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Entre o marginal e o canônico

por Emmanuel Santiago (12/10/2017)

A figura de Lima Barreto que emerge da biografia de Lilia Schwarcz é a de um indivíduo ambivalente e contraditório.

“Lima Barreto: triste visionário”, de Lilia M. Schwarcz (Companhia das Letras, 2017, 704 páginas)

Lima Barreto: triste visionário, mais do que uma biografia, é um ensaio histórico de fôlego que, utilizando como fio condutor a trajetória do escritor Lima Barreto — figura ambivalente na qual se cruzam a condição de descendente de escravos e a de homem de letras em nossa belle époque — oferece-nos um grande panorama do que foi o Brasil nas décadas que se seguiram à Abolição.

Se, por um lado, o livro está longe de ser um apanhado de anedotas visando à celebração do autor ou ao mero delineamento de seu perfil idiossincrático, tampouco se trata de um exercício fátuo de erudição, desconectado de circunstâncias concretas, algumas das quais se perpetuam até os dias de hoje. Sobretudo, o que temos é uma reflexão sobre a ainda incompleta integração do negro à sociedade brasileira, partindo da investigação dos mecanismos de exclusão colocados em funcionamento pelo regime republicano em suas primeiras décadas, sejam tais mecanismos de ordem econômica, sejam de ordem cultural e simbólica.

Como apontado por Lilia Schwarcz, o fim do estatuto servil no Brasil fez-se acompanhar da disseminação de ideias racistas que se pretendiam científicas e encontravam na sobrevivência de uma mentalidade escravocrata o solo fértil para seu florescimento. Tais ideias, além de defenderem a superioridade da raça branca sobre as demais, ainda atribuíam à miscigenação um papel degenerativo, o que resultaria em inúmeros males físicos e psíquicos, inadequação social e propensão à criminalidade. Lima Barreto foi um ferrenho combatente dessas ideias, embora o histórico de seus pais (a mãe morreu precocemente de tuberculose e o pai enlouqueceu anos depois), combinado ao próprio quadro de alcoolismo, consistisse numa fonte permanente de insegurança e apreensão.

Lima Barreto parecia destinado a ascender socialmente conquistando o título de bacharel, percurso por meio do qual muitos indivíduos de descendência africana legitimaram-se e conquistaram espaço entre as elites brasileiras do século XIX. A mãe do escritor, Amália Augusta Pereira de Carvalho, filha presumida de uma escrava liberta com seu ex-senhor, tornara-se professora e chegara a dirigir uma pequena escola para moças; já o pai, João Henriques de Lima Barreto, filho de uma escrava com um português e protegido de Afonso Celso, o poderoso visconde de Ouro Preto, conquistara razoável prestígio como tipógrafo. O sonho de João Henriques era ver o filho formado “doutor”, o que, então, correspondia a uma espécie de redenção para as famílias de origem servil. Aos dezesseis anos de idade, Lima Barreto ingressaria na Escola Politécnica para cursar Engenharia. No entanto, as barreiras raciais e sociais que o afastavam de seus colegas não deixariam de ser sentidas e ressentidas pelo futuro escritor.

Lilia Schwarcz reconstitui magistralmente o modo como a trajetória familiar dos Barreto se entrelaça às reviravoltas políticas do país, mostrando como a instauração do regime republicano, que corresponderia à derrocada política do visconde de Ouro Preto, significou uma interrupção da trajetória ascendente de João Henriques. Por conta de seus vínculos com o visconde, o pai de Lima Barreto perderia seus cargos junto aos órgãos da imprensa liberal, que passaram a ser perseguidos pelo novo regime. Afonso Celso, no entanto, antes de partir para o exílio, garantira a seu protegido um posto na administração das recém criadas Colônias de Alienados da Ilha do Governador, lugar do qual o autor de Clara dos Anjos guardaria as melhores recordações da infância, mas onde, também, as condições psicológicas de seu pai se deteriorariam gradativamente, obrigando Lima Barreto, no começo da vida adulta, a abandonar a Escola Politécnica e assumir um emprego público — que sempre detestou — para sustentar os três irmãos e o pai enfermo.

