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Gustavo Nogy, meu malvado favorito

por Emmanuel Santiago (02/11/2017)

O bom humor do estilo de Nogy consiste principalmente no mau humor de sua persona literária.

“Saudades dos cigarros que nunca fumarei”, de Gustavo Nogy (Record, 2017, 266 páginas)

Sou o crítico mais suspeito e, ao mesmo tempo, o mais insuspeito para escrever a resenha de Saudades dos cigarros que nunca fumarei, de Gustavo Nogy. Suspeito porque o autor é meu amigo, vivemos na mesma cidade e já fomos colegas no finado Ad Hominem, ainda que minha participação em tal blog fosse bastante episódica. E insuspeito porque identifico-me como progressista, ao passo que as ideias de Nogy se localizam em algum lugar do espectro político liberal-conservador. De fato, tenho muitas discordâncias em relação ao que pensa e escreve o autor, mas o diabo é que seu estilo é tão fluido e elegante, e seu humor, tão fino e certeiro, que adoro discordar dele. Gustavo Nogy é meu malvado favorito.

Essa rápida introdução pode dar a entender que encontramos no livro argumentos previsíveis, seguindo a cartilha daquilo que se convencionou chamar por aí de “nova direita”, mas não. Dono de uma argúcia desconcertante e de uma lucidez rara no debate contemporâneo, o autor consegue encaminhar discussões aparentemente já saturadas por sendas insuspeitas, deslocando e subvertendo lugares-comuns. O livro tem potencial para desagradar a gregos e troianos, e esta é, sem dúvidas, uma de suas maiores qualidades.

Os textos de Saudades dos cigarros… são um híbrido de ensaio e crônica, dois gêneros bastante híbridos e flexíveis por si mesmos; alguns deles são mais propriamente ensaísticos (“A cultura brasileira (não) existe”, “Escravos de Jó”, “É isto um livro?” etc.), já outros são crônicas mais convencionais (“Risco de vida”, “Esta cidade não merece um verso”, “O doente imaginário” etc.). Há, ainda, a presença de outros gêneros, como a resenha (“Preço não é valor”), o encômio (“O último bípede”) e o necrológio (“Condenar o pecado, perdoar a literatura do pecador”). Nenhum deles, entretanto, escapa às possibilidades do ensaio.

Partindo do relato de uma experiência pessoal ou comentando algum fato do noticiário mais ou menos recente, os textos se desdobram numa reflexão mais geral, o que amplia o escopo da discussão e justifica o resgate de polêmicas de alguns anos atrás, período que pode parecer dilatado nestes tempos de mídias sociais. Porém, se as polêmicas passaram, as questões que as originaram ou por elas suscitadas continuam presentes no debate atual. Claro, algumas vezes percebe-se que o objetivo principal de um texto é menos formar um argumento do que realizar um chiste ou provocar o leitor — “causar”, em bom português contemporâneo —, mas, mesmo nestes casos (ou, talvez, principalmente nestes casos), a verve de Nogy se mostra afiadíssima e o autor diverte, ou irrita, ao mesmo tempo em que faz pensar.

Embora o modo textual de Saudades dos cigarros… não seja ficcional, uma persona literária emerge dos ensaios e crônicas que compõem o livro. Sua principal característica é a ranhetice, isto é, um olhar crítico e, em alguma medida, pessimista em relação à natureza humana e ao mundo contemporâneo. E esta é uma questão central: o bom humor do estilo de Nogy consiste principalmente no mau humor de sua persona literária. Há, além disso, uma desfaçatez nos textos que noz faz lembrar certo narrador machadiano que escrevia com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, o que coloca o autor na melhor das boas companhias da literatura brasileira. Vejamos (de “Pais e filhos”):

Em que momento, exatamente, dos últimos vinte, dos últimos trinta anos, passamos a acreditar que os miúdos são espécie sui generis, digna de toda nossa atenção e reverência? Os antigos miravam figueiras, cruzes, mandalas, vazios para atingir a iluminação espiritual. Nós miramos nossas crianças rabiscando qualquer coisa incompreensível no papel. Nós atingimos o nirvana assistindo à Peppa Pig. (p. 38)

