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Debate: doisladismo ou ágora de abantesmas?

por Lucas Baqueiro (16/10/2021)

Cumpre também questionar algo fundamental: a quem cabe decidir o que é intolerância e extremismo?

I.

Dando sequência ao debate sobre os limites implícitos para a abertura ao contraponto da grande imprensa, eis que me apresento na difícil tarefa de contrapor o brilhantismo de Marcelo Sarsur, tomando o lado antagônico na reflexão da querela entre Leandro Narloch, Thiago Amparo et caterva. Embora tenha, em verdade, a palavra de Sarsur via de regra como um oráculo, reservo-me ao direito de discordar em gênero, número e grau de sua posição.

Recapitulemos o busílis. Narloch, polemista profissional e autor de uma série de Guias Politicamente Incorretos (da História do Brasil, da América Latina, da História do Mundo, etc.), em sua coluna à Folha de São Paulo, decidiu resenhar a obra “As sinhás pretas da Bahia: suas escravas, suas joias”, do sociólogo baiano Antônio Risério, não sem aproveitar o ensejo para questionar o movimento negro e pôr-se a dá-lo lições de qualquer coisa. O intuito não era outro ‒ isto é uma obviedade! ‒ senão o de polemizar, de ser chamado de racista, insensível, fascista, representante da branquitude perversa, e toda aquela catilinária diuturnamente repetida por farsantes profissionais que mandam beijos de Paris e fazem propaganda de whisky caro enquanto falam sobre pobreza, miséria e racismo. É legítimo que Narloch polemize, visando vender cada vez mais livros e ganhar mais dinheiro, ainda que fazendo uma releitura suína e descabida da história. Também é legítimo que Djamilas e aprendizes polemizem, visando vender cada vez mais livros e ganhar mais dinheiro, ainda que também fazendo outras releituras suínas e descabidas da história. Dinheiro é como bacon: nunca é demais.

É óbvio que alguma figura do wokismo midiático se prestasse ao papel ridículo de chorar, gritar e espernear enquanto dava a Narloch exatamente o que ele queria. Quem cumpriu este papel vergonhoso, claro que com o mesmíssimo intuito do autor da resenha ‒ em uma espécie de relação de parasitismo mutualista, onde o parasita e o hospedeiro se ajudam mutuamente ‒ foi o professor Thiago Amparo, que até então fazia parte do Conselho Editorial da folha. Falarei mais adiante sobre sua coluna-resposta, algo que não trouxe qualquer novidade além do que era esperado, não-fosse pelo episódio de intensa diarreia mental e indigência intelectual que o assolou naquele momento. Não é de todo uma pena, porque estes momentos ‒ especialmente quando alguém se propõe, em tempos de Twitter, a exercer o posto de digital influencer acadêmico ‒ são um pedágio a ser pago na busca por um lugar ao sol na feira das vaidades da Internet.

Narloch, enquanto pessoa, de minha parte, não merece defesa. Seus comentários que valeram a demissão da CNN, por exemplo, dizem muito a respeito do que veio ao mundo, e desmerecem completamente o meu respeito ‒ ou o de quem quer que seja sério. Mas, o argumento apresentado na coluna da Folha, qualquer que fosse o seu intuito, sim, merece ser examinado mais a sério.

À esteira da questão entre Narloch e Amparo, contudo, o eminente Marcelo Sarsur traz uma pergunta importante: a dita imprensa séria deveria dar espaço aos extremistas para que falem? Quem cede espaço ao extremismo, em busca de ouvir os dois lados ‒ algo que o professor Sarsur apoda de “doisladismo” ‒ abdica da responsabilidade de participar do debate público?

II.

Em tese, a resposta passa pelo paradoxo da tolerância de Popper: quando se estende tolerância ilimitada aos intolerantes, os tolerantes serão suprimidos e a tolerância desaparecerá, e, portanto, deve-se ser intolerante com os intolerantes a bem da preservação da tolerância. Contudo, cumpre também questionar algo fundamental. A quem cabe decidir o que é intolerância e extremismo?

Destrinchemos o artigo de Narloch e a resposta de Amparo, tendo em mente o que é verdade, o que é mentira, o que é anacronismo, o que é aceitável e o que é inaceitável.

Narloch elenca, desde a leitura de Risério, algumas sinhás pretas da Bahia ‒ senhoras ricas, donas de escravos e vastas posses ‒ como personagens fascinantes. Aponta, ademais, que à época da colônia e do Império, sobretudo nos grandes centros do Brasil nascente, como a velha cidade da Bahia e o Rio de Janeiro, existia intensa mobilidade social: mulheres nascidas escravas terminavam, não raramente, na classe mais alta do estrato social. Diante deste cenário, aponta nominalmente que ao movimento negro não interessa falar sobre estas personagens, sobretudo porque abalaria aquilo que qualifica como “crença na culpa coletiva” ao tirar o negro da voz passiva quanto à sociedade e costumes escravagistas da época.

