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Opinião, a rainha do mundo

por Wagner Schadeck (20/10/2016)

Pascal defende o jansenismo com base na Tradição.

"As Provinciais", de Blaise Pascal (É Realizações, 2016, 296 páginas)

“As Provinciais”, de Blaise Pascal (É Realizações, 2016, 296 páginas)

Escritas entre janeiro de 1656 e maio de 1657, em As Provinciais, o matemático, filósofo, teólogo e moralista francês, Blaise Pascal apresenta-se como ferrenho polemista. Durante o conturbado período de disputas morais e teológicas entre jansenistas e jesuítas, sob o pseudônimo de Louis de Montalte, Pascal escreve dezoito cartas defendendo seu amigo jansenista Antoine Arnauld, que passava por julgamento em Sorbonne.

Compostas com fina ironia, essas missivas testemunham os embates intelectuais e muitas vezes os excessos morais da época. Nesta contenda, ambos os lados tiveram perdas. Entretanto, segundo o tradutor Roberto Leal Ferreira, ela pode ter sido responsáveis tanto pelo desiquilíbrio da Igreja na França, como pela ascensão do iluminismo francês. E este é um aspecto importantíssimo para se pensar a contemporaneidade.

Com quase quatrocentos anos de atraso, esta é a primeira tradução integral da polêmica e saborosa obra-prima pascalina. Dentre as discussões arroladas, as disputas vão de questões morais até metafísicas.

Nas dez primeiras cartas, Pascal coloca-se como um ingênuo estudante, interrogando diversos padres, sobre suas interpretações a respeito da moral e também da Graça divina em relação ao Livre-arbítrio. A ironia pascalina nos leva a certa perplexidade, não porque o conteúdo seja de alta complexidade, mas porque, no fim das inquirições, parece que o mais relevante para alguns contendores, ávidos pelo pomo de Éris, era o valor semântico de um advérbio.

Perguntam todos os fiéis aos teólogos qual é o verdadeiro estado da natureza [humana] depois de sua corrupção. Respondem Santo Agostinho e seus discípulos que ela só tem a graça suficiente na medida em que apraz a Deus conceder-lha. Vieram em seguida os jesuítas, que dizem que todos têm a graça suficiente. Os dominicanos unem-se a estes dizendo que: “estas graças suficientes são inúteis sem as eficazes, que não são dadas a todos” (p.32)

Convém lembrar ainda que essas discussões eram motivadas também pelas concepções da Graça defendidas por Lutero e Calvino, para os quais, grosso modo, o livre-arbítrio não resiste à ação divina. Um filme que exemplifica em certo sentido isto é O Livro de Eli, de 2010, dirigido por Albert e Allen Hughes. Em um mundo pós-apocalíptico, o protagonista Eli (Denzel Washington) é como um eleito divino para proteger e salvar o último exemplar da Bíblia. Com a presença da Graça, embora cego, ele enfrenta os inimigos; nada o fere, até que cumpra sua missão.

É uma visão bastante diversa das discutidas em As Provinciais. Dentro do catolicismo, são essas cartas de Pascal a investigação sobre essas questões e denúncias dos excessos. Neste sentido, Pascal defende o jansenismo com base na Tradição. Para ele:

…o homem, por sua natureza, tem sempre o poder de pecar e de resistir até mesmo à graça, e que, desde a sua corrupção, ele traz em si um infeliz fundo de concupiscência, que lhe aumenta infinitamente esse poder; no entanto, quando apraz a Deus tocá-lo com a sua misericórdia, Ele o faz fazer o que quer e como quer, sem que essa infalibilidade da operação de Deus destrua de modo algum a liberdade natural do homem, pela secreta e admirável maneira com que Deus opera essa mudança, tão excelentemente explicada por Santo Agostinho… (p. 266)

Por conta disso, Pascal acusa os casuístas jesuítas de terem endossado a condenação jansenista como heresia, relacionando essa concepção da graça com à protestante. Em relação às decisões do Papa e dos Concílios, ele explica com base nas questões de fé, que não entram em julgamento, e questões de fato, que são contingentes e, desta forma, passíveis de verificação, assim como de temeridade.

Porém, se por um lado a contemporaneidade está mais distante dessas discussões, por outro estas epístolas nos possibilitam uma ampliação do repertório de estudos de ética. Em boa parte de nossas universidades, o estudo da ética não contempla nem sequer Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. Ou quando contemplados, esses filósofos aparecem como meros adaptadores de Platão e Aristóteles para a moral cristã.

Uma antologia como a Textos Básicos de Ética: De Platão à Foucault (2007), de Danilo Marcondes, em certo sentido, demonstra como os estudos de ética estão estagnados. Ora, parte-se de uma leitura parcial do Peripatético, salta-se para o ceticismo de Hume (que demonstra, por um lado, a fragilidade da moral, no registro da natureza, e, por outro, a necessidade da Tradição), dividindo-se então, entre os estudos kantianos, com “imperativo categórico” (pressupondo um homem autossuficiente), e o utilitarismo (como felicidade como política pública e extensiva), e sua outra fase: pragmatismo, com a disseminação do politicamente correto.

Outra verificação possível das ramificações dos estudos de ética seria assistir a palestras de filósofos do mainstream, como os Clóvis de Barros Filho, Leandro Karnal e Mário Sérgio Cortella, que foram capa da revista IstoÉ, de setembro de 2016. Uma obra como a de Pascal derruba esses impasses e nos mostra a ingenuidade dessas éticas modernas, baseadas, muitas delas, no relativismo e em converter desejos em direitos.

Anatomista da alma, nessas cartas, Blaise Pascal aponta vários erros morais na chamada “Doutrina da Probabilidade” dos casuístas, que nos parecem, anacronismos à parte, puramente o relativismo moral. Por exemplo, na explicação de um Padre:

“…quando vemos um ladrão prestes a roubar uma pessoa pobre, podemos, para impedi-lo de fazer isso, indicar-lhe em particular uma pessoa rica, para que ele o roube no lugar da outra” (p. 107)

Em outra recomendação, diz o Padre que:

“… a filha está de posse da própria virgindade tanto quanto do próprio corpo […] ela pode fazer com eles o que quiser…” (p. 125)

Embora já condenado, isto nos soa bastante familiar nos protestos radicais e histerismos coletivos…  Poderíamos pensar também nos tipos de religiosos militantes que horrorizavam Nelson Rodrigues: O Padre de Passeata e a Freira de Minissaia. É claro que muitas dessas proposições foram posteriormente condenadas pelo Papa Inocêncio XI. Mas essa mesma ética do provável, que recomenda se valer de “termos ambíguos” e mesmo de “restrições mentais”, parece horrivelmente atual.

Desta forma, em tempos o nosso, em que a opinião vale mais do que o pensamento, aliado a outras publicações importantes da Editora Filocalia (É Realizações), como Sobre o Sermão do Senhor na Montanha, de Santo Agostinho, e o Discurso da Reforma do Homem Interior, de Cornelius Jansenius, saudamos este lançamento como altamente recomendado!

Wagner Schadeck

Nasceu em Curitiba, onde vive. É tradutor, ensaísta, editor e poeta. Colabora com a Revista Brasileira (ABL), com a Revista Poesia Sempre (BN) e com os periódicos Cândido e Rascunho. Em 2015, organizou a reedição de A peregrinação de Childe Harold, de Lord Byron, pela Editora Anticítera.