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Contemplação dos afetos

por Wagner Schadeck (24/10/2016)

A poesia de Espinheira Filho é feita com equilíbrios, da melancolia polida à sensibilidade contemplada, mas sobretudo da experiência de vida.

"Milênios e outros poemas", de Ruy Espinheira Filho (Patuá, 2016, 96 páginas)

“Milênios e outros poemas”, de Ruy Espinheira Filho (Patuá, 2016, 96 páginas)

Autor de mais de vinte livros de poemas, laureado diversas vezes, depois de reunir sua poesia em Estação infinita e outras estações (de 1966 a 2012) e Noite Alta e outros poemas (2015), com este Milênio e outros poemas (2016) o poeta baiano Ruy Espinheira Filho chega à madureza como um dos nossos líricos mais profícuos.

Destacando a trajetória desse é “um dos mais importantes poetas líricos brasileiros da modernidade”, Miguel Sanches Neto aponta em sua poesia as dimensões biográfica e histórica. Além disso, na contemplação dos afetos, essa “poesia amorosa”, num sentido mais amplo, “é uma das mais belas celebrações da amizade em nossa língua.”

Reafirmando esse aspecto em sua poesia, Alexei Bueno destaca-o ainda não só como “poeta da memória”, mas como “memorialista”, relacionando-lhe a poesia com a de Boitempo, de Carlos Drummond de Andrade, evidenciando-lhe ainda a “musicalidade altamente brasileira”.

De fato, se por um lado há toda uma dicção brasileira que permeia sua expressão, por outro, com este Milênio e outros poemas, o poeta baiano oferta-nos um catálogo lírico de diversos matizes: a memória amorosa, a beleza feminina, o sonho, a figura paterna, a infância mítica, entre outros marcam sua assinatura em nossas letras.

Convém destacar, entretanto, neste livro, outros aspectos, como a evocação de sua gênese lírica, presente logo no poema de abertura:

SONETO DAS MESAS

Convido os irmãos mortos para a mesa.
E mais o pai. E a mãe. E amigos tantos.
Não para reviver coisas de prantos,
pois horas dolorosas nesta mesa

não podem ter lugar. Tem a certeza
do amor com que bordamos nossos mantos
de dias já cumpridos e outros tantos
que são dos reunidos nesta mesa.

Os que se foram, eis que não se foram
de vez. E sempre vêm, quando os convido
ou não convido – jovens, sem tristeza.

Pai, mãe, irmãos, grandes amigos… Douram-me
a alma – enquanto aguardo, comovido,
minha vez de sentar-me à sua mesa.
(p. 19)

Abrindo o livro, este soneto também apresenta a filiação espiritual do poeta. Como a órfica – o canto aos mortos – de Carlos Drummond de Andrade a Ivan Junqueira, a mesa torna-se um lugar de encontro e conversa com os mortos.

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Outras presenças são Manuel Bandeira, em “As três”, Gonçalves Dias, em “Minha terra tem cajueiros”, Edgar Allan Poe, como em “Canção da pedra e do corvo”, John Keats e toda a tradição lírica ocidental, com o belo poema que dá título à obra, “Milênios”, entre outros. Trata-se de um resgate mítico operado pela memória, como no belo poema “Da permanência amorosa”, sobre Lord Byron.

E lá permanecerá o amor,
Como sempre permanece…
(p. 68)

Além disso, é uma poesia feita com equilíbrios, da melancolia polida à sensibilidade contemplada, mas sobretudo da experiência de vida.

MADRUGADAS

Se eu pudesse, contaria,
Mas não posso contar nada.
Você não compreenderia
Essas loucas madrugadas
– as madrugadas sem fim
Em que seu corpo descia
E pousava sobre mim
E ardia corpo a corpo
Sem nada dizer de não
E tudo dizer de sim.
[…]
(p. 61)

Ponto singular dessa lírica é o equilíbrio entre Eros e Tânatos, como no belo:

BREVE CANÇÃO DA CAMINHADA

Vamos todos caminhando,
Entre o amor e a morte,
Por sobre o fio da navalha,
Sem sul, leste, oeste ou norte.

E vamos, da luz da infância
Até a alma anoitecida,
Buscando um sentido no
Nenhum sentido da vida.

Que mais fazer? Ah brindar,
Entre o que tarda e o de súbito,
Às vitórias sobre a morte,
Até o último decúbito.
(p. 92)

Essa tônica irônica, como fonte de sapiência, é algo que não notamos nos livros anteriores. Ainda nessas canções, desta forma, merece relevo o admirável poema algo heineano:

BREVE CANÇÃO DAS PARTIDAS ETERNAS

Transatlânticos ou canoa
furada? Nem bem, nem mal,
que ir até a nado serve
como saída final.

Mas isso é esforço demais.
Basta só um suspiro fundo.
E há até quem nem feche os olhos
num último adeus ao mundo.

No mais, como não há queixas,
nunca, depois da partida,
todos chegam muito bem
ao outro lado da vida…
(p. 98)

O leitor encontrará nessa poesia aquilo que Alfredo Bosi, em O ser e o tempo da poesia, classificou como “poesia mítica”: o retorno ao tempo primordial. Curiosamente, o poeta baiano demonstra isso em fraternidade com os grandes vultos da poesia ocidental. Portanto, parafraseando o que Nietzsche dissera sobre Heine, este Milênio e outros poemas é um feliz acontecimento de nossas letras.

Wagner Schadeck

Nasceu em Curitiba, onde vive. É tradutor, ensaísta, editor e poeta. Colabora com a Revista Brasileira (ABL), com a Revista Poesia Sempre (BN) e com os periódicos Cândido e Rascunho. Em 2015, organizou a reedição de A peregrinação de Childe Harold, de Lord Byron, pela Editora Anticítera.