Amparo, por sua vez, não questiona coisa alguma do que Narloch disse. Limitou-se a dizer que sentiu ânsia de vômito depois de ler o texto, e apelar ao mais bizarro reductio ad Hitlerum. Eis algumas das bobagens ditas por ele: “por que ainda precisamos nos masturbar coletivamente com a relativização da dor preta?”; ou, “imagino como se sentiriam as escravas diariamente estupradas lendo seu texto”; ou, “[a]os escravos doentes jogados ao mar, faltou-lhes capitalismo?”, dentre outras perguntas passivo-agressivas e bobas. Por fim, coroou com aquilo que considerei a epítome da disenteria cerebral no colunismo brasileiro: “é peculiar da branquitude discutir o horror tomando chá”.

Invertamos. Depois de ler todo este horror, reservar-me-ei ao direito de discutir o horror da desonestidade intelectual perpetrada por Amparo enquanto tomo uma Coca-Cola ‒ chá é démodé ‒ à semelhança de como faziam os meus antepassados não só na Europa, mas também na Ásia, na África, e aqui na América, muito embora não apenas acompanhados de uma xícara de chá: às vezes, mingau de palmito, cerveja de trigo ou de milho, alguma bebida alucinógena, ou uma deliciosa perna de inimigo abatido na guerra anterior (ou um cervo, um javali, o que fosse) era suficiente para fazer com que os sábios sentassem em círculo para discutir os horrores. A esta prática, aliás, que é natural desde a invenção da linguagem, chamam-na por história. Até onde sabemos, a prática de debater a história não é peculiar da branquitude, mas a gênese de toda a civilização humana, por mais que o professor especializado em diversidade ‒ assim é que Amparo (comercialmente) se apresenta ‒ queira interditá-la. História, algo que os povos continuamente lutam para preservar porque compõe inteiramente a sua identidade cultural e civilizacional, para Amparo é um sinônimo de masturbação (palavras dele!).

A história, algo que aparentemente horroriza a Amparo, faz-lhe ter câimbras terríveis, vontade de vomitar, de chorar, é um terreno onde não cumpre a presença do anacronismo. Não se pode atribuir ao passado as emoções, costumes e conceitos de hoje, assim como a recíproca é verdadeira. Embora duvide muito que as escravas diariamente estupradas pudessem sequer ler o texto de Narloch, se vivo fosse àquela época e escrevesse tal comentário, também não me considero capaz ‒ e muito menos atribuo essa capacidade a Amparo, que provavelmente sabe muito menos sobre a história do Brasil escravista do que qualquer pessoa que tenha se dedicado a ler dois parágrafos de historiografia mais séria ‒ e entendo que cumpre questionar, já que estamos andando pelo terreno da ucronia boba, de adivinhar o pensamento humano: não poderiam dizer um “e daí?”, daqueles bem indiferentes?

Quando Narloch, que se aproveita da seriedade científica do texto de Risério, questiona o mau-hábito de ler a história com os olhos de hoje, e não ver como as pessoas de uma época entendiam o seu tempo, não comete pecado algum, por mais que pareça aberrante a Amparo. A escravidão era a realidade absoluta do Brasil até a década de 80 do século XIX. E, mais: pretos serem donos de escravos, algo que não tira legitimidade alguma da luta antirracista ou minimiza a escravidão, não era algo excepcional, mas corriqueiro. Uma busca en passant no censo demográfico de 1872 revelará algo que parecerá chocante a Amparo: a maior parte dos negros eram libertos; e a proporção de negros proprietários de escravos era a mesma de brancos proprietários de escravos. Por quê? Seria a experiência horrorosa da escravidão insuficiente para demover ex-escravos libertos de terem escravos? Faltou solidariedade? Faltou empatia? Não, não é nada disso. Era o costume do Brasil atrasado em matéria civilizacional, da África atrasada, tal como ainda hoje, em pleno século XXI, o de dispor das pessoas como se fossem um bem semovente. Excepcionais eram os que estavam à frente de seu tempo e se abstiveram de explorar a escravidão.

A escravidão esteve, até um dado momento do próprio século XIX, muito menos associada ao racismo do que à exploração humana. Ao mesmo tempo em que leilões de escravos ocorriam no Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, também ocorriam em Târgoviște, na Romênia ‒ com povos eslavos ‒ ou no Cairo. Os portugueses começaram a sua prática de escravidão em escala industrial com os mouros vencidos de guerra. Os indígenas da América já praticavam a escravidão antes da chegada dos europeus. O que facilitou aquilo que hoje vemos como um crime humanitário, um genocídio em massa, uma barbaridade ‒ e é mesmo, à luz do humanismo que temos enraizado na cultura global de hoje ‒ foi a existência de uma cultura pulverizada de escravagismo em toda a África, e a existência de vastas rotas de escravos. A diferença é que a rota se alterou: em vez dos escravos da África subsaariana irem na direção do Oriente, como era até o século XVI, passaram a ir para a direção do Ocidente. Porque esta mesma escravidão, dita de escala industrial, de massa, já existia: não por acaso o Império do Mali, o mais rico da história da humanidade, tinha as suas bases econômicas assentadas exclusivamente na escravização, comércio e venda de povos da África subsaariana.