A figura de Lima Barreto que emerge da biografia é a de um indivíduo ambivalente e contraditório, deslocado tanto no espaço quanto no quadro das classes sociais de seu tempo. Por um lado, era habitante dos subúrbios do Rio de Janeiro, onde residia uma população racial e socialmente diversificada, o que lhe permitia um olhar crítico e rebelde, justamente porque periférico, em relação ao estilo de vida e valores das classes favorecidas que habitavam a região central da capital federal. Por outro, tratando-se de um homem de letras, com formação diferenciada da de seus vizinhos e cheio de ambições intelectuais, nunca se sentiu plenamente integrado junto a seus semelhantes de classe e de cor, deplorando a indigência cultural em que, via de regra, estes viviam. Dividido entre os subúrbios e o Centro do Rio de Janeiro, entre o sentimento de solidariedade para com os desvalidos e seus projetos de legitimação social via literatura, Lima Barreto foi um dos primeiros escritores brasileiros a fazer, da vida dos indivíduos nos limites da ordem social, uma das matérias diletas de sua ficção, trazendo ao primeiro plano a “questão racial” e o legado social de mais de três séculos e meio de escravidão.

Outro ponto de interesse da biografia é a demonstração de como a ficção de Lima Barreto se alimenta de sua biografia. Não apenas alguns temas recorrentes e personagens da obra do escritor têm como referência sua realidade imediata e pessoas que lhe são próximas ou conhecidas, como, também, trechos de seu diário pessoal acabam aparecendo ou ressoando em sua ficção. Tanto que uma das principias críticas que a obra de Lima Barreto recebeu de seus contemporâneos era a de que seria por demais limitada a circunstâncias reais, resumindo-se a uma literatura de pouco alcance imaginativo. Em vez de confirmar tais juízos sobre Lima Barreto, Lilia Schwarcz delineia um imaginário autoral consistentemente estruturado, em que determinadas preocupações relacionadas às experiências pessoal e social do escritor ramificam-se em temas comuns às suas ficção, atividade jornalística e participação política (Lima Barreto acabou por se tornar simpatizante do anarquismo). Dessa maneira, é possível acompanhar a evolução do autor ácido de romances à la clef (em que pessoas e acontecimentos reais aparecem disfarçados) para o de intelectual consciente de suas responsabilidades sociais e que definia sua literatura como “militante”.

Ao longo de toda sua carreira, Lima Barreto se debateria contra o meio literário brasileiro. Nas últimas décadas do século XIX, assistiu-se a uma institucionalização da literatura na vida social de nossas classes instruídas. Se, antes, a atividade literária ficava restrita a formas específicas de sociabilidade — como as antigas academias do período colonial, os círculos estudantis e universitários do período romântico e as rodas boêmias dos primórdios da belle époque —, na passagem do século XIX para o XX, ela assumia um caráter “mundano”, integrando-se ao estilo de vida das elites e dos grupos que orbitavam em torno delas e que a elas aspiravam. O maior símbolo dessa institucionalização foi a fundação da Academia Brasileira de Letras em 1897. A literatura se tornava uma atividade valorizada, porém, na medida em que passava a se identificar com os valores e a ideologia dos grupos dirigentes, abandonava seu potencial crítico e instituía mecanismos de exclusão no que diz respeito à concessão de prestígio social. Lima Barreto insurgiu-se contra esses mecanismos, adotando como estratégia o confronto direto, o que se revelaria, a curto e a médio prazo, uma péssima estratégia. Crítico ferrenho dos círculos nos quais era produzida a literatura oficial do período, ainda assim o escritor ambicionava o reconhecimento público e o de seus pares, tendo, inclusive, candidatado-se duas vezes à ABL, instituição frequentemente atacada por ele.

