ideia de Carl Schmitt de que todos os conceitos políticos são conceitos teológicos esvaziados, aliás, transpostos para um domínio imanente.

Qualquer liberalismo digno de nome apoia-se na universalidade da liberdade e autonomia humana – até mesmo os Estados são hoje legitimados quando há o reconhecimento internacional de sua soberania e autonomia. Há alguns pontos universais que marcam um ponto de não retorno: para o liberal, é a liberdade; para aristotélicos, é a lógica. E onde seus símbolos forem tripudiados, haverá certamente indignação. Curiosamente aqueles que negam esses pontos (e não princípios) universais são os mesmos que, com razão, zombam daqueles que advogam a terra plana, por exemplo. Acrescento ainda que talvez a própria ideia de liberdade, ou respeito pela autonomia do indivíduo, não faz sentido num quadro referencial naturalista – afinal, a mera biologia não é condição suficiente para sustentar o valor da dignidade humana.

Herman Dooyeweerd, com toda sua erudição, dizia que o motivo-base característico da modernidade era o binômio natureza x liberdade. Isto é, ao mesmo tempo em que o homem, movido pelo ímpeto humanista, entende que a liberdade é a condição essencial para seu desenvolvimento, ele também percebe e é assolado pela ideia (influenciada pelo método empírico) de que a natureza determina, ou ao menos influencia fortemente, a individualidade humana. Com efeito, por influência do “polo da natureza”, pensadores rejeitam a consciência ou a definem como o simples resultado de processos bioquímicos, históricos ou genéticos (quando não afirmam que se trata de uma ilusão); porém, ao mesmo tempo, há um crescimento exponencial de métodos de controle psíquico, engenharia social, behavorismos vários, psicologias de massas etc.

O caso da exposição queer no Santander talvez desvaneça em breve da memória coletiva – e esta, em particular, é minha expectativa. Mas é inegável que o acontecimento demarcou e levantou algumas questões que necessitam seriamente de nossa reflexão: concedendo que a liberdade de expressão é válida, quais são os critérios morais oferecidos pelo liberalismo que demarcam os limites entre o simplesmente repulsivo e o aviltante? Os cristãos perceberão que todo pedido de auxílio ao Estado para a promoção da moral é uma armadilha e adultério espiritual? A direita perceberá que seu comportamento, caso não regido pelos princípios verdadeiramente conservadores, servirá para justificar as narrativas da esquerda que sempre enfatizam a truculência e a incapacidade de diálogo direitistas? A esquerda perceberá que o boicote é inteiramente justo, mesmo que vá contra seus valores? Ou ainda julgar-se-á a detentora do sumo bem e da única moralidade que importa?

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Fabrício de Moraes

Tradutor, doutor em Literatura (UFJF/Queen Mary University of London).