O racismo, por sua vez, é algo da segunda metade do século XIX em diante. No Brasil, aliás, enquanto teoria pseudocientífica a ser promovida abertamente pelo Estado, foi algo que chegou até atrasado: veio para ficar na iminência da queda da monarquia e permaneceu oficial até o Estado Novo, quando passou a ser velado e oficioso como prática da República brasileira. (Aliás, como é sempre válido lembrar: mais uma das imbecilidades importadas pelo Exército Brasileiro, aquela vanguarda do atraso, à esteira do positivismo comtiano). Assentar as bases da escravidão no racismo, mais do que ignorância da história e da antropologia, é desonestidade absoluta. A base da escravidão esteve firmada, à época e em quase todos os casos da história ‒ com exceção daqueles que miravam oportunamente no extermínio étnico em massa ‒ naquilo que hoje firmemente vemos, por avanço, como a maldade humana.

O que quero dizer com isso, afinal? Que a história é a história. Não importa qual seja a intenção de Narloch, a história é realmente isso, e não há revisão alguma nisso. Lê-la de outro modo é mais uma importação barata da teoria crítica franco-americana ‒ o que tem virado prática, aliás, quando se tratada da novíssima academia colonizada brasileira: até a escravidão americana, que tinha um caráter muitíssimo diferente, mais amoral e até mesmo cruel (porque lá, se podia torturar e matar o escravo ao bel-prazer, ao contrário daqui), foi importada como se fosse a nossa. Ai de quem tentar falar de modo contrário!

E aqui, depois de longa parábola, voltamos ao extremismo, afinal. Quem é extremista, senão aquele que tenta interditar o debate histórico sob a sofrível cartada de que se trataria de masturbação coletiva com o intuito de fazer um bukkake ou um creampie sobre a carne preta? Quem é extremista senão aquele que, ao ver um contraponto às suas posições radicais ‒ e não raramente burras, porque todo radicalismo é burro ‒ tenta silenciá-lo? Foi o que Thiago Amparo fez a Leandro Narloch, tentando linchá-lo com base em nenhum argumento senão o de sua suposta dor. Suposta dor, aliás, porque não se pode falar em relativização do racismo quando se debate o fato (fato, fato, definitivamente fato!) de que o preto não foi sujeito absolutamente passivo no processo escravagista. Foi sujeito ativo na resistência a ela. Foi sujeito ativo na promoção dela. E continua sendo sujeito ativo nas consequências dela, inclusive como agente fomentador das políticas oficiosamente racistas do Estado brasileiro. A dor de hoje é por causa de ontem, mas não é a mesma de ontem. Nem para ele, nem para mim, que também descendo dos mesmos escravos e dos mesmos escravizadores, das mesmas estupradas e dos mesmos estupradores, dos mesmos donos e dos mesmos cativos.

Extremista é aquele que interdita o debate. Amparo é mais extremista do que Narloch. Sua coluna foi um dos episódios mais vergonhosos e nocivos do jornalismo da Folha, à altura daquele que foi protagonizado por Hélio Beltrão. Sua presença no Conselho Editoral da folha, sua coluna antes e depois, em nome da promoção de uma diversidade ‒ que jamais contemple opiniões distintas da sua, é claro; e nem tampouco contemple a verdade ‒ é prova de que o professor Marcelo Sarsur está certo: o doisladismo da imprensa brasileira, e que tem sido protagonizado pela Folha, é patológico e precisa acabar. O limite da liberdade editorial existe, e é o paradoxo de Popper. Por esta régua, Amparo e seu séquito também não passam.

Porquanto existir abertura ampla para o extremismo cultural, anticientífico, escatológico e ao culto do obscurantismo, é natural que ele adentre a imprensa pelo lado esquerdo e direito da entrada escancarada. À Folha, é natural ceder espaço para Hélio Beltrão disparar bobagens quando se vê, em nome do mesmo pluralismo infantil, uma seção inteira de Djamilas, Amparos e afins desfilando em suas páginas. E porquanto se veja impelida a tal, por conta da força do extremismo em uma sociedade fraturada e radicalizada, nada mais justo que se ponha como ponto de repercussão enquanto ágora de uma aldeia global de ignorantes.

Por fim, esta não é uma defesa sequer de Narloch, mas da obra de Antônio Risério. Usa-se Narloch como boi de piranha, pois é polemista e garoto-problema, e assim gosta de ser propagandeado. Mas, usa-se, sobretudo, porque não se pode atacar à obra de Risério sem cair em descrédito. E, assim, o extremismo woke dos mais patéticos justiceiros sociais apela para o alvo mais fácil, pois bem sabe que desse alvo pode extrair aquela mencionada relação simbiótica onde quase todos ganham. Ganha Narloch, ganha Amparo, perde o jornalismo brasileiro.

Lucas Baqueiro

Bacharel em Humanidades pela UFBA. Editor de política e atualidades da Amálgama.

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