O estilo de vida boêmio de Lima Barreto e seu alcoolismo também não o ajudariam. No começo do século XX, o Brasil tentava projetar uma imagem mais moderna para o restante do mundo, o que incluía a reforma urbanística do Rio de Janeiro, que botou abaixo a antiga cidade colonial. Nesse contexto, depositava-se sobre os homens de letras a responsabilidade de se tornarem os difusores de valores civilizacionais entre uma população ainda profundamente marcada pelo analfabetismo, de modo a se esperar deles uma postura condizente com seu novo papel, sintetizada pela noção de respeitabilidade. Como demonstra Schwarcz na conclusão da bibliografia, a reputação de boêmio seria um importante obstáculo à devida apreciação da obra de Lima Barreto logo após sua morte.

Se Lima Barreto não encontrou boa acolhida entre os literatos de sua geração, alvos constantes de suas invectivas, tampouco estabeleceria relação mais amistosa com os jovens escritores que despontavam no ano de sua morte, 1922, à frente do movimento modernista. Após desancar os modernistas da revista Klaxon pelo que, a seus olhos, era macaqueação do futurismo italiano, o autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha tornou-se, para aqueles, um símbolo de provincianismo e conservadorismo estético a ser combatido, prejudicando a recepção de sua obra nas décadas seguintes. Lilia Schwarcz lamenta o desencontro de Lima Barreto com o modernismo brasileiro, uma vez que, tanto pela crítica ao academicismo da literatura da belle époque, quanto pela proposta de trazer à tona a cultura de parte da população até então ignorada pelos escritores, haveria significativas afinidades entre o projeto modernista e a obra do biografado, como, por exemplo, na defesa de uma linguagem literária mais coloquial.

Espírito combativo e inconformista, Lima Barreto não passou em brancas nuvens: chamou a atenção e, sobretudo, incomodou o meio literário e jornalístico, sem, entretanto, alcançar uma posição de destaque em nossas letras, como tanto almejara. O autor ficaria razoavelmente obscurecido até que, na década de 1950, o jornalista Francisco de Assis Barbosa faria seu resgate, escrevendo a biografia A vida de Lima Barreto (1952) e organizando sua obra completa (que começaria a ser publicada em 1956), o que incluía alguns textos que se mantinham inéditos e outros que, veiculados apenas na imprensa, não eram de conhecimento do público em geral. Decidido ainda a empreender uma revisão do lugar ocupado por Lima Barreto entre nossos escritores, Assis Barbosa deixou a apresentação dos dezessete volumes da obra completa a cargo de alguns dos principais críticos literários da época, como Alceu Amoroso Lima, Gilberto Freyre, Lúcia Miguel Pereira e Sérgio Buarque de Holanda. Desde então, o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma estabeleceu-se definitivamente no cânone da literatura brasileira, mesmo que numa intermediária posição, expressa no fluido rótulo do “pré-modernismo”.

2017 foi um ano em que Lima Barreto esteve em evidência, não somente pela publicação da bibliografia de Schwarcz, mas também pelo fato de o autor ter sido o homenageado da Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP). Certamente, trata-se de uma ótima oportunidade de se repensar a obra do escritor carioca, possibilitando novos estudos, como ocorreu com Jorge Amado recentemente por ocasião de seu centenário (2012), coincidindo com a incorporação de Capitães da areia à lista de livros obrigatórios de dois dos principais vestibulares do país. Lima Barreto: triste visionário é um bom ponto de retomada, capaz de suscitar interesse tanto do grande público quanto de acadêmicos de áreas diversas, como História, Sociologia, Estudos Literários, Comunicação Social e até mesmo Biblioteconomia (destaco o capítulo sobre a “Limana”, a biblioteca pessoal do escritor); tudo isso escrito num estilo fluido e acessível, sem incorrer no jargão universitário, o que, caso ocorresse, seria uma contradição com as ideias do biografado.

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Emmanuel Santiago

Doutor em Literatura Brasileira pela USP. Autor de Pavão bizarro (poesia) e A narração dificultosa (crítica).