Gustavo Nogy filia-se ao que de melhor a crônica já rendeu por aqui, em linha de continuidade com Nelson Rodrigues e Paulo Francis. Aliás, é interessante perceber que, com a possível exceção de Luis Fernando Verissimo, o humor ferino é uma dádiva que não costuma habitar o texto de nossos cronistas à esquerda. Não que muitos deles não o tenham tentado ou continuem tentando. Contudo, ora patinam num estilo ginasial, ora em suas boas consciências (quando não em ambos). Pois o escritor progressista é, antes de tudo, um chato! Mesmo quando pretende ser descolado, irreverente, ele acaba soando tedioso: a graça é apenas um artifício da linguagem, pois as ideias são sempre graves, e as causas, as mais nobres possíveis. O escritor progressista não esculhamba, ele conscientiza; não escarnece — problematiza. Vejam-se os insultos mais frequentes em seu texto: fascista, reacionário, misógino, alienado, chauvinista (old school), homofóbico (sic), racista, etnocêntrico etc. O leitor precisa consultar um manual de sociologia. E coxinha, então? É o correspondente universitário de “cabeça de pudim”. Até os humoristas de esquerda são sérios, meu Deus! É gente que parece ter aprendido a fazer stand-up nas reuniões do DCE.

Gustavo Nogy, por outro lado, fazendo jus à linhagem que se inicia com o “reacionário” Nelson Rodrigues (de quem se aproxima inclusive pelos textos sobre futebol, saborosos até para mim, que estou longe de ser um fã do esporte bretão), não poupa farpas, dirigindo seu humor corrosivo contra vários alvos: Roberto Carlos e sua sanha persecutória, ateísmo, os excessos de mimos com os quais são cercadas as crianças de hoje, a surrada autoajuda travestida de coaching, a crença ingênua no Estado e na democracia, teorias conspiratórias e esoterismos, feminismo e demais movimentos identitários, a medicina e sua obsessão por normatizar a existência, sociólogos e acadêmicos em geral, a instituição escolar, Sebastião Salgado, Lula e o PT, artistas dependentes de subsídios estatais, e a lista poderia prosseguir por várias linhas… Mas se engana quem pense que o autor concentra sua munição apenas nos alvos de sempre, eleitos à esquerda. Em “Do ateísmo geográfico”, Nogy se volta contra um dos valores mais alardeados pelos movimentos de direita que despontaram recentemente por estas plagas — o nacionalismo, modalidade superestimada de provincianismo:

Não se deve ter vergonha de lugar algum pelo mesmo motivo por que não se deve ter orgulho de lugar algum: nascimentos são acidentes. Meus avós vieram da Hungria para o Brasil, e não sei se deveria me envaidecer disso. Será mérito ser húngaro e demérito ser brasileiro? Ser metade de uma coisa somada à metade de outra? Seja uma coisa, seja outra: a culpa não é minha. O mérito, se houver mérito, não é meu. Que existam os costumes — admita-se. É onde vivemos, é a comunidade de que participamos. Mas o senso de ironia — a capacidade de achar graça das próprias origens: “O solo! O sangue!” — é ainda mais civilizado do que a satisfação tola de ser catalão e não espanhol.

Em outro contexto, o de crítica à ideia de dívida histórica, o ensaísta desmonta o essencialismo nacionalista (quimera presente tanto no discurso da direita quanto no da esquerda), que enxerga o Brasil como um ente de existência empírica:

Brasil é o nome que se dá a certo território, cujos habitantes (vermelhos, negros, brancos, amarelos) falam determinada língua e gorjeiam, retifico, cantam determinado hino. Brasil, como toda nação, é uma entidade ficcional que por preguiça aceitamos como coisa real. Como se houvesse braços e pernas no Brasil. Como se houvesse coração e vísceras. Como se houvesse cérebro, razão e vontade. No Brasil.

Num tom diverso, lírico, Nogy também se posiciona contra certa tendência infantil de se negar valor estético a uma obra literária devido às inclinações políticas do autor, referindo-se, no caso, à morte de Gabriel García Márquez (“Condenar o pecado, perdoar a literatura do pecador”). Aliás, se é o tom humorístico que predomina em Saudades dos cigarros…, é justamente no lírico que o livro atinge um de seus pontos mais altos: “Esta cidade não merece um verso”, no qual temos uma meditação desencantada sobre a cidade de Jacareí, interior de São Paulo, mesclando nostalgia e melancolia com uma dose comedida de ironia. É um texto de uma beleza enternecedora e, ao mesmo tempo, de uma sutil crueldade.

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Outro ponto alto, e aqui já voltamos ao tom humorístico, é “Sísifo on the beach”, em que se descrevem os suplícios autoinfligidos por aqueles que, sendo legião, pretendem fugir à vida estressante nas cidades dirigindo-se à praia nos feriados:

Turistas de fins de semana são como Sísifos voluntários. Sísifos orgulhosos e absurdos. O que intriga nesses indivíduos não é a regularidade estéril com que rolam sua pedra montanha acima, nos finais de semana, só para vê-la rolar montanha abaixo, na segunda-feira, e sim o fato de não se tratar de uma condenação, mas de uma escolha deliberada. Convenhamos: uma escolha deliberadamente estúpida.

Ademais, pode-se discordar do autor quanto a seus posicionamentos, só não se pode negar a eficácia de seu humor e, sobretudo, a qualidade de seu estilo. Nogy tem um dos estilos mais elegantes da prosa ensaística e cronística que se escreve hoje — e digo isso, creiam-me, sem o menor exagero ou compadrio —, o que é um alento para leitores dos mais diversos matizes ideológicos. Seu texto possui fluência e um ritmo que, mesmo não sendo coloquial a sua linguagem, aproximam-se da conversação. E Nogy é sempre garantia de um bom papo. Nada que se pareça com o estilo ginasiano de um Gregório Duvivier ou o academicismo de um Safatle e de uma Eliane Brum; ou com o estilo tatibitate e o sarcasmo óbvio de um Pondé. Talvez as referências mais próximas sejam Reinaldo Azevedo e João Pereira Coutinho. Em matéria de humor, um Diogo Mainardi mais sofisticado, temperado com Brás Cubas (uma ironia mais fina), como já disse.

Contudo, não posso deixar de mencionar que o humor, embora ajude a formar uma nova perspectiva dos temas tratados, pode acabar, também, planificando a discussão. É o que ocorre, por exemplo, em “Toda forma de amor”, no qual a relação entre dois indivíduos devidamente cônscios de sua condição humana é igualada à relação de pessoas com seres inanimados, o que sequer chega a ser uma novidade, visto que, há alguns anos, um artigo da Veja comparou o casamento homoafetivo a alguém que se relacionasse com cabras e espinafres. Trata-se de um chiste, eu sei, mas que corre o risco de introduzir-se como argumento válido para leitores acorrentados ao pé da letra, quando não passa de um falso paralelismo.

Feita essa ressalva, creio que posso recomendar a leitura de Saudades dos cigarros que nunca fumarei para todos aqueles interessados numa prosa bem escrita e em dar boas risadas. Aliás, fica a dica para presentear, no amigo oculto do final do ano, aquele seu primo que faz Ciências Sociais na FFLCH (mas que, como eu, provavelmente não participa de tais festividades burguesas). Numa época de intensa polarização política, em que militantes virtuais e cruzados imaginários se preparam para uma guerra cultural, nada melhor do que um bom papo à mesa do café na Padaria Auxiliadora, em Jacareí, a cidade que não merece um verso, mesmo que eu não beba café.

Em tempo: Gustavo Nogy acaba de ser contratado pela Gazeta do Povo.

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Emmanuel Santiago

Doutor em Literatura Brasileira pela USP. Autor de Pavão bizarro (poesia) e A narração dificultosa (crítica).